quarta-feira, 22 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "La Cuisine des Ogres - t. 2: Une vie de vaurien", de Vehlmann e Andréae e "Frankenstein", de David Sala


La Cuisine des Ogres - t. 2: Une vie de vaurien

Já aqui tinha falado do tomo 1 da “Cozinha dos Ogres”, quando pensava ser um one shot, impressionado pela solidez e fantasia do argumento (Fabien Vehlmann) e pela excecionalidade do desenho (Jean Baptiste Andréae), acompanhado de tons de coloração feéricos. Com Cuisine des Ogres - tome 2: Une vie de vaurien os autores aproveitam (claro!) o sucesso comercial do tomo 1, mas também consolidam um universo narrativo de rara riqueza, prosseguindo o trabalho de reinvenção do conto numa versão terrível, sombria e de realidade humana.

A personagem central do primeiro tomo já tinha tido o seu “ciclo de vida”, razão pela qual agora é explorada uma outra personagem (diríamos secundária): Brèche Dent (em português diríamos dente lascado), um gnomo com aquele ar muito típico do folclore bretão (lembrei-me agora de Fournier…), como podem ver na capa.

Toda a BD é centrada na escolha moral da personagem e no seu carácter: trair para ascender socialmente ou preservar a ética e a lealdade e aceitar um exílio temido. Inseguro, “apagadinho”, mas empático, B-Dent vai-se mostrar um verdadeiro e surpreendente resistente. Também neste tomo, os autores deleitam-se com uma crueldade por vezes divertida, quase sempre absurda. 

No primeiro tomo, o espaço central era a cozinha e parte da aventura no espaço “aberto”. Desta vez, é o mundo exterior à cozinha que dá título à série a dominar. Em qualquer dos ambientes, o que nos chama imediatamente a atenção é a extraordinária qualidade gráfica, a delicadeza do tratamento moral e o grotesco fantástico do ambiente contextual. O ritmo da narrativa é muito dinâmico, tudo “é vivo”, os jogos de luz são notáveis, a experiência de leitura é imersiva.

Os diálogos são muito bem trabalhados, musicais, inteligentes, o que implica uma atenção de leitura que faz com que, apesar de ser um “page turner”, não seja uma leitura rápida.

Uma leitura agradável e recomendada, uma boa edição da Rue de Sévres, menos surpreendente que o primeiro tomo (como seria natural) mas não menos original, talvez um pouco menos emocional e linear que o primeiro, com uma estratégica abordagem de aprofundamento moral e talvez simbólica.

A capa, para mim é o ponto fraco, não porque não seja belíssima, mas porque, para quem não conheça a série, pode parecer exclusivamente infantil. Não o é certamente!





Frankenstein, de David Sala

Mais uma adaptação de Frankenstein, desta vez por David Sala, editado pela Casterman (mais de 200 páginas, já agora). Não é uma adaptação qualquer, não porque, creio eu, a obra de Mary Shelley possa ser revisitada sobre alguma perspetiva diferente e particularmente inovadora, mas porque a linguagem gráfica é diferente do habitual e muito pessoal – o que seria de esperar de um autor como David Sala (na JuveBêDê já falei sobre “Le Poids des Héros”, e temos editado em português o “Jogador de Xadrez adaptado de S. Zweig).

Mais do que contar novamente a história de Dr. Frankenstein e da sua criatura, Sala desenha essencialmente a violência sobre o diferente e sobre a condição de rejeitado, um pouco como vimos no cinema recentemente, mas com cânones gráficos muito diferentes. As referências sociais contemporâneas são também óbvias, desde logo com a introdução de alguma empatia por personagens secundárias.

A Victor Frankenstein é arrogante, ambicioso e moralmente elitista (ou moderno, como refere. Não abandonando os contornos góticos habituais, David Sala procura atribuir a esta BD uma camada de leitura contemporânea; exercício arriscado, mas conseguido dada a exuberância do desenho e da composição de página.

Cada página aproxima se mais de um quadro do que de uma prancha tradicional; o autor privilegia a pintura em vez do desenho, e as cores são essenciais para a textura palpável da BD. As referências gráficas de Klimt e da Art Nouveau parecem-me óbvias e resultam bastante agradáveis, embora admito que dependa do gosto de cada um. A obra tem, assim, uma identidade estética muito forte, o que pode fazer com que não seja do agrado de “todo o público”, até porque o desenho, notoriamente, não pretende a estabilidade emocional (ou sentimento, se quiserem) procurado e conseguido (e não apenas como resultado da grotesca figura da criatura).

