quarta-feira, 4 de março de 2026

333 - A opinião de Miguel Cruz sobre "La Vallée des Oubliès", de Henriet, Usagi e Dubois

 

La Vallée des Oubliès

A coleção Signé da editora Lombard tem-nos apresentado alguns trabalhos mais pessoais de alguns autores (vários foram editados em Portugal, destaque para Hermann com ou sem o seu filho), ou a combinação pouco habitual de duplas de autores, quase sempre com grande qualidade uma chancela de referência, portanto apesar de eu achar admito que problema meu que nos últimos 2/3 anos o interesse tem tido altos e baixos. 

Recentemente, esta BD “O Vale dos Esquecidos” chamou a minha atenção pela atratividade da capa, das cores, evidente qualidade do desenho e, sejamos francos, porque Henriet (desenho) e Usagi de seu nome Patricia Tilkin - (cores) são daqueles autores que estão sempre no meu radar, desde as séries Dent D’Ours (6 tomos, Dupuis) e Black Squaw (quatro tomos, também Dupuis).

Durante cerca de 150 páginas, acompanhamos Clark, um jovem de passado criminoso devido à sua atividade no âmbito de um gang de bushwackers (antigos apoiantes sulistas que perpetravam raids destrutivos nos estados apoiantes do abolicionismo), que se cruza com alguns dos seus antigos colegas que o consideram um traidor. O choque é evidente, depois de algumas peripécias é deixado por morto, recuperado por um velho e experiente caçador e tratado num fortim isolado onde só vivem mulheres. 

Devido às habituais ambições territoriais, mas também porque o passado de Clark, do velho caçador e do grupo de mulheres vai “convergir” para um confronto, no mesmo momento, ao mesmo tempo, Clark tem de se preparar, treinar, envolve-se com uma das mulheres que o recolheu, e vai conduzir o combate final.

Um argumento de Pierre Dubois muito interessante, um western com boa consistência história, sem grandes atos de heroísmo, com uma excelente caracterização das personagens, dos seus interesses, das suas duplicidades. O tema da comunidade de mulheres é interessantemente tratado, sem grandes clichés.

Um desenho realista que altera o excelente tratamento de personagens com grandes planos dos espaços do oeste “selvagem”. As cores, como sempre, atribuem uma profundidade adicional ao desenho e atraem o olhar em páginas luminosas, claras, organizadas, que facilitam a leitura. A edição a preto e branco, de grande dimensão é também belíssima e, curiosamente, apresenta-nos uma leitura diferente pela ausência de cor e pelo acréscimo de detalhe.

Uma leitura muito agradável, um western de cowboy solitário com variações, uma boa edição da Lombard.





Novidade Presença Comics: a saga Solo Leveling já tem o vol. 17 em pré-venda e estará nas livrarias a partir 18 de Março

 


Está para breve a edição do décimo sétimo volume do fenómeno da manhwa Solo Leveling que é um sucesso e tem milhões de leitores em todo o mundo!

Este volume 17 editado pela Presença Comics, está já em pré-venda e disponível nas livrarias a partir de 18 de Março.

Aqui fica a história deste volume 17.

A batalha final mudou o destino do mundo e Seong Jinu enfrenta agora uma nova realidade. O maior dos caçadores já cumpriu o seu papel… mas nem todas as histórias foram contadas. Depois de anos desaparecido entre dimensões, Seong Jinu retorna ao mundo humano, mas a vida tranquila que sempre desejou está ameaçada: têm lugar acontecimentos enigmáticos e emergem forças ancestrais, atraídas pelo poder que ele tentou esconder.

Jinu vê-se novamente dividido entre o que quer para si e o que o mundo precisa que ele seja. Ecos do passado ressoam e a aproximação de uma crise monumental exige escolhas que só ele pode tomar. Chegou uma nova etapa eletrizante desta saga lendária, que desafia os poderes e limites da humanidade, repleta de ação, enigmas, batalhas e revelações que antecipam confrontos ainda mais grandiosos.

terça-feira, 3 de março de 2026

Clément Oubrerie (1966-2026)

Faleceu ontem Clément Oubrerie, desenhador francês de banda desenhada, aos 59 anos. Por cá, temos uma obra sua mais recente, "Nas tuas mãos - A incrível vida de Suzanne Noël", uma novela gráfica escrita por Leïla Slimani, editada pela Iguana.

