Já muitos balanços foram feitos, mas como as experiências são diferentes para cada pessoa, faltava escrevermos aqui a nossa opinião sobre a edição deste ano do Amadora BD.
A 37.ª edição do Festival Amadora BD talvez tenha sido a melhor dos últimos anos (seguramente uma das melhores da história do Festival) no que toca à presença de grandes nomes da banda desenhada internacional (e nacional também, claro). E isso justifica o elevado número de visitantes, que não quis perder a oportunidade de conhecer os autores da sua preferência. Vimos muita gente nova, fora o grupo dos fanáticos do costume (onde nos inserimos), o que prova que há muito mais leitores de banda desenhada, o que nos deixa francamente felizes. Este é sem dúvida um resultado positivo do caminho que se tem vindo a trilhar, pelos editores, promotores dos festivais, divulgadores de conteúdos relacionados com BD. E este crescimento traduz-se numa maior responsabilidade das organizações de eventos deste género, neste caso específico, do Amadora BD, tendo em conta que o crescimento do público leva a ter de se repensar o formato do Festival.
Quanto ao cartaz não gostámos mais uma vez do design, mas este foi compensado com um excelente desenho de Luís Louro, no seu melhor!
Quanto a nós, foi talvez a edição mais intensa e exigente, tendo em conta que à parte de termos estado horas nas filas para conseguirmos senhas para os autógrafos, realizámos várias entrevistas (Mansoureh Kamari, Guy Delisle e Craig Thompson), assistimos a vários painéis e participámos em três deles (com Mansoureh Kamari, Luís Louro e João Mascarenhas).
Para facilitar a nossa análise, vamos por tópicos, com os seus pontos positivos ou negativos:
- A DATA
A data escolhida e antecipada, tendo em conta as tradicionais datas, não é positiva. Percebemos que queiram abarcar o dia 18 de Outubro por ser o Dia Nacional da Banda Desenhada, mas para quem quer comprar livros e ainda está longe do final do mês, não é convidativo para aquisição das muitas novidades disponíveis nos stands das editoras.
- OS ESPAÇOS
Não gostaríamos de estar sempre a bater mais na mesma tecla, mas ligando ao que já dissemos mais acima, é uma constatação comum de que o Amadora BD não poderá crescer e irá estagnar se continuar com o núcleo central no mesmo espaço.
Apesar de ligeiras alterações para melhor, com a troca da área do auditório com a dos autógrafos, não foi suficiente. O auditório, apesar de maior, continua a ter péssimas condições de som, o que leva a que a experiência de quem assiste e de quem participa nos painéis, não ser 100% agradável.
A zona de autógrafos deveria ter melhor sistema de iluminação (os autores tinham que estar a desenhar na penumbra e com os fãs a iluminar com as lanternas dos telemóveis). A distância entre autores era mínima, o que também fazia com que os fãs que estavam em frente a cada autor, estivessem a acotovelar-se.
Acresce uma palavra aqui sobre a elevada temperatura que se fez sentir dentro das tendas (ainda para mais de cor negra, que retem mais o calor), em especial a tenda do stand das editoras/auditório/autógrafos, o que causou muito desconforto, até dos autores que suavam em bica enquanto desenhavam. Mas ao que parece, a tenda do gaming, também sofreu do mesmo mal.
Também uma nota relativamente à identificação dos autores. Nem sempre os fãs conhecem os rostos dos autores e têm dificuldade em localizá-los quando há um grande número de pessoas à volta e a tapar o painel da numeração das senhas. Sugere-se melhoria na sinalização.
A descentralização de exposições para a Galeria Municipal Artur Bual e para a Bedeteca da Amadora, só funcionaria se todos os espaços fossem próximos uns dos outros. Com deslocações obrigatórias de carro e dificuldades de estacionamento, é complicado conseguir visitar todas as exposições do Festival. Nós visitámos todas, mas é triste ver as exposições satélite, às moscas.