Não se trata de uma BD de leitura rápida, há muito detalhe, há muito trabalho de adaptação constante aos desafios do autor que consegue aquilo que pretende: estabelecer uma obra única no panorama editorial Franco-Belga, e com uma história de base das mais conhecidas e revisitadas! 

Pela minha parte, gostei da leitura – claro que não consigo deixar de estar em cada momento a fazer as comparações sobre outras adaptações ou sobre a obra original, o que me cansa um pouco e reconheço o patamar gráfico muito elevado, o que justifica a recomendação.


A nossa leitura de Como Pedra, de Luckas Iohanathan - edição Polvo

 


Este ano, tivemos o prazer de conduzir uma conversa com o autor Luckas Iohanathan, no Festival de Banda Desenhada de Beja, pelo que dias antes, lemos o livro "Como Pedra", lançado pela Polvo em Outubro de 2025, por ocasião do Festival Amadora BD.

Acabámos por ficar a conhecer um pouco mas sobre outros trabalhos do autor, como o "Enterrei todos no meu quintal", que foi lançado também pela Polvo, precisamente em Beja.

Ficámos impressionados com a maturidade do jovem autor, que apresenta em "Como Pedra", uma obra profundamente humana que aborda temas como a pobreza, a fé, o fanatismo religioso, a exclusão social e a resistência. Através da combinação entre o argumento e o desenho, Luckas Iohanathan construiu uma narrativa emocional que convida o leitor a reflectir sobre as consequências da desigualdade e sobre a capacidade humana de encontrar esperança mesmo em contextos extremamente adversos.

A história é muito triste e dura e acompanha uma família que vive no sertão nordestino, e que enfrenta a seca, a fome e a pobreza. Como se tudo isso não bastasse, o casal da família cuida também da filha mais nova, que sofre de uma doença que a impede de falar e de se mover. A falta de recursos, de apoios do Estado e do acesso a cuidados de saúde, vai fazer com que esta família seja alvo de um grupo de religiosos extremistas, onde se integra o filho mais velho do casal. A situação desta família é tão desesperante que os fanáticos religiosos se aproveitam e querem conduzi-los a tomar medidas extremas. Isso vai criar um conflito entre marido e mulher e ela, a mãe, dotada de uma outra fé inabalável, vai resistir e demonstrar que o amor de uma mãe pode tudo, mesmo quando há sua volta não há nada.

Ela, a mãe, é o centro emocional da narrativa e a sua força e o seu amor relacionam-se com o título da obra. Como Pedra é um título amplamente simbólico. Simboliza o peso que a família carrega, simboliza o sofrimento silencioso, mas acima de tudo simboliza a resistência para sobreviver e a resistência contra tudo e contra todos, no que toca a uma mãe proteger uma filha e acreditar que a sorte vai mudar.

Não é à toa que esta obra tenha recebido o reconhecimento da crítica e tenha ganho o Prémio Jabuti na categoria Histórias em Quadrinhos. Como Pedra é um relato forte e poderoso, muito intenso e que não deixa ninguém indiferente.

Depois desta leitura, esperamos vir a ler outras obras do autor, que continuam a ser aclamadas e premiadas.


terça-feira, 21 de julho de 2026

Clube de BD da Fnac: o 3.º encontro atraiu mais novos fãs de banda desenhada



O auditório da Fnac do Colombo acolheu, no dia 18 de Setembro, o terceiro encontro do Clube de BD da Fnac, que contou com a participação de um público muito heterogéneo. Desde fãs e conhecedores de banda desenhada até a curiosos e iniciantes, foram várias as pessoas que quiseram marcar presença. 

Foi muito participativa a conversa sobre “Finalmente o Verão” de Mariko Tamaki e Jillian Tamaki (Planeta Tangerina) e “A Viagem” de Agustina Guerrero (Dom Quixote) e no final houve ainda tempo para sugestões de leitura para o Verão e um giveaway, com ofertas das editoras Dom Quixote, Planeta Tangerina e Ala dos Livros.

Em Agosto o clube não terá sessão devido a férias, mas regressa a 19 de Setembro. Estejam atentos!





