terça-feira, 3 de março de 2026

Clément Oubrerie (1966-2026)

Faleceu ontem Clément Oubrerie, desenhador francês de banda desenhada, aos 59 anos. Por cá, temos uma obra sua mais recente, "Nas tuas mãos - A incrível vida de Suzanne Noël", uma novela gráfica escrita por Leïla Slimani, editada pela Iguana.

Mas foram muitas as obras que contaram com a sua arte, que esperamos poder ver editadas na versão portuguesa.

Foto do autor: Europe Comics





Novidade DEVIR: Kiki de Montparnasse é o oitavo e último volume da excelente colecção Prémios de Angoulême

 


Termina, pensamos nós, em beleza esta excelente colecção de oito livros dedicada a alguns premiados do famoso Festival de Angoulême, com o título Kiki de Montparnasse, da autoria de Catel e Bocquet, premiado em 2008.

É uma colecção que recomendamos, pois tem títulos e autores muito reconhecidos no mundo da BD Europeia.

Este último titulo estará em pré-venda no site da editora a partir do próximo dia 9 de Março.

A história

Kiki de Montparnasse foi uma artista de cabaret e pintora, famosa por frequentar os círculos boémios de Montparnasse no início do séc. XX, onde conheceu artistas como Chaim Soutine, Jean Cocteau, Amedeo Modigliani, Man Ray e Alexander Calder, entre muitos outros.

Uma das primeiras mulheres emancipadas em relação aos constrangimentos culturais e sexuais impostos pela sociedade da altura, tornou-se a musa de muitos artistas e companheira de Man Ray, que a imortalizou numa das suas obras mais icónicas.

Neste livro, José-Louis Bocquet e Catel Muller relatam, de forma inteligente e sensível, a história de uma artista carismática, que contribuiu de forma inegável para uma das épocas mais estimulantes e criativas do século.

Prémio Essencial Angoulême 2008






segunda-feira, 2 de março de 2026

332 - A opinião de Miguel Cruz sobre "Bordeaux / Shanghai, de Eacersall e Causse

 

Bordeaux / Shanghai

Esta BD do conhecido duo Amélie Causse, Mark Eacersall (este último tem Tananarive como única edição sua em língua portuguesa) é apresentada como uma história sobre o vinho de Bordéus, o que fez com que não ficasse nas minhas listas de leitura. No entanto, a BD teve bastante destaque e algumas pessoas disseram-me que era divertido, pelo que acabei por “lhe pegar”. E fiz bem. Resumindo desde já: é agradável, positiva, tem componentes de comédia romântica, é bem disposto, e tem um desenho legível (aproximando-se um pouco do estilo Mangá), elegante e com páginas luminosas.

O vinho de Bordéus dá o contexto, mas a aventura é centrada em duas personagens principais e um conjunto de personagens secundárias, todas elas importantes. A grande “vitória” desta BD é a de nos conseguir fazer identificar com algumas personagens e perceber bem outras e, mesmo, ir mudando de opinião sobre a personagem principal: Wei.

A BD começa com os (não o sabemos ainda) pais de Wei a provarem vinho francês de Bordéus, na sua terra natal na China. A mãe de Wei é particularmente apreciadora, e faz um comentário sobre a possibilidade de chineses serem donos de vinhas em Bordéus, o que gera um riso de gozo por parte do empregado do restaurante. Passados 25 anos, encontramos Wei, filho de milionário, imaturo, mimado, inútil, com dívidas de jogo, e o seu pai, milionário e rígido, dono de um domínio vinhateiro em Bordéus. Ambos marcados pela morte da mãe de Wei, sobre a qual sabemos poucos detalhes. 

Depois de algumas peripécias, Wei acaba por ir para Bordéus tomar conta do domínio, sendo que começa por fazer várias asneiras, inscrever-se no surf, ter um acidente de carro, ou seja tudo menos encarar seriamente a tarefa que lhe foi atribuída pelo pai. As situações são divertidas desde logo porque Wei só fala mandarim ou inglês, boa parte dos trabalhadores e responsáveis do domínio só falam francês, exceção feita para a jovem filha de um casal, e para a enóloga Lola.

Ao longo das páginas, Wei vai conhecendo os locais, a sua atitude vai mudando, e a pressão do seu pai vai aumentando. As discussões, divergências de opinião e mal-entendidos com Lola vão num crescendo, estimuladas até por um vizinho que quer contratar Lola.

