sexta-feira, 17 de julho de 2026

Homenagem: Hugo van der Ding e Maria de Medeiros homenageiam amanhã autora de Persépolis em Lisboa


Persépolis, filme baseado na novela gráfica homónima de Marjane Satrapi, publicada em Portugal pela Bertrand Editora, regressou aos cinemas desde ontem quinta-feira, dia 16 de Julho, numa nova versão restaurada. A Bertrand Editora associa-se à distribuidora Midas Filmes para homenagear autora, que morreu há pouco mais de um mês. 

Persépolis foi publicado em Portugal pela Bertrand Editora em 2015, com tradução de Hugo van der Ding. Amanhã, 18 de julho, Hugo van der Ding junta-se à actriz Maria de Medeiros para uma conversa muito especial, dedicada a Marjane Satrapi e à sua obra. A sessão realizasse às 18h, no Cinema Ideal, em Lisboa. Após a morte da autora,  Hugo van der Ding disse que «agora mais do que nunca, conhecer esta história de Persépolis também é um gesto revolucionário»

Persépolis foi adaptado ao cinema pela própria autora, juntamente com Vincent Paronnaud, em 2007. Chegou às salas portuguesas no ano seguinte, com distribuição da Midas Filmes. O filme recebeu o Prémio do Júri no Festival de Cannes, além de uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme de Animação. 

A nova versão digital restaurada poderá ser vista em Lisboa, Porto e Coimbra (a partir de 16 de Julho), Almada (15 de Julho), Faro (6 de Agosto), São Brás de Alportel (7 de Setembro) e Viseu (10 de Setembro).  

Marjane Satrapi morreu no passado dia 4 de junho. Segundo a família, morreu «de tristeza», pouco mais de um ano após a morte do marido, o produtor e argumentista Mattias Ripa. Distinguida como uma das mais importantes vozes da literatura gráfica contemporânea, Satrapi conquistou os leitores com Persépolis. Nesta inesquecível obra, a autora relata a infância no Teerão durante a revolução islâmica e a sua juventude na Europa. 

A nossa leitura de As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Mansoureh Kamari - edição Arte de Autor

 


Que grande murro no estômago. Já não é a primeira vez que lemos livros sobre a condição feminina em países onde a mulher é vista como um ser inferior, por isso já devíamos estar preparados para esta leitura. Mas não, a leitura desta obra autobiográfica da autora iraniana Mansoureh Kamari, sobre os seus primeiros anos de vida passados no Irão, não deixaram de nos perturbar, e muito!

Esta novela gráfica "As linhas que traçam o meu corpo", editada recentemente pela Arte de Autor, articula memória, trauma e emancipação e é-nos contada de forma alternada, entre o presente e o passado. 

Mansoureh Kamari utiliza o próprio corpo como ponto de partida para reflectir sobre a condição feminina no Irão e vai mostrando ao leitor a forma como a opressão política, religiosa e patriarcal deixa marcas profundas, que persistem mesmo após a emigração e ao longo da vida.

Preparem-se, por isso, para um livro muito triste, mas de uma enorme beleza visual. A narrativa inicia-se durante uma sessão de modelo vivo, na qual a protagonista posa nua para estudantes de desenho. Este enquadramento tem um forte valor simbólico: o corpo que, durante a infância e juventude, foi alvo de vigilância e censura transforma-se agora num corpo observado livremente, por escolha própria. A nudez deixa de significar vergonha para passar a representar autonomia e reconquista da identidade.

O impacto visual é muito forte neste livro, tendo em conta que o desenho é o elemento mais expressivo da obra, porque há páginas em que o texto é quase nenhum e as imagens falam por si e dão-nos a conhecer um passado em Teerão em que existe o medo constante da autoridade masculina, a perda precoce da liberdade e as restrições impostas às meninas, a banalização da violência física e psicológica, legitimada por normas sociais e religiosas. Ao mesmo tempo, no presente, vemos uma mulher que é dona do seu corpo, recuperando o controlo que lhe foi retirado ainda na infância.

O livro é autobiográfico, mas é uma forma de denúncia política e de evidenciar os dramas e a descriminação que afecta milhões de mulheres.