Novidade Presença Comics: já está nas livrarias o 19.º volume da série Solo Leveling

 


Chegou o décimo nono volume de Solo Leveling, o fenómeno da manhwa que tem milhões de leitores em todo o mundo, uma obra de Chugong e DUBU (Redice Studio).

No mundo onde a força decide o destino da humanidade, Seong Jinu ascendeu além de todos os limites e tornou-se a última esperança contra uma ameaça que transcende o próprio tempo. Neste novo volume de Solo Leveling, a poeira assenta e novas histórias emergem. Entre memórias, escolhas e um futuro reescrito, revelam-se os ecos de um mundo que já não é o mesmo. Depois de carregar o mundo às costas, resta a memória de um herói e a esperança de um novo amanhã.






segunda-feira, 20 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "La Poupée sans tête (Les Nouvelles Enquêtes du Commissaire Raffini)", de Rodolphe & Maucler e "M-A-D - Tome 2", de Legrain e Jarry

La Poupée sans tête (Les Nouvelles Enquêtes du Commissaire Raffini) 

Sejamos claros: adoro esta série, que passou ao lado do mercado português e que, mesmo no Franco-Belga é uma série de nicho (de grande nicho, por vezes). No panorama vasto da banda desenhada franco belga, onde séries policiais clássicas e thrillers contemporâneos coexistem frequentemente sem grandes zonas intermédias, Les Nouvelles Enquêtes du Commissaire Raffini ocupa um espaço curioso: discreto, elegante, e de uma profundidade não aparente. Com La Poupée sans tête, um dos seus álbuns mais representativos, confirma se essa impressão de uma obra que, apesar da sua qualidade, permanece relativamente à margem das grandes referências do género.

A série constrói-se sobre um equilíbrio particularmente interessante entre herança clássica e sensibilidade contemporânea. À primeira vista, Raffini inscreve-se na tradição do policial franco belga, mas a (excelente) escrita introduz uma dimensão mais psicológica e atmosférica, afastando se do modelo puramente dedutivo para privilegiar a observação social e a ambiguidade moral.

Neste tomo, a intriga — construída em torno de um objeto aparentemente simples, a boneca sem cabeça — funciona mais como ponto de entrada do que como centro narrativo. O que interessa não é apenas “resolver o caso”, mas explorar o que ele revela (a boneca, aliás, remete-nos para uma certa perda de inocência, que é clarificada, aliás, pela participação blasé de duas personagens grandes das décadas de 50 e de 60 do cinema francês).

O leitor é conduzido por um percurso de descoberta que é tanto emocional (sendo Raffini um dos Comissários mais reservados e sensíveis que já conheci) quanto lógico. 

O desenho realista é belíssimo, privilegia a clareza e as emoções, é simples e “caseiro”: parece que estamos entre amigos desde a primeira página. E, efetivamente, uma certa falta de espetacularidade (que os autores provam desnecessária), para além da difícil “catalogação” da séria fazem com que seja, na minha opinião, das mais subvalorizadas que tenho visto. É, para além disso, uma BD que não é de leitura rápida, essencialmente porque apela muito à atenção ao detalhe e à memória.

Apesar disso, esta série e este tomo apresentam um conjunto de qualidades que vão desde a consistência narrativa à identidade gráfica sólida e reconhecível, passando pela coerência entre melancolia, tensão e observação social e pela inovação no sentido da capacidade de trabalhar o género policial sem se submeter aos seus códigos mais previsíveis. 

Aos comandos desta série, cujo último tomo foi editado pelas edições du Tiroir, temos, desde sempre (desde 1980, se não estou em erro, com os primeiros tomos desenhados por Ferrandez), Rodolphe (argumento), e desde há bastante tempo, Maucler (desenho).





M-A-D - Tome 2

Já tinha tido a oportunidade de aqui falar sobre o tomo 1 de M.A.D. (significa Mechanical Assault Division) de Nicolas Jarry e Thomas Legrain, publicado pela editora Le Lombard (o tomo 1 era de 2024), que me tinha parecido uma ficção científica interessante e particularmente promissora.