- A RESTAURAÇÃO
Parece um pormenor de pouca importância, mas dado que cada vez mais pessoas passam o dia inteiro no Festival, será de tentar aumentar e variar a oferta, no que toca à zona de restauração e pensar numa alternativa para não ser ao livre. À torreira do sol não é simpático, nem à chuva. Sorte foi que este ano, ao contrário da tradição, não choveu durante o evento (apenas uma chuvinha molha-tolos de manhã cedo, antes da abertura, na fila para os autógrafos).
- A EQUIPA
Uma palavra para a equipa do Amadora BD, sempre muito presente, em especial a equipa da comunicação, sempre disponível para o agendamento e agilização das entrevistas e os voluntários responsáveis por assistência aos autógrafos, sempre simpáticos e mesmo no meio do caos tentaram sempre arranjar soluções para os problemas que iam surgindo.
- AS EXPOSIÇÕES
Ao longo de vários dias fomos publicando aqui imagens e textos sobre todas as exposições que integraram esta edição do Festival, três delas que ainda podem ser visitadas. Portanto, não nos vamos adiantar sobre este tema, pois na generalidade, no que toca à cenografia, estavam todas com elevada qualidade, cada uma com as suas características.
- AS APRESENTAÇÕES E O AUDITÓRIO
É certo que este ano o auditório ficou um pouco mais recatado e aumentou o número de lugares para assistir aos painéis, mas continua a não ser o ideal. As condições sonoras são deficientes, os painéis decorrem ao mesmo tempo que as sessões de autógrafos, o que leva a perder-se assistência potencialmente interessada. E mesmo aos interessados e disponíveis, por vezes a programação passa-lhes ao lado, pois não existe qualquer painel com informação sobre a mesma.
- OS AUTORES
Esta edição ficará para a história com uma das melhores, ou a melhor, no que diz respeito ao cartaz de autores que estiveram presentes e que fizeram as delícias dos seus fãs. Talvez por isso, este ano a corrida aos autógrafos se tenha transformado numa verdadeira loucura. Falaremos sobre isso no tópico seguinte. Aqui não podemos deixar de referir, que para além da qualidade e do talento dos autores presentes, todos eles se revelaram de enorme simpatia e disponibilidade, e foi muito agradável podermos trocar algumas palavras com muitos deles e um privilégio termos realizado entrevistas com Mansoureh Kamari, Guy Delisle e Craig Thompson.
E por falar em entrevistas, isso leva-nos às condições deficientes para a realização das mesmas. Houve, em tempos, no Amadora BD, espaços próprios para a realização de entrevistas com os autores, mais reservados, com condições sonoras razoáveis, para a gravação das mesmas e de conforto para os entrevistados e entrevistadores. Este ano, o que nos propuseram foi realizar as entrevistas no mesmo local das exposições, sem condições de recato, no meio do barulho dos inúmeros visitantes e da exposição interactiva do Dylan Dog que fazia o público carregar vezes sem conta uma campainha que gritava. Agora imaginem estar a entrevistar um autor estrangeiro, num espaço onde mal nos entendemos por causa do barulho e estamos constantemente a ouvir gritos. Isto tudo, mal sentados, no meio do público. Valeu-nos a simpatia e colaboração dos autores Sugerimos por isso, que a organização repense estas questões e, já agora, pense num espaço onde os autores possam descansar em períodos de pausa, onde possam comer o seu pastelinho de nata tranquilamente, sem ser ao mesmo tempo que desenham.
- O SISTEMA DE SENHAS PARA AUTÓGRAFOS
Não somos mágicos nem oferecemos soluções perfeitas, porque este tema não é fácil. Nunca foi. Mas com o crescimento de leitores de banda desenhada que se verifica e com a qualidade dos autores presentes, este ano foi a absoluta loucura, levando fãs a marcarem lugar desde as seis da manhã, para conseguir senhas para os autores preferidos.