Voltamos ao desenho para falar na importância das cores nesta obra, pois Kamari utiliza predominantemente tons cinzentos e negros para retratar as recordações ligadas ao Irão e introduz de forma gradual a cor (um rosa muito ténue), quando a protagonista (ela própria) recupera a liberdade.

Belíssima aposta da Arte de Autor, num formato que gostamos bastante e que é excelente para atrair leitores que habitualmente não lêem banda desenhada.

De notar que está prevista a presença de Mansoureh Kamari na edição deste ano do Festival Amadora BD.





quinta-feira, 16 de julho de 2026

A nossa leitura de Vizinhos, de Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva - edição ASA

 


Em apenas 64 páginas e com quatro histórias curtas consegue dizer-se tantas coisas. Vizinhos, de Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva é muito mais do que um livro sobre vizinhança. É sobre solidão, sobre racismo, sobre violência doméstica, sobre intolerância, sobre a falta de empatia a que assistimos cada vez mais.

"Todos os dias era o mesmo", "Coisas ilegais", "A velhota lá de baixo" e "Reunião de Condomínio" são os quatro títulos das pequenas histórias escritas pela Ana Bárbara Pedrosa e desenhadas pelo Nuno Saraiva. Todas elas nos são contadas num género de humor negro e de ironia, mas ao mesmo tempo com uma grande sensibilidade e humanidade. 

O grande sentido de observação dos autores faz com que apresentem aqui personagens que simbolizam vários tipos de vizinhos que são quase inimigos e os prédios onde vivem transformam-se em campos de batalha.

A falta de comunicação e os julgamentos precipitados, sem fundamentos, criam muitas vezes equívocos e problemas que não existem e isso é muito claro aqui neste livro.

Vizinhos é um livro que não é muito grande em tamanho, mas é muito grande em conteúdo, utilizando o humor para tocar com o dedo na ferida.

Vizinhos só nos pareceu ter um defeito. Soube a pouco. Mas parece que poderemos um dia destes contar com mais histórias de vizinhança. Ficamos a aguardar!





Novidades: A Seita apresenta esta tarde, na Fnac do Chiado, a colecção Bursztyn/Âmbar e vai haver sorteio de livros



Esta tarde, pelas 18 horas, a Seita irá apresentar na FNAC do Chiado, a sua colecção Bursztyn/Âmbar, que tem vindo a lançar em Portugal obras de banda desenhada de autores polacos. Já saíram três volumes dos seis previstos para 2026.

Por outro lado, este projecto de internacionalização também tem o sentido inverso, uma vez que estão a ser lançados obras de autores nacionais na Polónia, mas também no Reino Unido e em França.

Durante o evento de hoje vão ser anunciadas as novidades para o próximo semestre e vão ser sorteados alguns livros. 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A nossa leitura de A Fuga, de Jorge Mateus e Paulo Caetano - edição Iguana

 


Este foi o terceiro livro que lemos desta dupla de autores, Jorge Mateus (ilustração) e Paulo Caetano (texto) e conseguem sempre surpreender-nos, tanto com as histórias que nos contam, como com os incríveis e inimitáveis desenhos. Foi o que aconteceu com este "A Fuga", editado pela Iguana.

Desta vez os autores foram buscar uma história verídica, baseada em acontecimentos que tiveram lugar no período da ditadura do Estado Novo em Portugal. O que os autores aqui conseguem é uma combinação entre factos históricos com o desenvolvimento psicológico do protagonista, mostrando os efeitos da repressão, da culpa e também da coragem. Estamos perante uma história que nos fala sobre a luta pela liberdade, a resistência a uma ditadura, a violência e as torturas sofridas e também nos mostra como é importante a solidariedade entre presos políticos. 

A narrativa acompanha António Tereso, um militante clandestino do PCP, motorista da Carris que, depois de ser preso e torturado pela PIDE, sente-se culpado por ter falado o que não devia. Procura recuperar a sua dignidade perante a sua família e os seus companheiros e decide empreender uma audaciosa fuga da prisão de Caxias. Depois de dois anos muito difíceis em que Tereso se vê obrigado a viver uma dupla identidade, conquistando aos poucos a confiança dos guardas, prepara em segredo absoluto, uma operação digna de um filme. O resultado é uma fuga espetacular num carro blindado oferecido por Hitler a Salazar.