A série decorre num futuro pós apocalíptico, após uma guerra devastadora entre a humanidade e máquinas autónomas chamadas “Mechams”. Os humanos sobreviventes estão localizados em enclaves isolados, e o centro desta aventura é na Rússia. A destruição e as ruínas (e muita ferrugem) são o “décor” desta BD em que as personagens centrais são a rebelde agente Daïa Anikine e o seu androide Socrate. Um dos twists interessantes desta história consiste na partilha de consciência entre os dois – método encontrado para que as “máquinas” não se revoltem e autonomizem.

No primeiro tomo, o ambiente era apresentado, os combates contra grupos de máquinas eram marcantes, a rivalidade entre colegas agentes (e seus androides) era associado a linhas de relacionamento com as cadeias de comando. Logo no primeiro tomo, o tema que passa a dominar é o da investigação do assassinato de uma colega muito próxima de Daïa, dentro do próprio sistema protegido, o que indica alguma “traição”. 

Daïa, obviamente, decide agir fora da cadeia de comando para descobrir a verdade, e cria inimigos e encontra obstáculos internamente e externamente, tendo de recorrer à sua família restante (um tio, que descobriremos, foi um dos personagens centrais no desenvolvimento tecnológico que acabou por conduzir à guerra máquina-homem). A investigação leva a descobrir uma conspiração mais ampla – chega a ser usado o tema (que será futuramente desenvolvido, certamente) do desaparecimento, há muitos anos, da irmã de Daïa. Pelo meio, os autores aproveitam para desenvolver um questionamento da relação homem–máquina, quer do ponto de vista ético, quer do ponto de vista de eficiência, procurando limites e pontos fracos da dependência.

A originalidade perde-se um pouco no tomo 2 porque, na minha opinião, os autores tentam desenvolver a intriga com alguma “rapidez” para ter uma narrativa coerente mas com alguma completude em cada tomo. Obrigações editoriais, imagino, mas ganharíamos com uma evolução mais lenta e estruturada da narrativa. O conjunto é interessante, o “universo” é bastante bem construído, e é coerente, as personagens bem caracterizadas, o desenho é muito bom, detalhado, muito dinâmico, muito eficaz nos ambientes e nas personagens.

Um segundo tomo que se lê com “suspense”, e uma intriga com muitos temas em aberto. A acompanhar, com o tomo 3 prometido para agosto.


A nossa leitura de "Entre Elas - vol.1", de Pauline Spira - edição Nuvem de Letras


A obra "Entre Elas", de Pauline Spira, foi editada originalmente em 2025 e foi logo seleccionada para o Prix Ligue de l’Enseignement no Festival BD Boum do mesmo ano. Por cá, esta novela gráfica foi editada recentemente pela Nuvem de Letras.

Estamos a falar de uma novela gráfica vocacionada para um público mais jovem, mas que nós gostámos muito. A história centra-se na amizade entre duas amigas adolescentes que vão pela primeira vez para um curso de Verão, para aprenderem ou aperfeiçoarem a língua inglesa. Uma delas é mais tímida e encontra-se numa fase mais sensível, devido à morte da sua avó ser ainda muito recente e a outra, mais descontraída, está na fase de querer aproveitar estar fora da alçada familiar, para ter novas experiências.

Portanto vamos assistir a que Júlia e Mariana, inseparáveis desde sempre, tenham visões e comportamentos diferentes, que vão fragilizar a sua amizade. A narrativa é intimista, sobre as descobertas e mudanças, inseguranças, escolhas e emoções à flor da pele, próprias da adolescência.

Os dias vão passando e vão conhecendo outras pessoas e enquanto a Júlia prefere estar sozinha a ler ou com outras raparigas mais sossegadas, a Mariana deixa-se encantar por um grupo de raparigas mais irreverente, e por experienciar sair à noite, maquilhar-se pela primeira vez ou beber bebidas com álcool. Estes comportamentos diferentes vão distanciar as duas amigas e até atingir proporções exageradas. E mais não adiantamos.

O que interessa reter é que é um livro sobre as "dores" de crescimento, sobre saber lidar com a perda, sobre aprender a estabelecer prioridades e dar valor ao que realmente importa.

Todos estes temas, próprios do ser humano, mas aqui vividos no período da adolescência, são tratados de forma muito genuína, com muita empatia, sensibilidade e naturalidade, sem dramatizações excessivas, tudo na medida certa. 

Do ponto de vista do desenho, a autora adoptou um estilo muito simples, mas bonito e expressivo, que ajuda à fluidez da leitura.