Divertido, realista, com uma interessante caracterização contextual, das regras de avaliação dos vinhos, dos conflitos de interesse na atribuição de prémios, mas particularmente com um excelente tratamento das personagens e um adequado tratamento gráfico, Bordéus/Shangai explora ainda um pouco o tema do choque de culturas.

Nunca totalmente previsível, a evolução da narrativa é gradual, em crescendo, até ao seu clímax delicioso. Uma BD (de mais de 200 páginas) muito interessante e mesmo muito “simpática” que, naturalmente, recomendo. Editado pela Bamboo, na sua reputada coleção Grand Angle.



A nossa leitura de Peter Pan de Kensington, de José-Luis Munuera - co-edição Arte de Autor e A Seita

 


Este livro apresenta-nos um outro Peter Pan que desconhecíamos. A célebre personagem da literatura infantil, Peter Pan, representada num sem fim de obras cinematográficas, de teatro e também de banda desenhada, chegou agora nesta adaptação de José-Luis Munuera, não da tradicional história que todos conhecemos, mas de uma outra. O que acontece é que o seu autor, James Matthew Barrie, escreveu um outro romance onde aparece Peter Pan, que se chama "O Pequeno Pássaro Branco". E é essa história pouco conhecida que é aqui adaptada por Munuera.

Peter Pan de Kensington é uma co-edição da Arte de Autor e d' A Seita.

Portanto, a história não nos leva à Terra do Nunca, como habitualmente, mas sim ao jardim de Kensington, em Londres, onde durante a noite tudo se transforma e nada parece real e onde as fadas não são criaturas fofinhas e cintilantes, mas antes pequenos seres cruéis.

Tudo começa com uma menina de seis anos, Maimie Mannering, que se perde no jardim e acaba por ali ficar depois do fecho das portas. Já de noite, Maimie vai cruzar-se com Peter Pan e com as fadas. Enquanto Peter Pan quer brincar com ela e lhe fala do lugar imaginário onde as crianças não crescem, que nós já conhecemos como Terra do Nunca, as fadas ameaçam-na. A Rainha das fadas lança-lhe um desafio aparentemente impossível de cumprir: ou Maimie resolve um enigma extremamente difícil até ao amanhecer ou ficará presa no parque para sempre. 

Num ambiente nocturno e sinistro a inocente Maimie vai contar com algumas ajudas, ao mesmo tempo que continua a ser constantemente ameaçada e importunada pelas fadas. Tudo isto com belíssimos desenhos de José-Luis Munuera. 





domingo, 1 de março de 2026

331 - A opinião de Miguel Cruz sobre "Un Noël à Paris - 1/2", de Jim e Liotti

 


Un Noël à Paris - 1/2

Por vezes queixo-me de que, apesar da quantidade de BDs de boa qualidade que vão sendo feitas, há poucas BDs otimistas, positivas e bem-dispostas. Não sei se esta BD é totalmente um bom exemplo disso mesmo, uma vez que, na sua base encontramos um casal, com três filhos adolescentes, completamente assoberbados e “passados” com o dia a dia moderno que levam. Mas que é uma BD mais ou menos “ligeira”, estilo “comédia romântica” até mesmo no desenho, e com uma certa candura, é!

Estamos na véspera de Natal, o stress da compra de presentes atinge um máximo, os preparativos e a antecipação da ceia de Natal em casa dos pais de Éve enervariam um santo, a que se acumula a insistência da irmã de Simon para a sua festa de anos que coincide com a referida ceia, e que enerva Simon e complica a sua relação com Éve, que por sua vez queria mesmo não ter de encontrar a sua família na ceia em casa dos seus pais…

Este é o contexto. O resto é correria, enervamento, acidentes, surpresas, humor de circunstância, personagens um pouco estereotipadas (algumas, completamente tresloucadas outras) e uma comédia num contexto angustiante. Os pais e cunhados de Éve, os filhos com personalidades distintas, os cunhados de Éve, o porteiro da boîte onde a irmã de Simon faz o seu aniversário, os polícias, as pressões da loja de brinquedos…

Uma narrativa bem conduzida, um page turner divertido, mas com um contexto angustiante de modernidade e realidade, sendo que veremos onde o segundo tomo nos conduz, porque este nos acaba por deixar em suspenso, depois de uma convergência de ações do casal, e direção Eurostar…

Um desenho cuidado, semi realista, agradável, muito “limpinho” com páginas de ambiente urbano absolutamente fantásticas, cintilante, colorido, romântico e sempre positivo.