Um episódio que parece surreal, mas que foi verdade e que é aqui bem contado pelas palavras de Paulo Caetano e abrilhantado com as ilustrações de Jorge Mateus. Os desenhos e as suas cores ajudam a reforçar a tensão, a emoção e o ambiente sombrio da época. Gostámos bastante dos separadores de capítulos, sempre fazendo a ligação com a Carris, mas que vão mudando consoante as épocas do ano vão passando. Há também outros pormenores interessantes, como o facto do verso da capa e do verso da contra capa serem preenchidos com desenhos dos rostos das personagens.

No final do livro alguma documentação histórica, como as fotografias dos prisioneiros e as imagens da reconstituição da Fuga, realizada pela PIDE.




O 3.º encontro do Clube de BD da FNAC é já este sábado, 18 de julho



Antes de partirmos para férias, há uma paragem obrigatória: o terceiro encontro do Clube de BD da FNAC Portugal, que decorre na loja do Colombo, este sábado, 18 de Julho, pelas 15 horas. 

A proposta desta vez são dois títulos que ajudam a entrar em “modo férias":

“Finalmente o Verão” de Mariko Tamaki e Jillian Tamaki (Planeta Tangerina), uma história coming of age sobre duas amigas que, depois de passarem muitos Verões juntas, se apercebem que a diferença de idades as começa a afastar.

“A Viagem” de Agustina Guerrero (Dom Quixote), também sobre duas amigas que embarcam juntas numa viagem que pensavam que as levaria apenas ao Japão, mas que terá um alcance bem mais profundo.

Todos são bem vindos a este encontro. Quem já tiver lido algum destes títulos, os dois, ou nenhum deles, fãs de banda desenhada ou apenas curiosos e que querem conhecer mais sobre a nona arte.

Apareçam! 

O Clube é dinamizado por mim, Alexandra Sousa, do Juvebêdê e pelo João Oliveira do podcast “Livrólicos Anónimos” e do instagram “Na Cama com os Livros”.



terça-feira, 14 de julho de 2026

A nossa leitura de Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim e Xulm - edição A Seita

 


Esta é uma das três primeiras obras editadas pel' A Seita, que fazem parte da coleção Bursztyn / Âmbar, dedicada à banda desenhada polaca contemporânea. A obra foi apresentada em Portugal o Maia BD, com a presença dos autores.

Depois de termos lido o excelente "Três Irmãs", de Anna Poszepczyńska, foi agora a vez de lermos "Heksa, A Bruxa", editada originalmente em 2024 e da autoria de Katarzyna Witerscheim e Marcin Surma (Xulm).  Esta banda desenhada obteve o Grande Prémio do Festival Internacional de Banda Desenhada e Jogos, de Lódz, em 2022.

A história leva-nos até Nikiszowiec, uma comunidade mineira da Silésia, durante a década de 1920 e combina elementos do folclore polaco com uma representação cuidada da vida quotidiana e das tensões sociais da época. A figura da Heksa (bruxa) não é aqui uma personagem sobrenatural, mas sim uma mulher , a sedutora e encantadora Pelagia, que desafia as normas estabelecidas, contra as ansiedades e preconceitos da comunidade. Pelagia conhece o jovem Alojz que rapidamente fica enfeitiçado por ela, assim como vários moradores da vila. O que acontece é que ela, rompendo uma série de normas, mesmo sendo admirada por uns, vai ser acusada por outros de praticar bruxaria. 

A protagonista torna-se objeto de fascínio, desejo e suspeita em simultâneo, evidenciando como a imagem da "bruxa" resulta frequentemente da projecção dos receios e das expectativas coletivas. Portanto, o que vemos aqui não é tanto uma narrativa de fantasia, mas sim uma história que nos fala de exclusão, de controlo moral, de crenças e superstições populares, de não aceitar o que é diferente dos padrões estabelecidos. 

Do ponto de vista do desenho, gostámos muito do estilo delicado e expressivo, com uma paleta de cores muito limitada, entre o preto e branco e várias tonalidades de rosa. Gostámos não só das figuras das personagens, como também dos espaços quer interiores quer exteriores, que nos transportam para o século passado.