Nota muito positiva para esta novela gráfica contemporânea, dedicada a um público mais jovem.





domingo, 19 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Comanche Trail", de Rossi e "Le Mage du Kremlin", de Jacamon - edições Casterman

 




Comanche Trail

Comanche Trail, de Christian Rossi, apresenta‑se como uma obra que simultaneamente homenageia e reinterpreta os códigos do género. A ambiguidade narrativa é, talvez, o ponto particularmente distintivo desta BD que desloca o foco do western na BD para um território mais introspetivo e atmosférico, sem estereótipos.

O enredo organiza‑se em torno de uma longa perseguição, estruturando-se como um verdadeiro road‑movie no deserto, onde a progressão geográfica acompanha o aprofundamento psicológico das personagens. A narrativa assenta menos na acumulação de acontecimentos do que na construção de uma experiência de imersão: o leitor é progressivamente envolvido na deriva dos protagonistas, num ambiente onde o espaço vasto, silencioso e hostil assume uma função dramática central.

É, contudo, ao nível gráfico que Comanche Trail afirma de forma mais evidente a sua singularidade. Christian Rossi, autor de uma longa trajetória na banda desenhada franco‑belga, e uma das minhas referências, caracteriza-se por um desenho simultaneamente clássico e experimental. A sua linha, aparentemente fluida e controlada, revela uma constante procura de equilíbrio entre precisão figurativa e liberdade expressiva. As personagens são construídas com grande economia de traço, mas sem perda de densidade psicológica: um gesto contido, uma inclinação do corpo ou um olhar bastam para sugerir intenções, tensões ou hesitações.

A composição das pranchas evidencia um domínio notável do ritmo visual. Rossi alterna sequências amplas, de respiração quase cinematográfica, com enquadramentos mais fechados que concentram a atenção nos rostos e nas interações. O silêncio e o vazio assumem tanta importância quanto a ruidosa ação.

A cor desempenha igualmente um papel fundamental. Os tons ocres, vermelhos e azulados dominam o álbum, evocando tanto a aridez das paisagens quanto a dimensão emocional das situações. A luz, frequentemente tratada de forma difusa ou rasante, contribui para uma sensação de instabilidade e de transitoriedade, reforçando a ideia de um mundo em permanente deslocação.

O que é certo é que Comanche Trail propõe uma visão menos idealizada do Oeste, questionando certos mitos fundadores e apresentando uma leitura mais ambígua das relações entre culturas e comunidades. 

Um belíssimo álbum, rico e complexo. Editado pela Casterman.


Le Mage du Kremlin

A BD Le Mage du Kremlin, editado pela Casterman, é uma adaptação do romance de Giuliano da Empoli, da responsabilidade de Luc Jacamon (autor nosso conhecido de Le Tueur – o Assassino). Trata-se de um romance de base histórica, mas centrada numa ficção de natureza política, tema que tem vindo a interessar Jacamon (mesmo em Le Tueur), e que se desenvolve como um thriller.

No centro da narrativa surge Vadim Baranov, (que nos é indicado ter sido inspirado em Vladislav Sourkov, conselheiro de Vladimir Putin). Antigo homem de teatro, Baranov torna se arquiteto da comunicação política do regime, transformando a realidade em encenação e a política em espetáculo. O próprio dispositivo narrativo uma longa confissão reforça essa dimensão teatral: esta BD é sobre propaganda e manipulação.

Em Le Mage du Kremlin vamos acompanhar a personagem central desde a queda da União Soviética até à consolidação do regime de Putin, passando por momentos-chave (os anos 90, o controlo dos media, os conflitos e crises que consolidam a autoridade do poder central).

O argumento é inteligente e interessante, sem estados de alma, mas cheio de subtilezas, e mostrando os limites da manipulação, a importância de símbolos e da simplicidade da mensagem. O desenho realista do autor ajusta-se bem a esta adaptação, com páginas de tom muitas vezes sombrio (mas nunca negro, antes arrepiante), rostos marcados, mas facilmente reconhecíveis, personagens expressivas, mas essencialmente frias. Ao longo das várias páginas, a tensão contextual é palpável, e isso é difícil de conseguir, especialmente porque nos “bastidores” tudo tem de ser muito contido e diplomático.