A junção de dois autores com estilos de desenho de elementos comuns. Jim – recentemente publicado em língua portuguesa – desta vez com responsabilidade apenas sobre o argumento e o Italiano Liotti com a responsabilidade de passar tanta movimentação para desenho. Editado pela Lombard.

Por vezes queixo-me de que, apesar da quantidade de BDs de boa qualidade que vão sendo feitas, há poucas BDs otimistas, positivas e bem-dispostas. Não sei se esta BD é totalmente um bom exemplo disso mesmo, uma vez que, na sua base encontramos um casal, com três filhos adolescentes, completamente assoberbados e “passados” com o dia a dia moderno que levam. Mas que é uma BD mais ou menos “ligeira”, estilo “comédia romântica” até mesmo no desenho, e com uma certa candura, é!



BDs da estante - 675: Fábula: Lendas do Exílio, de Bill Willingham e Lan Medina - edição Devir

 



O que aconteceria se todas as personagens dos tradicionais contos de fada afinal existissem, e tivessem sido forçadas a abandonar a Terra da fantasia, para viver no nosso mundo? O que poderiam a Branca de Neve, o Lobo Mau, o Príncipe Encantado e o Barba-Azul fazer para sobreviver na nossa realidade? Pois bem, preparem-se para descobrir toda a verdade sobre a Comunidade das Fadas e das Fábulas, as personagens “supostamente” imaginárias, que se mudaram de armas e bagagem para Nova Iorque, onde vivem disfarçadamente e dissimuladamente entre os mortais mundanos. 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

A nossa leitura de "A bela surpresa em tons de bege", de Pedro Leitão - edição Gailivro



São sempre muito divertidos estes livros de banda desenhada infantil da série "As aventuras de Zé Leitão e Maria Cavalinho", criados por Pedro Leitão (edição Gailivro).

A bela surpresa em tons de bege é já o 18.º volume desta série que tem a particularidade de ter sempre uma cor incorporada no título e também uma ligação com as cores das histórias anteriores. Outro aspecto que consideramos muito interessante é a capacidade que o autor tem de, ao mesmo tempo em que conta a história para os mais novos, ter sempre algo que agrada aos mais crescidos. Por exemplo, na 16.ª aventura - As Ondas gigantes Azul-turquesa, havia referências a clássicos da banda desenhada. Nesta nova aventura, temos o futebol como atractivo para os adultos, com referências a grandes nomes do desporto rei, em tom de brincadeira.

Aqui, Zé Leitão, Maria Cavalinho e Filipe irão voltar a viajar pelo espaço, a rever velhos e queridos amigos, porque afinal, se o futebol é o desporto rei, a amizade e a imaginação são as rainhas dos livros desta série.


Novidade DEVIR: o autor Guy Delisle está de volta com O Guia de Mau Pai e já está à venda

 

Guy Delisle é um dos nossos autores preferidos, e infelizmente não pudemos estar com ele quando recentemente esteve em Portugal no Festival Bang em Gaia, mais concretamente no ano passado.

Este novo título editado pela DEVIR, O guia do mau pai", nasce a partir das tiras editadas no blog do autor, as pranchas agora reunidas nesta versão integral ilustram, de forma irónica, com o humor característico de Guy Delisle, situações do seu quotidiano enquanto pai de duas crianças pequenas.

Um relato terno satirizando os mal-entendidos, as incertezas e as aprendizagens próprias de todas as decisões dos pais.

Esperamos voltar a falar desta novidade, quando tivermos a possibilidade de o ler.





sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Novidade Presença Comics: o quinto volume da série Tower of God chega às livrarias na próxima semana!


Tower of God chega agora ao quinto volume, o qual estará disponível a partir de dia 4 de Março. Uma obra de Siu e que em Portugal é publicada pela Presença Comics.

A sinopse:

Os desafios continuam, mais exigentes do que nunca. Será que a equipa de Bam tem o que é preciso para vencer?

O teste das escondidas começou para Bam… mesmo que um dos administradores considere este desafio demasiado perigoso. Cada equipa terá de enfrentar um Ranker, um ser incrivelmente poderoso que já alcançou o topo da Torre. Se não conseguirem derrotá-lo, terão de ser mais astutos do que ele.