Mas foram muitas as obras que contaram com a sua arte, que esperamos poder ver editadas na versão portuguesa.

Foto do autor: Europe Comics





Novidade DEVIR: Kiki de Montparnasse é o oitavo e último volume da excelente colecção Prémios de Angoulême

 


Termina, pensamos nós, em beleza esta excelente colecção de oito livros dedicada a alguns premiados do famoso Festival de Angoulême, com o título Kiki de Montparnasse, da autoria de Catel e Bocquet, premiado em 2008.

É uma colecção que recomendamos, pois tem títulos e autores muito reconhecidos no mundo da BD Europeia.

Este último titulo estará em pré-venda no site da editora a partir do próximo dia 9 de Março.

A história

Kiki de Montparnasse foi uma artista de cabaret e pintora, famosa por frequentar os círculos boémios de Montparnasse no início do séc. XX, onde conheceu artistas como Chaim Soutine, Jean Cocteau, Amedeo Modigliani, Man Ray e Alexander Calder, entre muitos outros.

Uma das primeiras mulheres emancipadas em relação aos constrangimentos culturais e sexuais impostos pela sociedade da altura, tornou-se a musa de muitos artistas e companheira de Man Ray, que a imortalizou numa das suas obras mais icónicas.

Neste livro, José-Louis Bocquet e Catel Muller relatam, de forma inteligente e sensível, a história de uma artista carismática, que contribuiu de forma inegável para uma das épocas mais estimulantes e criativas do século.

Prémio Essencial Angoulême 2008






segunda-feira, 2 de março de 2026

332 - A opinião de Miguel Cruz sobre "Bordeaux / Shanghai, de Eacersall e Causse

 

Bordeaux / Shanghai

Esta BD do conhecido duo Amélie Causse, Mark Eacersall (este último tem Tananarive como única edição sua em língua portuguesa) é apresentada como uma história sobre o vinho de Bordéus, o que fez com que não ficasse nas minhas listas de leitura. No entanto, a BD teve bastante destaque e algumas pessoas disseram-me que era divertido, pelo que acabei por “lhe pegar”. E fiz bem. Resumindo desde já: é agradável, positiva, tem componentes de comédia romântica, é bem disposto, e tem um desenho legível (aproximando-se um pouco do estilo Mangá), elegante e com páginas luminosas.

O vinho de Bordéus dá o contexto, mas a aventura é centrada em duas personagens principais e um conjunto de personagens secundárias, todas elas importantes. A grande “vitória” desta BD é a de nos conseguir fazer identificar com algumas personagens e perceber bem outras e, mesmo, ir mudando de opinião sobre a personagem principal: Wei.

A BD começa com os (não o sabemos ainda) pais de Wei a provarem vinho francês de Bordéus, na sua terra natal na China. A mãe de Wei é particularmente apreciadora, e faz um comentário sobre a possibilidade de chineses serem donos de vinhas em Bordéus, o que gera um riso de gozo por parte do empregado do restaurante. Passados 25 anos, encontramos Wei, filho de milionário, imaturo, mimado, inútil, com dívidas de jogo, e o seu pai, milionário e rígido, dono de um domínio vinhateiro em Bordéus. Ambos marcados pela morte da mãe de Wei, sobre a qual sabemos poucos detalhes. 

Depois de algumas peripécias, Wei acaba por ir para Bordéus tomar conta do domínio, sendo que começa por fazer várias asneiras, inscrever-se no surf, ter um acidente de carro, ou seja tudo menos encarar seriamente a tarefa que lhe foi atribuída pelo pai. As situações são divertidas desde logo porque Wei só fala mandarim ou inglês, boa parte dos trabalhadores e responsáveis do domínio só falam francês, exceção feita para a jovem filha de um casal, e para a enóloga Lola.