O espaço desempenha um papel central na narrativa. A Rússia não surge apenas como cenário, mas como estrutura de base histórica, em que a mudança de paisagem e as subtilezas dos símbolos são representativos da mudança. 

Luc Jacamon confirma aqui a sua capacidade de transformar temas complexos em narrativas visuais acessíveis, sem os simplificar em demasia. A estética é interessante e a narrativa educativa (ou informativa, como preferirem). Vale a pena a leitura.



BDs da estante - 695: O Decálogo X (A última Surata), de Frank Giroud e Franz - edição ASA

 


Em 652 d. C., a expansão árabe conseguiu reunir povos muito diferentes sob um mesmo denominador: a religião. Só que 20 anos após a morte do profeta Maomé, como há diferentes versões da sua palavra, o califa Uthmân encarregou uma equipa de fiéis de confiança de redigir a versão definitiva do Corão. Mas quando tudo parecia encaminhar-se para a conclusão dos trabalhos, surge uma surata desconhecida, supostamente redigida pelo próprio Maomé…


sábado, 18 de julho de 2026

Sugestões de leitura, em que o Futebol é Rei!

Porque amanhã termina o Campeonato do Mundo de Futebol, fomos à estante buscar livros que tivessem o desporto rei como tema. Aqui ficam sugestões de leitura para este fim de semana.









O 3.º encontro do Clube de BD da FNAC é já esta tarde!


É já esta tarde, pelas 15 horas, que irá decorrer o terceiro encontro do Clube de BD da FNAC Portugal, na loja do Colombo, este sábado, 18 de Julho.

Para entrarmos em "modo férias", os livros que estarão no centro da conversa serão:

“Finalmente o Verão” de Mariko Tamaki e Jillian Tamaki (Planeta Tangerina), uma história coming of age sobre duas amigas que, depois de passarem muitos Verões juntas, se apercebem que a diferença de idades as começa a afastar.

“A Viagem” de Agustina Guerrero (Dom Quixote), também sobre duas amigas que embarcam juntas numa viagem que pensavam que as levaria apenas ao Japão, mas que terá um alcance bem mais profundo.

Lembramos que todos são bem vindos a este encontro. Quem já tiver lido algum destes títulos, os dois, ou nenhum deles, fãs de banda desenhada ou apenas curiosos e que querem conhecer mais sobre a nona arte.

Apareçam! 

O Clube é dinamizado pela Alexandra Sousa, do Juvebêdê e pelo João Oliveira do podcast “Livrólicos Anónimos” e do instagram “Na Cama com os Livros”.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Homenagem: Hugo van der Ding e Maria de Medeiros homenageiam amanhã autora de Persépolis em Lisboa


Persépolis, filme baseado na novela gráfica homónima de Marjane Satrapi, publicada em Portugal pela Bertrand Editora, regressou aos cinemas desde ontem quinta-feira, dia 16 de Julho, numa nova versão restaurada. A Bertrand Editora associa-se à distribuidora Midas Filmes para homenagear autora, que morreu há pouco mais de um mês. 

Persépolis foi publicado em Portugal pela Bertrand Editora em 2015, com tradução de Hugo van der Ding. Amanhã, 18 de julho, Hugo van der Ding junta-se à actriz Maria de Medeiros para uma conversa muito especial, dedicada a Marjane Satrapi e à sua obra. A sessão realizasse às 18h, no Cinema Ideal, em Lisboa. Após a morte da autora,  Hugo van der Ding disse que «agora mais do que nunca, conhecer esta história de Persépolis também é um gesto revolucionário»

Persépolis foi adaptado ao cinema pela própria autora, juntamente com Vincent Paronnaud, em 2007. Chegou às salas portuguesas no ano seguinte, com distribuição da Midas Filmes. O filme recebeu o Prémio do Júri no Festival de Cannes, além de uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme de Animação. 

A nova versão digital restaurada poderá ser vista em Lisboa, Porto e Coimbra (a partir de 16 de Julho), Almada (15 de Julho), Faro (6 de Agosto), São Brás de Alportel (7 de Setembro) e Viseu (10 de Setembro).  

Marjane Satrapi morreu no passado dia 4 de junho. Segundo a família, morreu «de tristeza», pouco mais de um ano após a morte do marido, o produtor e argumentista Mattias Ripa. Distinguida como uma das mais importantes vozes da literatura gráfica contemporânea, Satrapi conquistou os leitores com Persépolis. Nesta inesquecível obra, a autora relata a infância no Teerão durante a revolução islâmica e a sua juventude na Europa. 