Resumindo, Heksa foi uma leitura muito interessante, mas que se revelou um desafio, tendo em conta que ao longo das páginas, há várias palavras que aparecem na sua versão original (polaco), pelo que estamos constantemente a ir ao final do livro consultar o que significa. É um pouco cansativo porque nos faz interromper a leitura, mas ao mesmo tempo é divertido e acabamos por ficar a conhecer algumas palavras polacas.




Novidade Nuvem de Letras: Charlie Brown está de regresso com "Preso por um fio!"

Mais um livro do universo dos Peanuts, editado pelo Grupo Penguin Random House, desta vez pela chancela Nuvem de Letras: Charlie Brown - Preso por um fio! O livro já se encontra em pré-venda e estará disponível a partir de 22 de Julho.

A sinopse: 

O tempo passa, mas certas coisas nunca mudam. O Charlie Brown está determinado a dar a volta ao seu azar e a manter o seu papagaio longe da maldita árvore que come papagaios. Enquanto isso, o resto do bando continua as suas peripécias e episódios caricatos.

Quer estejas com os pés bem assentes no chão ou preso por um fio, de pernas para o ar, numa árvore, é certo que não vais querer perder pitada destas aventuras.



segunda-feira, 13 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Tango T. 9 - Faux Frères", de Matz e Xavier e "Gunnar le Vampire", de Dumontheuil

 

Tango T. 9 - Faux Frères

Este é o nono tomo da bem conhecida série Tango. Neste tomo relativo aos irmãos falsos, mais do que uma grande inovação temática, encontramos identidade e maturidade gráfica num thriller contemporâneo.

Inserido num registo urbano e contemporâneo o nono volume da série Tango confirma a solidez de uma das séries de aventura e thriller mais consistentes da banda desenhada franco belga recente. A dupla Matz (argumento) e Philippe Xavier (desenho) prossegue aqui um percurso narrativo que combina eficácia de género com um progressivo aprofundamento psicológico do protagonista. 

O ponto de partida é simples, mas carregado de implicações: Tango, num momento de desgaste pessoal marcado por isolamento e consumo excessivo de álcool é abordado por Shannon para uma missão de infiltração em Porto Rico. O elemento decisivo é a existência de um homem que lhe é quase idêntico, abrindo a possibilidade de uma substituição funcional, mas desencadeando também uma confrontação inesperada com o seu próprio passado. 

O argumento de Matz estrutura-se como um thriller clássico infiltração, tensão crescente, confrontações violentas, mas introduz uma camada mais ambígua através do tema do “duplo”. Este não funciona apenas como recurso narrativo, mas como catalisador identitário: Tango é levado a questionar as suas origens, as suas ligações familiares e a própria construção da sua identidade, o que o torna uma figura vulnerável, marcada por falhas e fragilidades.

Na minha opinião, é ao nível gráfico que Faux Frères atinge um grau particularmente elevado de maturidade. O desenho realista de Xavier é bem conhecido, e já muita gente me referiu a semelhança do seu desenho com o de William Vance. O seu desenho é elegante, a perfeição anatómica é notável, a fluidez de movimentos facilita uma leitura agradável que a estrutura cinematográfica permite. O ritmo visual é cuidadosamente controlado, alternando momentos de aceleração (ação, confrontos) com pausas mais contemplativas. Para além disso, o autor demonstra grande domínio na representação de espaços tropicais, urbanos e marítimos, integrando-os plenamente na narrativa, mas isso já o sabíamos. 

As cores de Jérôme Maffre desempenham um papel essencial na construção da identidade visual do álbum. O uso de tons quentes e saturados reforça a sensação de calor, tensão e exotismo, criando um contraste constante entre luminosidade e ameaça.

Editado pela Lombard, esta BD cumpre com a expectativa criada, não surpreende, mas constitui uma leitura agradável.