Ao longo das páginas, Wei vai conhecendo os locais, a sua atitude vai mudando, e a pressão do seu pai vai aumentando. As discussões, divergências de opinião e mal-entendidos com Lola vão num crescendo, estimuladas até por um vizinho que quer contratar Lola.

Divertido, realista, com uma interessante caracterização contextual, das regras de avaliação dos vinhos, dos conflitos de interesse na atribuição de prémios, mas particularmente com um excelente tratamento das personagens e um adequado tratamento gráfico, Bordéus/Shangai explora ainda um pouco o tema do choque de culturas.

Nunca totalmente previsível, a evolução da narrativa é gradual, em crescendo, até ao seu clímax delicioso. Uma BD (de mais de 200 páginas) muito interessante e mesmo muito “simpática” que, naturalmente, recomendo. Editado pela Bamboo, na sua reputada coleção Grand Angle.



A nossa leitura de Peter Pan de Kensington, de José-Luis Munuera - co-edição Arte de Autor e A Seita

 


Este livro apresenta-nos um outro Peter Pan que desconhecíamos. A célebre personagem da literatura infantil, Peter Pan, representada num sem fim de obras cinematográficas, de teatro e também de banda desenhada, chegou agora nesta adaptação de José-Luis Munuera, não da tradicional história que todos conhecemos, mas de uma outra. O que acontece é que o seu autor, James Matthew Barrie, escreveu um outro romance onde aparece Peter Pan, que se chama "O Pequeno Pássaro Branco". E é essa história pouco conhecida que é aqui adaptada por Munuera.

Peter Pan de Kensington é uma co-edição da Arte de Autor e d' A Seita.

Portanto, a história não nos leva à Terra do Nunca, como habitualmente, mas sim ao jardim de Kensington, em Londres, onde durante a noite tudo se transforma e nada parece real e onde as fadas não são criaturas fofinhas e cintilantes, mas antes pequenos seres cruéis.

Tudo começa com uma menina de seis anos, Maimie Mannering, que se perde no jardim e acaba por ali ficar depois do fecho das portas. Já de noite, Maimie vai cruzar-se com Peter Pan e com as fadas. Enquanto Peter Pan quer brincar com ela e lhe fala do lugar imaginário onde as crianças não crescem, que nós já conhecemos como Terra do Nunca, as fadas ameaçam-na. A Rainha das fadas lança-lhe um desafio aparentemente impossível de cumprir: ou Maimie resolve um enigma extremamente difícil até ao amanhecer ou ficará presa no parque para sempre. 

Num ambiente nocturno e sinistro a inocente Maimie vai contar com algumas ajudas, ao mesmo tempo que continua a ser constantemente ameaçada e importunada pelas fadas. Tudo isto com belíssimos desenhos de José-Luis Munuera. 





domingo, 1 de março de 2026

331 - A opinião de Miguel Cruz sobre "Un Noël à Paris - 1/2", de Jim e Liotti

 


Un Noël à Paris - 1/2

Por vezes queixo-me de que, apesar da quantidade de BDs de boa qualidade que vão sendo feitas, há poucas BDs otimistas, positivas e bem-dispostas. Não sei se esta BD é totalmente um bom exemplo disso mesmo, uma vez que, na sua base encontramos um casal, com três filhos adolescentes, completamente assoberbados e “passados” com o dia a dia moderno que levam. Mas que é uma BD mais ou menos “ligeira”, estilo “comédia romântica” até mesmo no desenho, e com uma certa candura, é!