A nossa leitura de As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Mansoureh Kamari - edição Arte de Autor

 


Que grande murro no estômago. Já não é a primeira vez que lemos livros sobre a condição feminina em países onde a mulher é vista como um ser inferior, por isso já devíamos estar preparados para esta leitura. Mas não, a leitura desta obra autobiográfica da autora iraniana Mansoureh Kamari, sobre os seus primeiros anos de vida passados no Irão, não deixaram de nos perturbar, e muito!

Esta novela gráfica "As linhas que traçam o meu corpo", editada recentemente pela Arte de Autor, articula memória, trauma e emancipação e é-nos contada de forma alternada, entre o presente e o passado. 

Mansoureh Kamari utiliza o próprio corpo como ponto de partida para reflectir sobre a condição feminina no Irão e vai mostrando ao leitor a forma como a opressão política, religiosa e patriarcal deixa marcas profundas, que persistem mesmo após a emigração e ao longo da vida.

Preparem-se, por isso, para um livro muito triste, mas de uma enorme beleza visual. A narrativa inicia-se durante uma sessão de modelo vivo, na qual a protagonista posa nua para estudantes de desenho. Este enquadramento tem um forte valor simbólico: o corpo que, durante a infância e juventude, foi alvo de vigilância e censura transforma-se agora num corpo observado livremente, por escolha própria. A nudez deixa de significar vergonha para passar a representar autonomia e reconquista da identidade.

O impacto visual é muito forte neste livro, tendo em conta que o desenho é o elemento mais expressivo da obra, porque há páginas em que o texto é quase nenhum e as imagens falam por si e dão-nos a conhecer um passado em Teerão em que existe o medo constante da autoridade masculina, a perda precoce da liberdade e as restrições impostas às meninas, a banalização da violência física e psicológica, legitimada por normas sociais e religiosas. Ao mesmo tempo, no presente, vemos uma mulher que é dona do seu corpo, recuperando o controlo que lhe foi retirado ainda na infância.

O livro é autobiográfico, mas é uma forma de denúncia política e de evidenciar os dramas e a descriminação que afecta milhões de mulheres.

Voltamos ao desenho para falar na importância das cores nesta obra, pois Kamari utiliza predominantemente tons cinzentos e negros para retratar as recordações ligadas ao Irão e introduz de forma gradual a cor (um rosa muito ténue), quando a protagonista (ela própria) recupera a liberdade.

Belíssima aposta da Arte de Autor, num formato que gostamos bastante e que é excelente para atrair leitores que habitualmente não lêem banda desenhada.

De notar que está prevista a presença de Mansoureh Kamari na edição deste ano do Festival Amadora BD.





quinta-feira, 16 de julho de 2026

A nossa leitura de Vizinhos, de Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva - edição ASA

 


Em apenas 64 páginas e com quatro histórias curtas consegue dizer-se tantas coisas. Vizinhos, de Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva é muito mais do que um livro sobre vizinhança. É sobre solidão, sobre racismo, sobre violência doméstica, sobre intolerância, sobre a falta de empatia a que assistimos cada vez mais.

"Todos os dias era o mesmo", "Coisas ilegais", "A velhota lá de baixo" e "Reunião de Condomínio" são os quatro títulos das pequenas histórias escritas pela Ana Bárbara Pedrosa e desenhadas pelo Nuno Saraiva. Todas elas nos são contadas num género de humor negro e de ironia, mas ao mesmo tempo com uma grande sensibilidade e humanidade. 

O grande sentido de observação dos autores faz com que apresentem aqui personagens que simbolizam vários tipos de vizinhos que são quase inimigos e os prédios onde vivem transformam-se em campos de batalha.

A falta de comunicação e os julgamentos precipitados, sem fundamentos, criam muitas vezes equívocos e problemas que não existem e isso é muito claro aqui neste livro.

Vizinhos é um livro que não é muito grande em tamanho, mas é muito grande em conteúdo, utilizando o humor para tocar com o dedo na ferida.

Vizinhos só nos pareceu ter um defeito. Soube a pouco. Mas parece que poderemos um dia destes contar com mais histórias de vizinhança. Ficamos a aguardar!