Acontece que há fura-filas no pavilhão dos editores e depois das pessoas terem estado horas à espera, quando chegaram ao dispensador de senhas, mesmo sendo as primeiras a chegar, não receberam senhas número um. Nós próprios, por exemplo, houve um dia em que supostamente conseguiríamos senhas, pois estávamos no lugar 19 e 20 e quando chegámos ao dispensador de senhas, já éramos o 23 e ficámos sem senhas para os autores que queríamos. Esta situação é profundamente injusta para quem se levanta de madrugada e ainda assim, não consegue obter senhas, devido a "batotice". Talvez se os editores tiverem um acesso diferente, a senhas especiais com os autores, mas passarem à frente do público, não é correcto. E também é injusto para visitantes menos fanáticos, que nem sonham como decorre o mecanismo das senhas e aparecem só à tarde, convictos de que conseguirão um autógrafo do seu autor de eleição. Outra coisa, que minimizaria a confusão, é que à priori a organização pudesse saber quantos autógrafos cada autor consegue dar em x tempo e facultar um número de senhas apropriado. Sabemos que há autores que demoram quase meia-hora com um desenho e outros que em despacham cada um em dois minutos. Isso impediria que se distribuíssem, da parte da manhã, apenas 10 ou 15 senhas para um autor e afinal à tarde esse mesmo autor desse praticamente o dobro dos autógrafos.
Nota positiva pela organização ter acrescentado, uma vez mais, períodos de autógrafos para as sextas-feiras, pois permitiu ainda assim descentralizar um pouco a confusão dos fins-de-semana.
- OS EDITORES E AS NOVIDADES EDITORIAIS
Sobre as novidades são muitas, mesmo muitas e temos vindo a falar sobre elas nos últimos dias e ainda continuaremos a fazê-lo. A quantidade de editores e de edições provam bem como a banda desenhada está bem viva. Aos habituais stands dos últimos anos, juntou-se pela primeira vez, nesta edição, a Bertrand, que também já começa a ter um catálogo muito interessante.
- OS PRÉMIOS E OS VENCEDORES
Há sempre polémica nos Prémios de Banda Desenhada da Amadora. Será tempo de reverem o regulamento e aumentarem o número de elementos do júri, para não acontecer um dos elementos abster-se de votar numa categoria e depois serem só duas pessoas a tentarem chegar a um consenso. Um número de jurados tão pequeno, é pouco democrático, o que chama ainda mais a atenção quando há prémios monetários em jogo e este ano, felizmente a organização aumentou para o dobro, o valor do prémio da ‘Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português’ (10.000€) e, pela primeira vez, atribuiu um prémio pecuniário de 3.000€ ao ‘Prémio Revelação’. A ‘Melhor Edição Portuguesa de Banda Desenhada’ foi também distinguida pelo Município da Amadora, adquirindo 100 exemplares da obra vencedora.
Um novo regulamento também deveria balizar certas questões, para não haver livros nomeados questionáveis, que não são considerados banda desenhada. Em nossa opinião, as escolhas dos nomeados foram muito fracas face è quantidade de tão boas edições ao longo do ano, e algumas mesmo sem qualquer sentido. Também consideramos não fazer sentido, no painel de jurados, ser integrado um autor de banda desenhada.
Destaque ainda para o Troféu de Honra atribuído a João Mascarenhas, distinção justíssima de uma figura incontornável da banda desenhada nacional e um enorme entusiasta da nona arte.
- AS PESSOAS
Falar do João Mascarenhas foi o mote para terminar este nosso balanço a referir a importância das pessoas e das amizades que se vão criando neste meio. O Amadora BD já nos deu muitos amigos, entre autores, editores e fãs que vamos conhecendo e que reencontramos nas filas e isso é a melhor riqueza do evento. O nosso obrigado a todos os que se cruzaram connosco nesta edição. Até breve!