domingo, 20 de setembro de 2026

A nossa leitura de "As raparigas de Salem", de Thomas Gilbert - edição Arte de Autor

 


Este não foi um livro fácil. Não por falta de qualidade, mas porque é muito perturbador, sinistro e custou-nos mais lê-lo por sabermos que foi baseado em factos reais. A obra é da responsabilidade do autor francês Thomas Gilbert, que irá estar presente este ano em Portugal, para participar no Festival Amadora BD, a convite da sua editora, Arte de Autor. Também terá uma exposição sobre a obra.

O autor inspirou-se nos famosos julgamentos das bruxas de Salem, ocorridos na Nova Inglaterra no século XVII. A história tem tanto de emoção como de horror e temos como protagonista Abigail Hobbs, uma jovem de 14 anos, que mora na colónia de Salem. 

Numa primeira fase, conhecemos um pouco do dia a dia de Salem, ainda num ambiente aparentemente calmo, Abigail com uma vida familiar normal dentro do possível para os padrões da época e do enquadramento daquela comunidade. No entanto, à medida que vamos avançando na história, a narrativa, acompanhada pelo desenho, mostra-nos que o ambiente inicial é mesmo só aparente, pois existe uma tensão crescente, com muito medo e desconfiança à mistura.

O reverendo é também aqui uma figura central, pai da melhor amiga de Abigail, mas capaz das maiores atrocidades e hipocrisias. Ele vai instigar cada vez mais a população da comunidade e o seu fanatismo religioso exacerbado vai assumir uma gravidade extrema.

Já sabemos que a ignorância e o preconceito quando se juntam não dão bons resultados e aqui, são bem alimentados por um louco demoníaco, o reverendo Parris. É ele que vai acusar jovens raparigas e mulheres de bruxaria, persegui-las e condená-las à morte. Com a conivência dos outros homens, que vão atrás das suas ideias, mesmo que isso lhes vá destruir a família, tendo em conta que as jovens mulheres são-lhes próximas.

Confessamos que demorámos a ler este livro porque tivemos que parar várias vezes para respirar fundo, ler algo mais leve, até voltar a retomar a leitura, mergulhando neste mundo de obscurantismo e opressão, de uma crueldade que nos dá voltas ao estômago e à alma.

É uma obra muito intensa, muito triste e revoltante, que nos perturbou porque infelizmente, sendo verdade, ainda vive nos dias de hoje, com outros contornos. A história passa-se no século XVII, mas hoje continua a existir fanatismo, intolerância, preconceito, medo do que é diferente e violência extrema.

Em termos visuais, Thomas Gilbert consegue transpor todo este ambiente sombrio através do desenho e cores escolhidas, e da expressividade intensa das personagens.

A novela gráfica "As raparigas de Salem - Como condenamos as nossas crianças" é mais uma excelente aposta da Arte de Autor, num formato mais pequeno do que um livro de banda desenhada tradicional, facto que apreciamos muito.




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