Gunnar le Vampire

Com Gunnar le Vampire, Nicolas Dumontheuil propõe uma abordagem singular do imaginário vampírico, afastando-se deliberadamente tanto da tradição gótica clássica como das versões contemporâneas que privilegiam o espetáculo ou a psicologia romântica. Caracterizada como uma espécie de fábula literária, esta obra constitui um exercício gráfico particular de um autor muito particular e que encara esta narrativa fantástica com um nível de ironia e um certo cinismo que a tornam uma BD muito interessante, mesmo se um pouco longa.

Acompanhamos a história do vampiro Gunnar, uma figurinha um pouco grotesca, que não é um sedutor, não tem nada de heroico, pouco de trágico, e que não inspira verdadeiramente um grande medo o que, para um vampiro, deve ser um pouco chato, senão mesmo frustrante! É este o vampiro de Dumontheuil: um estranho inadaptado mais do que um ícone do terror.

E por isso, a BD é essencialmente “atmosférica”, isto é, descreve um ambiente em que se movimenta Gunnar, e relata um conjunto de episódios humorísticos e absurdos que com ele acontecem. 

Como é bom de entender, a melancolia é dominante nem poderia ser de outra forma, por uma questão de consistência mas a crueldade mostra a sua terrível carantonha com alguma frequência, como forma, aliás, de conseguir alguma empatia do leitor que, no entanto, é sempre mantido num certo desconforto.

O desenho de Dumontheuil mantém-se ao nível que já nos habituou: exuberante e grotesco, aparentemente deformado e irregular com um propósito, muito expressivo e rico em detalhes. As cores são intensas, reforçando a melancolia e a intensidade.

As próprias vinhetas e sequências são irregulares e surpreendentes, o que fica muito bem a esta interpretação pessoal e burlesca do universo dos vampiros. O alinhamento do texto (ricamente construído) e do desenho, é excelente.

A leitura não é fácil, nem é rápida, seja pela densidade, seja pelos detalhes, mas é uma leitura muito satisfatória, uma “experiência”. BD editada pela Dupuis na coleção Aire Libre.



São quatro as novidades da Ala dos Livros que chegarão nos próximos meses!

Serão mais do que estas, mas destacamos já estas quatro obras que a Ala dos Livros publicará na versão portuguesa e que chegarão nos próximos meses. 

Domingos é talvez o livro pelo qual mais ansiamos, da autoria do nosso querido amigo Sidney Gusman. O Diabo e a Coral, é outra obra que nos suscita muita curiosidade, tendo em conta que é um trabalho do espanhol Josep Homs, autor da série Shi. O sétimo álbum de "O Gato do Rabino" e o quinto volume da série "Wildwest" fazem também parte deste leque de novidades da Ala dos Livros. 

Aguardemos por estas e por mais ainda.







domingo, 12 de julho de 2026

Estão abertas as candidaturas para 4.ª residência artística de BD em Bruxelas

 


Até ao dia 31 de Julho estão abertas as candidaturas para a 4.ª edição da Residência Artística de Banda Desenhada de Bruxelas.

Esta iniciativa destina-se a pessoas de nacionalidade portuguesa, residentes em Portugal ou na Bélgica e é desenvolvido pelo Camões - Centro de Língua Portuguesa em Bruxelas, com o apoio da Embaixada de Portugal na Bélgica, e do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, em parceria com o Município de Beja/Bedeteca de Beja, a Université Libre de Bruxelles e o Centre Belge de Bande Dessinée/Musée de la BD Bruxelles.


BDs da estante - 694: Lucky Luke - O Fio que canta, de Morris e Goscinny - edição ASA

 


Editado originalmente em 1977, este álbum faz parte da época de ouro da série Lucky Luke, pois ainda tem como argumentista Goscinny. Em 1850 era dramático comunicar num pais tão grande como os Estados Unidos. Para pôr fim ao tempo que demorava e aos ataques do Pony Express (ligação de homem a cavalo), o Presidente  Abraham Lincoln decidiu nomear duas equipas para ligaram o Oeste a Leste por telégrafo. É este o tema do álbum “O fio que canta”.

sábado, 11 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "L’Escadron bleu, 1945", de Le Pon e Ollagnier e "Chagrin", de Rodolphe e Griffo

 

L’Escadron bleu, 1945 

L’Escadron bleu, 1945 é um one shot publicado em 2026 pela Dupuis, integrado na prestigiada coleção Aire Libre, conhecida por acolher obras com rigor histórico, mesmo que romanceadas, e com um grafismo clássico, mas de qualidade visível. 

