Esta edição da Arte de Autor, Old Pa Anderson + Redenção, prova que mesmo depois do autor desaparecer a obra fica. É o caso de Hermann (1938-2026), na sua plenitude, neste livro. O livro reúne duas obras em que Hermann e o seu filho Yves H. exploram uma das suas obsessões recorrentes, a violência como herança e a dificuldade de escapar a um passado marcado pela brutalidade. Embora sejam histórias distintas, as duas bandas desenhadas aproximam-se pela visão desencantada do ser humano e pela recusa de um heroísmo tradicional.
Em nossa opinião Old Pa Anderson é provavelmente a obra mais forte das duas. A história coloca-nos no Mississippi segregacionista, onde um homem negro idoso decide agir depois de descobrir a verdade sobre o desaparecimento e assassinato da sua neta. A vingança torna-se, assim, o motor de uma narrativa que é simultaneamente um drama pessoal e uma denúncia do racismo estrutural.
Podemos dizer mesmo que o argumento de Yves H. é deliberadamente simples. Não procura construir uma intriga policial complexa nem multiplicar reviravoltas. A força está na situação inicial e na inevitabilidade do percurso de Old Pa. Esta simplicidade pode ser vista como uma qualidade porque dá ao álbum uma grande eficácia, mas ao mesmo tempo também uma limitação.
É, contudo, no desenho de Hermann que o álbum ganha uma dimensão superior. A utilização da cor directa, os enquadramentos e a representação do Mississippi criam uma atmosfera pesada, sufocante e extremamente física. O destaque é precisamente para as aguarelas em cor directa, o trabalho de enquadramento e o estilo pessoal de Hermann como alguns dos grandes pontos fortes do álbum.
O mais interessante é a forma como Hermann (como sempre) não procura embelezar a violência, mostrando-a nua e crua.
Redenção é a outra história e foi originalmente publicada em França como Sans pardon. É uma obra ainda mais sombria. Trata-se de um western crepuscular centrado em Buck Carter, um fora-da-lei que abandonou a família para salvar a própria vida e que, anos depois, vê surgir uma possibilidade de redenção através do filho. O próprio Yves H. confirmou que “Redenção” era inicialmente o título da obra, mas este foi alterado para Sans pardon devido à existência de outra BD com o mesmo título. Falamos da versão francesa.
Aqui, a ideia de redenção é muito menos confortável do que o título poderia sugerir. Os personagens vivem num mundo onde não existem verdadeiros inocentes. A lei e os criminosos podem ser igualmente brutais, e a violência parece ser a única linguagem que todos compreendem.
É por isso que Redenção pode dividir os leitores. Quem procurar um western de acção, brutal e visualmente poderoso, encontrará muito para apreciar. Quem procurar uma reflexão psicológica profunda sobre culpa e redenção poderá sentir que o álbum fica aquém das suas próprias ambições.
Por fim recordamoa que Hermann foi distinguido com o Grande Prémio de Angoulême em 2016, e Old Pa Anderson + Redenção surgiu precisamente nesse período, sendo uma das obras destacadas.




































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