Estamos na véspera de Natal, o stress da compra de presentes atinge um máximo, os preparativos e a antecipação da ceia de Natal em casa dos pais de Éve enervariam um santo, a que se acumula a insistência da irmã de Simon para a sua festa de anos que coincide com a referida ceia, e que enerva Simon e complica a sua relação com Éve, que por sua vez queria mesmo não ter de encontrar a sua família na ceia em casa dos seus pais…

Este é o contexto. O resto é correria, enervamento, acidentes, surpresas, humor de circunstância, personagens um pouco estereotipadas (algumas, completamente tresloucadas outras) e uma comédia num contexto angustiante. Os pais e cunhados de Éve, os filhos com personalidades distintas, os cunhados de Éve, o porteiro da boîte onde a irmã de Simon faz o seu aniversário, os polícias, as pressões da loja de brinquedos…

Uma narrativa bem conduzida, um page turner divertido, mas com um contexto angustiante de modernidade e realidade, sendo que veremos onde o segundo tomo nos conduz, porque este nos acaba por deixar em suspenso, depois de uma convergência de ações do casal, e direção Eurostar…

Um desenho cuidado, semi realista, agradável, muito “limpinho” com páginas de ambiente urbano absolutamente fantásticas, cintilante, colorido, romântico e sempre positivo.

A junção de dois autores com estilos de desenho de elementos comuns. Jim – recentemente publicado em língua portuguesa – desta vez com responsabilidade apenas sobre o argumento e o Italiano Liotti com a responsabilidade de passar tanta movimentação para desenho. Editado pela Lombard.

Por vezes queixo-me de que, apesar da quantidade de BDs de boa qualidade que vão sendo feitas, há poucas BDs otimistas, positivas e bem-dispostas. Não sei se esta BD é totalmente um bom exemplo disso mesmo, uma vez que, na sua base encontramos um casal, com três filhos adolescentes, completamente assoberbados e “passados” com o dia a dia moderno que levam. Mas que é uma BD mais ou menos “ligeira”, estilo “comédia romântica” até mesmo no desenho, e com uma certa candura, é!



BDs da estante - 675: Fábula: Lendas do Exílio, de Bill Willingham e Lan Medina - edição Devir

 



O que aconteceria se todas as personagens dos tradicionais contos de fada afinal existissem, e tivessem sido forçadas a abandonar a Terra da fantasia, para viver no nosso mundo? O que poderiam a Branca de Neve, o Lobo Mau, o Príncipe Encantado e o Barba-Azul fazer para sobreviver na nossa realidade? Pois bem, preparem-se para descobrir toda a verdade sobre a Comunidade das Fadas e das Fábulas, as personagens “supostamente” imaginárias, que se mudaram de armas e bagagem para Nova Iorque, onde vivem disfarçadamente e dissimuladamente entre os mortais mundanos. 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

A nossa leitura de "A bela surpresa em tons de bege", de Pedro Leitão - edição Gailivro



São sempre muito divertidos estes livros de banda desenhada infantil da série "As aventuras de Zé Leitão e Maria Cavalinho", criados por Pedro Leitão (edição Gailivro).

A bela surpresa em tons de bege é já o 18.º volume desta série que tem a particularidade de ter sempre uma cor incorporada no título e também uma ligação com as cores das histórias anteriores. Outro aspecto que consideramos muito interessante é a capacidade que o autor tem de, ao mesmo tempo em que conta a história para os mais novos, ter sempre algo que agrada aos mais crescidos. Por exemplo, na 16.ª aventura - As Ondas gigantes Azul-turquesa, havia referências a clássicos da banda desenhada. Nesta nova aventura, temos o futebol como atractivo para os adultos, com referências a grandes nomes do desporto rei, em tom de brincadeira.

Aqui, Zé Leitão, Maria Cavalinho e Filipe irão voltar a viajar pelo espaço, a rever velhos e queridos amigos, porque afinal, se o futebol é o desporto rei, a amizade e a imaginação são as rainhas dos livros desta série.


Novidade DEVIR: o autor Guy Delisle está de volta com O Guia de Mau Pai e já está à venda

 

Guy Delisle é um dos nossos autores preferidos, e infelizmente não pudemos estar com ele quando recentemente esteve em Portugal no Festival Bang em Gaia, mais concretamente no ano passado.

Este novo título editado pela DEVIR, O guia do mau pai", nasce a partir das tiras editadas no blog do autor, as pranchas agora reunidas nesta versão integral ilustram, de forma irónica, com o humor característico de Guy Delisle, situações do seu quotidiano enquanto pai de duas crianças pequenas.

Um relato terno satirizando os mal-entendidos, as incertezas e as aprendizagens próprias de todas as decisões dos pais.