Khun, líder da primeira equipa, já provou que tem estratégias e truques na manga, tentando usar tática em vez de força para manter os seus companheiros vivos. Mas Bam, separado dos seus aliados habituais pela primeira vez, enfrenta inúmeros perigos e, a cada passo, corre o risco de ser traído.

Continua a descobrir o fenómeno coreano que conquistou milhões de leitores em todo o mundo!

A nossa leitura de Blast, de Manu Larcenet - edição Ala dos Livros

 


Perturbadora. É a palavra que mais nos ocorre para classificar esta novela gráfica. Este livraço de banda desenhada (enorme em todos os sentidos) contem dois volumes: Carcaça Gorda e O Apocalipse segundo S. Jacky. Depois de termos lido outras obras de Manu Larcenet, como "O Relatório de Brodeck" ou "A Estrada", também editadas pela Ala dos Livros, sabíamos que tínhamos uma nova grande obra à nossa frente, quando iniciámos a leitura de Blast, considerada uma obra de referência do autor.

Repulsa. É também um sentimento que nos consome um pouco ao longo das páginas, pelo protagonista Polza Manzini.

Pena e tristeza. Também passámos por estes sentimentos por Polza. 

Curiosidade. Muita. Não conseguimos parar de ler e assistir ao depoimento da personagem principal.

Dúvidas. Entender o que é o Blast não é fácil. E pode ser interpretado pelo leitor de formas diversas.

Polza Manzini é um homem obeso com quase 150 quilos. É um homem culto mas completamente desajustado em relação à sociedade e aos comportamentos tidos como normais. Um dia desafia a normalidade e parte para viver livremente, em busca do "Blast" que para ele são breves momentos de perfeição, que a sua mente alcança.

Aquilo a que assistimos é um flashback, pois ele encontra-se preso, e relata os acontecimentos que o levaram a um crime violento. Portanto vamos "ouvindo" o seu depoimento que vai dando a dois inspectores da polícia. O que não sabemos, mas deduzimos, é que o seu depoimento está a ser possivelmente manipulador. Não temos a certeza porque o comportamento de Polza vai alternando entre o lúcido e o delirante e certas coisas que conta parecem-nos lógicas e outras monstruosas e nojentas. A história que conta aos inspectores parece ao mesmo tempo verdadeira e impossível, porque foge às regras, porque desafia o nosso entendimento. 

A história é densa, intensa, perturbadora e viciante. Como aqueles filmes que vemos, mas ao mesmo tempo tapamos os olhos com medo do que vamos ver. 

Não é à toa que esta é uma novela gráfica de referência, no panorama da banda desenhada europeia contemporânea. Publicada originalmente entre 2009 e 2010, chegou agora pelas mãos da Ala dos Livros e deixou-nos expectantes quanto ao segundo livro que contem os dois últimos volumes.



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Olá Vasco Granja! - Uma exposição inserida na 25.ª edição da Monstra FAL


De 12 a 22 de Março irá decorrer a 25.ª edição da Monstra - Festival de Animação de Lisboa. Entre as iniciativas que integram o Festival, está incluída uma exposição intitulada "Olá, Vasco Granja!", que estará patente na Sociedade Nacional de Belas Artes. A exposição, de acesso gratuito, estará aberta de 7 de Março a 4 de Abril e será dedicada a esta figura nacional que tanto fez pela animação e pela banda desenhada. Um espólio bastante rico e diversificado estará disponível para ser visto pelos visitantes.








 

Comic Con Portugal 2026: autor da série 5 Terras é mais outro grande convidado para Sta. Maria da Feira


Já sabíamos desta excelente presença, mas só agora a Comic Con Portugal confirmou que o autor Jérome Lereculey da série 5 Terras vai estar presente na próxima Comic Con Portugal, entre 23 e 26 de Abril em Sta Maria da Feira.

Assim a edição de 2026 da Comic Con Portugal prepara-se para receber um dos nomes mais influentes da Banda Desenhada europeia contemporânea. O autor francês Jérôme Lereculey é um dos convidados confirmados do evento, numa presença que resulta de uma colaboração editorial com a LEYA.

Referência incontornável da BD franco-belga atual, o autor alcançou projeção internacional com a série As 5 Terras, uma obra que redefiniu a forma como a fantasia política é trabalhada na narrativa gráfica europeia.

