La Poupée sans tête (Les Nouvelles Enquêtes du Commissaire Raffini)
Sejamos claros: adoro esta série, que passou ao lado do mercado português e que, mesmo no Franco-Belga é uma série de nicho (de grande nicho, por vezes). No panorama vasto da banda desenhada franco belga, onde séries policiais clássicas e thrillers contemporâneos coexistem frequentemente sem grandes zonas intermédias, Les Nouvelles Enquêtes du Commissaire Raffini ocupa um espaço curioso: discreto, elegante, e de uma profundidade não aparente. Com La Poupée sans tête, um dos seus álbuns mais representativos, confirma se essa impressão de uma obra que, apesar da sua qualidade, permanece relativamente à margem das grandes referências do género.
A série constrói-se sobre um equilíbrio particularmente interessante entre herança clássica e sensibilidade contemporânea. À primeira vista, Raffini inscreve-se na tradição do policial franco belga, mas a (excelente) escrita introduz uma dimensão mais psicológica e atmosférica, afastando se do modelo puramente dedutivo para privilegiar a observação social e a ambiguidade moral.
Neste tomo, a intriga — construída em torno de um objeto aparentemente simples, a boneca sem cabeça — funciona mais como ponto de entrada do que como centro narrativo. O que interessa não é apenas “resolver o caso”, mas explorar o que ele revela (a boneca, aliás, remete-nos para uma certa perda de inocência, que é clarificada, aliás, pela participação blasé de duas personagens grandes das décadas de 50 e de 60 do cinema francês).
O leitor é conduzido por um percurso de descoberta que é tanto emocional (sendo Raffini um dos Comissários mais reservados e sensíveis que já conheci) quanto lógico.
O desenho realista é belíssimo, privilegia a clareza e as emoções, é simples e “caseiro”: parece que estamos entre amigos desde a primeira página. E, efetivamente, uma certa falta de espetacularidade (que os autores provam desnecessária), para além da difícil “catalogação” da séria fazem com que seja, na minha opinião, das mais subvalorizadas que tenho visto. É, para além disso, uma BD que não é de leitura rápida, essencialmente porque apela muito à atenção ao detalhe e à memória.
Apesar disso, esta série e este tomo apresentam um conjunto de qualidades que vão desde a consistência narrativa à identidade gráfica sólida e reconhecível, passando pela coerência entre melancolia, tensão e observação social e pela inovação no sentido da capacidade de trabalhar o género policial sem se submeter aos seus códigos mais previsíveis.
Aos comandos desta série, cujo último tomo foi editado pelas edições du Tiroir, temos, desde sempre (desde 1980, se não estou em erro, com os primeiros tomos desenhados por Ferrandez), Rodolphe (argumento), e desde há bastante tempo, Maucler (desenho).
Já tinha tido a oportunidade de aqui falar sobre o tomo 1 de M.A.D. (significa Mechanical Assault Division) de Nicolas Jarry e Thomas Legrain, publicado pela editora Le Lombard (o tomo 1 era de 2024), que me tinha parecido uma ficção científica interessante e particularmente promissora.
A série decorre num futuro pós apocalíptico, após uma guerra devastadora entre a humanidade e máquinas autónomas chamadas “Mechams”. Os humanos sobreviventes estão localizados em enclaves isolados, e o centro desta aventura é na Rússia. A destruição e as ruínas (e muita ferrugem) são o “décor” desta BD em que as personagens centrais são a rebelde agente Daïa Anikine e o seu androide Socrate. Um dos twists interessantes desta história consiste na partilha de consciência entre os dois – método encontrado para que as “máquinas” não se revoltem e autonomizem.
No primeiro tomo, o ambiente era apresentado, os combates contra grupos de máquinas eram marcantes, a rivalidade entre colegas agentes (e seus androides) era associado a linhas de relacionamento com as cadeias de comando. Logo no primeiro tomo, o tema que passa a dominar é o da investigação do assassinato de uma colega muito próxima de Daïa, dentro do próprio sistema protegido, o que indica alguma “traição”.
Daïa, obviamente, decide agir fora da cadeia de comando para descobrir a verdade, e cria inimigos e encontra obstáculos internamente e externamente, tendo de recorrer à sua família restante (um tio, que descobriremos, foi um dos personagens centrais no desenvolvimento tecnológico que acabou por conduzir à guerra máquina-homem). A investigação leva a descobrir uma conspiração mais ampla – chega a ser usado o tema (que será futuramente desenvolvido, certamente) do desaparecimento, há muitos anos, da irmã de Daïa. Pelo meio, os autores aproveitam para desenvolver um questionamento da relação homem–máquina, quer do ponto de vista ético, quer do ponto de vista de eficiência, procurando limites e pontos fracos da dependência.
A originalidade perde-se um pouco no tomo 2 porque, na minha opinião, os autores tentam desenvolver a intriga com alguma “rapidez” para ter uma narrativa coerente mas com alguma completude em cada tomo. Obrigações editoriais, imagino, mas ganharíamos com uma evolução mais lenta e estruturada da narrativa. O conjunto é interessante, o “universo” é bastante bem construído, e é coerente, as personagens bem caracterizadas, o desenho é muito bom, detalhado, muito dinâmico, muito eficaz nos ambientes e nas personagens.
Um segundo tomo que se lê com “suspense”, e uma intriga com muitos temas em aberto. A acompanhar, com o tomo 3 prometido para agosto.
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