Esperamos voltar a falar desta novidade, quando tivermos a possibilidade de o ler.





sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Novidade Presença Comics: o quinto volume da série Tower of God chega às livrarias na próxima semana!


Tower of God chega agora ao quinto volume, o qual estará disponível a partir de dia 4 de Março. Uma obra de Siu e que em Portugal é publicada pela Presença Comics.

A sinopse:

Os desafios continuam, mais exigentes do que nunca. Será que a equipa de Bam tem o que é preciso para vencer?

O teste das escondidas começou para Bam… mesmo que um dos administradores considere este desafio demasiado perigoso. Cada equipa terá de enfrentar um Ranker, um ser incrivelmente poderoso que já alcançou o topo da Torre. Se não conseguirem derrotá-lo, terão de ser mais astutos do que ele.

Khun, líder da primeira equipa, já provou que tem estratégias e truques na manga, tentando usar tática em vez de força para manter os seus companheiros vivos. Mas Bam, separado dos seus aliados habituais pela primeira vez, enfrenta inúmeros perigos e, a cada passo, corre o risco de ser traído.

Continua a descobrir o fenómeno coreano que conquistou milhões de leitores em todo o mundo!

A nossa leitura de Blast, de Manu Larcenet - edição Ala dos Livros

 


Perturbadora. É a palavra que mais nos ocorre para classificar esta novela gráfica. Este livraço de banda desenhada (enorme em todos os sentidos) contem dois volumes: Carcaça Gorda e O Apocalipse segundo S. Jacky. Depois de termos lido outras obras de Manu Larcenet, como "O Relatório de Brodeck" ou "A Estrada", também editadas pela Ala dos Livros, sabíamos que tínhamos uma nova grande obra à nossa frente, quando iniciámos a leitura de Blast, considerada uma obra de referência do autor.

Repulsa. É também um sentimento que nos consome um pouco ao longo das páginas, pelo protagonista Polza Manzini.

Pena e tristeza. Também passámos por estes sentimentos por Polza. 

Curiosidade. Muita. Não conseguimos parar de ler e assistir ao depoimento da personagem principal.

Dúvidas. Entender o que é o Blast não é fácil. E pode ser interpretado pelo leitor de formas diversas.

Polza Manzini é um homem obeso com quase 150 quilos. É um homem culto mas completamente desajustado em relação à sociedade e aos comportamentos tidos como normais. Um dia desafia a normalidade e parte para viver livremente, em busca do "Blast" que para ele são breves momentos de perfeição, que a sua mente alcança.

Aquilo a que assistimos é um flashback, pois ele encontra-se preso, e relata os acontecimentos que o levaram a um crime violento. Portanto vamos "ouvindo" o seu depoimento que vai dando a dois inspectores da polícia. O que não sabemos, mas deduzimos, é que o seu depoimento está a ser possivelmente manipulador. Não temos a certeza porque o comportamento de Polza vai alternando entre o lúcido e o delirante e certas coisas que conta parecem-nos lógicas e outras monstruosas e nojentas. A história que conta aos inspectores parece ao mesmo tempo verdadeira e impossível, porque foge às regras, porque desafia o nosso entendimento. 

A história é densa, intensa, perturbadora e viciante. Como aqueles filmes que vemos, mas ao mesmo tempo tapamos os olhos com medo do que vamos ver. 

Não é à toa que esta é uma novela gráfica de referência, no panorama da banda desenhada europeia contemporânea. Publicada originalmente entre 2009 e 2010, chegou agora pelas mãos da Ala dos Livros e deixou-nos expectantes quanto ao segundo livro que contem os dois últimos volumes.



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Olá Vasco Granja! - Uma exposição inserida na 25.ª edição da Monstra FAL


De 12 a 22 de Março irá decorrer a 25.ª edição da Monstra - Festival de Animação de Lisboa. Entre as iniciativas que integram o Festival, está incluída uma exposição intitulada "Olá, Vasco Granja!", que estará patente na Sociedade Nacional de Belas Artes. A exposição, de acesso gratuito, estará aberta de 7 de Março a 4 de Abril e será dedicada a esta figura nacional que tanto fez pela animação e pela banda desenhada. Um espólio bastante rico e diversificado estará disponível para ser visto pelos visitantes.