Desde o seu lançamento em 2019, a série tem sido amplamente elogiada pela crítica e pelo público pela maturidade narrativa, densidade política e construção de universo detalhada. Num mundo marcado por alianças frágeis, rivalidades ancestrais e jogos de poder constantes, a obra explora a natureza humana através de personagens moralmente complexas e decisões que moldam o destino de reinos inteiros. A série é desenvolvida em parceria com o argumentista David Chauvel.

O impacto cultural e editorial do projeto consolidou o estatuto do autor no mercado europeu, reforçando um percurso que inclui colaborações com a editora Delcourt e distinções em vários festivais internacionais.

O tom narrativo da obra é frequentemente associado a uma visão realista do poder e das suas consequências, refletida em momentos marcantes da narrativa, como se lê no volume 2 (p.11):

“É igual para todos, sejamos nobres ou camponeses. Afinal de contas, somos felinos!”

Durante a edição de 2026, a presença do autor permitirá ao público português um contacto direto com o processo criativo por detrás de uma das séries mais relevantes da fantasia europeia atual, através de sessões de autógrafos e participação em conteúdos públicos do evento.





A nossa leitura de "O gosto do cloro", de Bastien Vivès - edição Devir

 


Temos gostado sempre dos trabalhos de Bastien Vivès e este não foi excepção.  O Gosto do Cloro é o sétimo volume da colecção Angoulême, editada pela Devir e que reúne vários títulos que foram premiados no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, ao longo de vários anos. Portanto estamos perante uma obra premiada, que desde logo se destaca pela simplicidade e delicadeza quer visual, quer em termos de narrativa. Apesar de se apresentar num estilo minimalista, não deixa de ser uma história profunda e expressiva.

A história acompanha dois jovens que se conhecem numa piscina. Ele frequenta a piscina por indicação médica, devido a problemas de coluna e ela por adorar nadar, tendo em conta que chegou a ser campeã de natação. Sem se conhecerem, acabam por criar uma relação muito singela, com ela a dar-lhe conselhos sobre os movimentos correctos a ter dentro de água.

Os diálogos não são muitos e ao longo de toda a obra o silêncio é privilegiado. A água funciona aqui como uma espécie de bolha que modifica os sons e as sensações. Entre os dois jovens a relação vai ficando cada vez mais próxima, mas a rapariga é um pouco misteriosa e reservada, o que desde logo constitui uma espécie de barreira, para além da qual o rapaz não consegue ultrapassar.

É um livro muito bonito, cuja leitura flui, como a água, com as pranchas maioritariamente da cor de "azul piscina". Não há nenhum grande acontecimento, apenas a rotina e uma narrativa intimista sobre estas duas personagens, duas almas que sofrem de solidão, cada um pelos seus motivos, que desconhecemos mas deduzimos.

O final deixa-nos um pouco desorientados, pois ficamos em suspenso, à espera de que aconteça algo.

Relembramos que Bastien Vivès virá a Portugal no mês de Abril, para participar na Comic Con.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

330 - A opinião de Miguel Cruz sobre "On l'appelait Carmilla", de Manzella, Boccia e Cecchinelli

Fez no passado dia 24 de fevereiro, quatro anos que Miguel Cruz se juntou ao projecto Juvebêdê com as suas habituais opiniões internacionais sobre livros de BD que saem lá fora, Festivais, Prémios, entre outras noticias.

Em concreto foram 329 noticias em quatro anos assinadas por ele, mais precisamente 293 livros comentados de banda desenhada e as restantes 36 notícias referentes a Festivais de BD, Prémios de BD, entre outros.

Por isso aqui fica o nosso obrigado, pois é uma grande mais valia para o projecto, sem esquecer as duas páginas que assina sempre na revista em papel do Juvebêdê. 

Assim aqui fica a noticia 330 com o álbum On l'appelait Carmilla, de Manzella, Boccia e Cecchinelli.

Carlos Cunha e Alexandra Sousa



On l'appelait Carmilla

Editado pela Mosquito, da autoria dos italianos Boccia e Cecchinelli no argumento e Manzella no desenho, esta BD é mais uma investigação do inspetor Flavio Argento (a anterior, Nuits Romaines, é espetacular, falarei dela, se puder, aqui mais tarde).

