Tínhamos aqui esta análise em atraso, tendo em conta que o livro foi lido já há algum tempo e foi objecto de análise no Clube de BD da Fnac, do mês de Maio, no qual participámos. Gostámos muitíssimo desta aposta da Arte de Autor. O Jardim, Paris, de Gaëlle Geniller, é uma obra prima de beleza e sensibilidade.
A história passa-se em Paris, década de 1920, e acompanha Rose, um jovem de 19 anos criado num cabaret dirigido pela mãe, que se chama "Jardim". Desde criança rodeado por bailarinas, todas elas com nomes de flores, Rose tem o sonho de um dia subir ao palco e dançar, facto que para ele é tido como absolutamente natural. Portanto a narrativa tem início num ambiente perfeitamente familiar, o que leva Rose a não sentir (nem o leitor, já agora) nenhum tipo de conflito interior, nem de desconforto.
Acontece que devido a uma bailarina ter adoecido, a entrada em cena de Rose dá-se mais cedo do que imaginava e rapidamente se transforma na principal atracção do cabaret e na adoração de um cliente que passa a frequentar o cabaret só para ver Rose dançar.
Relativamente à opção de Rose, há que realçar que a obra não apresenta o protagonista como alguém que “quer ser mulher”. Pelo contrário, Rose é um rapaz que gosta de vestir-se de mulher e dançar de uma determinada maneira, mas apesar de apreciar a estética feminina, não deixa de ser um homem. Aimé, o admirador de Rose, torna-se também seu confidente e uma figura de apoio. A relação entre ambos introduz uma dimensão afectiva que não depende simplesmente da atracção física. Aliás, em toda a obra não nos é mostrado nada de explícito quanto a uma relação mais íntima.
Há muitos aspectos que nos fizeram gostar muito desta obra, mas há dois fundamentais:
- O amor incondicional da mãe de Rose. Ela e as bailarinas aceitam sem reservas o facto de Rose dançar como elas e gostar de se vestir de mulher. O ambiente entre elas é de uma verdadeira família, onde os seus elementos são solidários e se apoiam uns aos outros.
- O facto de, dentro do Jardim, verificarmos a ausência de conflitos. Ou seja, a autora optou deliberadamente por construir uma história onde se privilegia o amor incondicional, a beleza, a contemplação, a sensibilidade, a liberdade de se ser como se quer, em vez de se centrar na oposição entre as escolhas de Rose e os preconceitos da sociedade. Só vamos sentir que Rose é diferente (e ele também), quando sai do seu espaço protegido, quando entra em contacto com o mundo exterior.
Relativamente a esta questão que acabámos de referir, é importante perceber que aquilo que se possa entender como uma excessiva ingenuidade da autora, não se trata nada disso. Faz parte do projecto de Geniller ao criar o Jardim, pois o cabaret funciona quase como uma utopia, que nos permite imaginar uma sociedade diferente. E é isso que torna o livro tão bonito, a par da arte visual. É sentirmos que a sociedade seria perfeita se nos respeitássemos uns aos outros e as opções de cada um. Este livro transborda de ternura, de amor, empatia e aceitação.
A acompanhar tudo isto, visuais incríveis, com desenhos muito delicados, ambientes muito próprios dos loucos anos 20 do século passado, onde não faltam as festas, a dança, muita cor, roupas exuberantes e flores. As flores constituem uma presença fundamental, pois estão presentes nos nomes das personagens, nos figurinos, na decoração e na arquitectura.
Aconselhamos mesmo muito, a leitura desta obra onde o Jardim é um lugar onde diferentes "flores" podem crescer. Uma metáfora da diversidade, um lugar aceitação e compreensão.





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