 

Comic Con Portugal 2026: autor da série 5 Terras é mais outro grande convidado para Sta. Maria da Feira


Já sabíamos desta excelente presença, mas só agora a Comic Con Portugal confirmou que o autor Jérome Lereculey da série 5 Terras vai estar presente na próxima Comic Con Portugal, entre 23 e 26 de Abril em Sta Maria da Feira.

Assim a edição de 2026 da Comic Con Portugal prepara-se para receber um dos nomes mais influentes da Banda Desenhada europeia contemporânea. O autor francês Jérôme Lereculey é um dos convidados confirmados do evento, numa presença que resulta de uma colaboração editorial com a LEYA.

Referência incontornável da BD franco-belga atual, o autor alcançou projeção internacional com a série As 5 Terras, uma obra que redefiniu a forma como a fantasia política é trabalhada na narrativa gráfica europeia.

Desde o seu lançamento em 2019, a série tem sido amplamente elogiada pela crítica e pelo público pela maturidade narrativa, densidade política e construção de universo detalhada. Num mundo marcado por alianças frágeis, rivalidades ancestrais e jogos de poder constantes, a obra explora a natureza humana através de personagens moralmente complexas e decisões que moldam o destino de reinos inteiros. A série é desenvolvida em parceria com o argumentista David Chauvel.

O impacto cultural e editorial do projeto consolidou o estatuto do autor no mercado europeu, reforçando um percurso que inclui colaborações com a editora Delcourt e distinções em vários festivais internacionais.

O tom narrativo da obra é frequentemente associado a uma visão realista do poder e das suas consequências, refletida em momentos marcantes da narrativa, como se lê no volume 2 (p.11):

“É igual para todos, sejamos nobres ou camponeses. Afinal de contas, somos felinos!”

Durante a edição de 2026, a presença do autor permitirá ao público português um contacto direto com o processo criativo por detrás de uma das séries mais relevantes da fantasia europeia atual, através de sessões de autógrafos e participação em conteúdos públicos do evento.





A nossa leitura de "O gosto do cloro", de Bastien Vivès - edição Devir

 


Temos gostado sempre dos trabalhos de Bastien Vivès e este não foi excepção.  O Gosto do Cloro é o sétimo volume da colecção Angoulême, editada pela Devir e que reúne vários títulos que foram premiados no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, ao longo de vários anos. Portanto estamos perante uma obra premiada, que desde logo se destaca pela simplicidade e delicadeza quer visual, quer em termos de narrativa. Apesar de se apresentar num estilo minimalista, não deixa de ser uma história profunda e expressiva.

A história acompanha dois jovens que se conhecem numa piscina. Ele frequenta a piscina por indicação médica, devido a problemas de coluna e ela por adorar nadar, tendo em conta que chegou a ser campeã de natação. Sem se conhecerem, acabam por criar uma relação muito singela, com ela a dar-lhe conselhos sobre os movimentos correctos a ter dentro de água.

Os diálogos não são muitos e ao longo de toda a obra o silêncio é privilegiado. A água funciona aqui como uma espécie de bolha que modifica os sons e as sensações. Entre os dois jovens a relação vai ficando cada vez mais próxima, mas a rapariga é um pouco misteriosa e reservada, o que desde logo constitui uma espécie de barreira, para além da qual o rapaz não consegue ultrapassar.

É um livro muito bonito, cuja leitura flui, como a água, com as pranchas maioritariamente da cor de "azul piscina". Não há nenhum grande acontecimento, apenas a rotina e uma narrativa intimista sobre estas duas personagens, duas almas que sofrem de solidão, cada um pelos seus motivos, que desconhecemos mas deduzimos.

O final deixa-nos um pouco desorientados, pois ficamos em suspenso, à espera de que aconteça algo.

Relembramos que Bastien Vivès virá a Portugal no mês de Abril, para participar na Comic Con.