Flavio Argento é um experiente inspetor, inteligente e intuitivo, com um conjunto de contactos importantes e frequentemente “não convencionais”, como é o caso do padre Abrams que muito o vai ajudar nesta investigação. Mas Flavio Argento é um ser humano marcado por terríveis pesadelos, que marcam a sua vida pessoal, que fazem com que pouco o surpreenda nas investigações com uma componente fantástica, mas particularmente que o tornam experiente no mal, e no papel que os pesadelos desempenham na abertura de uma janela para esse mal. Curiosamente um seu pesadelo recorrente vai ajudá-lo neste inquérito, uma vez que lhe vai chamar a atenção para um detalhe que tinha esquecido. “O mal não passa de uma ideia, não existe se não o tornarmos realidade, e é assim que cada pesadelo, mesmo o pior, toma forma, se torna vivo, respira”.

Uma jovem de 15 anos é encontrada morta num cemitério católico, com uma estaca espetada no seu peito, e numa cruz é encontrada a inscrição em sangue “eu sou Carmilla”. Com a ajuda do Padre Abrams, Argento descobre que Carmilla é uma jovem com 17 anos muito recentes, ruiva, que conseguia ver os pesadelos dos outros. Esta maldição gerou reações diferentes no seu pai, desaparecido, e na sua mãe que vai ser interrogada, uma vez que Carmilla desapareceu do seu alojamento, onde estava a ser acompanhada sob coordenação do já referido padre.

Os testemunhos recolhidos e a cena do crime parecem apontar para que uma perturbada Carmilla estará por detrás deste crime, o que vai ser reforçado por uma nova tentativa de assassinato, desta vez falhado, com a ajuda de Argento, e em que o elemento mais relevante do atacante é a cor ruiva do cabelo. Evidências científicas vão acrescer à informação disponível, e Argento com o apoio do padre e de uma colega psiquiatra, vai acabar por resolver o caso, que nos vai deixar um gosto amargo na boca.

A história é linear, inesperada, sustentada essencialmente pelos medos e pelos pesadelos, pelas fortes personalidades, e pela presença discreta do “mal”. Uma história interessante, mas não agradável. Personagens complexas, loucura, um equilíbrio narrativo entre o fantástico e o real assegurado pelo sórdido.

O desenho é fantasmagórico, planos aproximados ao rosto e olhos muito frequentes, espaços assustadores, seja no exterior, seja no interior, muita escuridão, sangue, imagens sobrepostas, detalhes nem sempre nítidos, tudo ao serviço das sensações mais do que da representação física.

Para quem procura um desenho “perfeitinho” e uma história convencional, com final feliz, e com uma moral evidente, a minha recomendação é de que não se detenham nesta BD. Dei a um amigo a BD para folhear, e a reação foi de que era assustadora, e que não tinha coragem para “se meter nisto”. E, no entanto, achei uma BD adulta, construtiva, bem estruturada num estilo a bordejar o terror. Pela minha parte, gostei, acho que é útil para uma variação do habitual. 




A nossa leitura de "Dakota 1880" (uma homenagem a Lucky Luke), de Apollo e Brüno - edição A Seita

 


E se Lucky Luke tivesse mesmo existido, em carne e osso? Pois bem, este livro leva-nos a crer isso mesmo. "Dakota 1880" é mais um livro da colecção "Lucky Luke visto por", editado pela Seita.  Apollo e Brüno, os autores desta homenagem, reúnem neste álbum sete histórias que nos revelam um lado desconhecido do nosso herói, o da sua juventude. Portanto, o Lucky Luke que nos aparece aqui ainda não se tinha tornado na lenda que todos conhecemos. O narrador da história é Baldwin Chenier, um autor que existiu mesmo, nascido em 1862 no Louisiana. A ser verdade o que ele conta, ele é um dos testemunhos da vida real de Lucky Luke e este "Dakota 1880" é inspirado na sua obra. Tudo isto é explicado e documentado nas últimas páginas do livro, depois das histórias curtas.

Nas pequenas histórias, Baldwin vai narrando episódios da vida de Lucky Luke que ele presenciou. É curioso ficarmos a conhecer outras facetas do herói e outros aspectos mais sérios e sem serem necessariamente cómicos, da vida do famoso cowboy. Portanto estamos aqui perante uma homenagem num registo um pouco diferente, sem ser uma grande aventura, mas ao mesmo tempo muito consistente, bem estruturado e bem conseguido e que nos deixa, efectivamente, a pensar na origem desta personagem criada por Morris que este ano completa a bonita idade de 80 anos.