A narrativa acompanha Madeleine Pauliac, médica pediatra e uma visível resistente francesa, que pouco após a libertação de Paris é enviada para Moscovo e Varsóvia como médico tenente das FFI (Forças Francesas de Resistência). A sua missão: organizar o repatriamento sanitário dos franceses libertados pelo exército russo e dos que permaneciam detidos na Polónia sob controlo soviético.

Madeleine acaba por liderar um grupo de enfermeiras cujo nome dá título a esta BD: o Esquadrão Azul. Para além de se tratar de uma página pouco conhecida da história pelo menos por mim e que tem a ver com a atuação de um grupo humanitário em pleno caos pós-guerra e de ocupação da Polónia, bem com a criação do hospital francês de Varsóvia dirigido por Madeleine, esta BD é naturalmente dominada e retrata bem o clima de tensão político que começa a desenvolver-se no final do esforço conjunto (razoavelmente conjunto) de combate ao inimigo comum. Para além das mais de 130 páginas desta BD, o dossier de 14 páginas incluído nesta edição é muito interessante e ajuda a conhecer a situação.

O prefácio desta BD é de Philippe Maynial, sobrinho de Madeleine Pauliac, e que escreveu sobre a história da sua familiar, passa uma mensagem de autenticidade histórica. Virginie Ollagnier, escritora e romancista, autora de uma outra obra de que aqui falei Sucre Noire tem-se especializado na pesquisa histórica e na capacidade de transformar uma base de documentário em narrativa emocionalmente envolvente e com fluidez, a juntar a uma mensagem de base de cariz humanista. O desenho ficou a cargo de Yan Le Pon, detentor de um traço clássico, detalhado, expressivo e documental. A sensação de necessidade e urgência de intervenção humanitária é, na minha opinião, muito difícil de transmitir no desenho, e o autor fá-lo com uma interessante sobriedade. O seu estilo combina realismo com uma paleta cromática contida, adequada ao ambiente do pós guerra. Anne Claire Thibaut Jouvray (um dos membros da família Jouvray) é a responsável por uma colorização subtil, que reforça o importante tom melancólico e austero da obra, num contexto onde as personagens se têm de mostrar contidas, subtis e muito diplomáticas.

É uma interessante narrativa, uma boa BD e, portanto, uma leitura informativa e com uma força emocional envolvente. 




Chagrin

Chagrin (Mágoa) é um álbum intimista e melancólico, que diria essencialmernte possível pela experiência dos seus dois autores: Rodolphe no argumento e o grande Griffo no desenho. Perda, memória e luto, são os temas essenciais, tratados num “outro tempo”.

A narrativa segue um protagonista confrontado com acontecimentos que o obrigam a revisitar episódios dolorosos da sua vida. Rodolphe constrói um enredo subtil, mais emocional do que factual, onde o não dito é tão importante quanto o que é visível. A subtileza, a fluidez dada pelo relato do essencial, a perceção do humano sem juízos de valor, são o foco de Rodolphe.

Griffo, com o seu traço elegante e expressivo, reforça a atmosfera de introspeção, usando enquadramentos e expressões faciais que sublinham a fragilidade emocional das personagens. O seu estilo de desenho é, efetivamente, uma representação de falhas, fragilidades, decadência, remorso, marcas das escolhas infelizes. As cores reforçam a impressão de introspeção.

Para uma BD deste tipo ou, se quiserem, com um tema intimista, é essencial um bom diálogo, culto, literário, e um bom controlo de sequências, ritmos narrativos e perspetivas. Tudo isso é conduzido com mestria.

A BD não agradará a todos, é muito melancólica, tem pouca ação. No entanto, é um verdadeiro romance gráfico de qualidade e negrume, séria, com uma excelente coerência entre narrativa e desenho. 
Elegante, sensível e cuidada, esta BD foi editada pela Dupuis na sua coleção Aire Libre. Um verdadeiro romance em 130 páginas, esta BD captou a minha atenção e a leitura é longa, pois os detalhes no desenho são muitos, e o texto e os silêncios são para se apreciar len-ta-men-te.

A capa, para mim, é muito bem conseguida visualmente e a atenção do “cliente” é atraída imediatamente pela citação de Balzac: “Se me possuíres, possuirás tudo. Mas a tua vida passará a ser minha. Assim o quis Deus”. 

Está percebido ao que vamos?


A nossa leitura do segundo e terceiro volume de Something is killing the children, de Tynion IV, Dell'edera e Muerto - edição Devir

 


Continuamos a dizer que terror não é muito o nosso género preferido, mas esta série prendeu-nos e agora estamos a acompanhar esta série Something is Killing the Children, para descobrir o mistério do que está a acontecer na pequena cidade de Archer's Peak, localizada no Wisconsin, nos Estados Unidos.

Depois de uma pausa após o primeiro volume, lemos o segundo e o terceiro de seguida e foi quase de cortar a respiração. É que conforme vamos avançando na história, são-nos dadas mais explicações e o mistério começa a ter algumas peças do puzzle, mas está longe de se resolver, pois outras questões ficam em aberto. Portanto, quando começamos a achar que a coisa está mais perto de ser resolvida, afinal complica-se ainda mais, pois nesta fase entraram na narrativa outras personagens muito importantes e outras, já existentes, ganham mais protagonismo.

A verdade é que continuam a morrer crianças, de modo muito violento e não somos poupados a essa violência explícita (afinal estamos perante uma história de terror). Os assassinos são monstros que apenas são vistos pelas crianças e isso dificulta a resolução do problema, tendo em conta que os adultos não acreditam naquilo que não conseguem ver e tendem a culpar o que lhes parece mais racional, ainda que aquelas mortes não tenham nada de racional. 

No centro da história temos a enigmática Erica Slaughter, que apesar de ter conseguido matar o monstro que aterrorizava a cidade, o horror está longe de ter acabado porque o monstro que ela matou era uma mãe… e agora os seus filhos também têm que morrer, pois a sua fome insaciável faz com que precisem de comer... mais crianças. Havendo mais mortes, os habitantes voltam as suas suspeitas para a estranha que está entre eles e Erica vê-se ameaçada tanto de um lado, como de outro, pois surge uma estranha organização que a conhece bem e que quer travar-lhe os movimentos e não parecem ter propriamente boas intenções...




sexta-feira, 10 de julho de 2026

A opinião de Miguel sobre "Le Horla", de Paul e Gaëtan Brizzi e "Juste après la vague", de Monféry


Le Horla 

A editora Futuropolis usa mais esta obra dos irmãos Brizzi (Paul e Gaëtan) para lançar uma nova coleção: La Bibliothèque Fantastique, um projeto editorial que visa adaptar, num ritmo anual, grandes textos do fantástico europeu. Os irmãos Brizzi lançaram-se então a um texto de Maupassant, que eu, ó ignorante miserável, nem conhecia, mas que, depois de o ler em BD (os meus pais, coitados, muito teriam a dizer sobre isto), direi que é difícil de ultrapassar em fantástico e sobrenatural. 

Uma excelente, densa, mas bastante legível BD, sobre a qual não consigo elogiar as qualidades de adaptação, mas que retrata bem o invisível (como aliás é destacado na abordagem comercial da editora), que retrata bem o medo.

A narrativa é baseada num diário, logo, numa narração de acontecimentos por parte de alguém que se vai afastando cada vez mais da realidade e da estabilidade psicológica. As sensações, o “invisível” as “inquietudes” são o centro da narração nesta BD: o que é realidade e o que é resultado da deriva psicológica do narrador?

Como já é hábito no trabalho de Paul e Gaetan, a BD é a preto e mais preto e ainda mais preto, cinzento e branco, com muitos jogos de luz e trabalhos de sombras. A atmosfera criada pelo desenho é permanentemente inquietante, desafiadora. A sugestão, num contexto opressivo, é o elemento essencial.

Sabemos bem o envolvimento em projetos cinematográficos dos autores particularmente de um dos irmãos e na consequência que isso tem na estrutura do trabalho a duas cabeças e a quatro mãos (enfim, assumindo tanto quanto me recordo – que ambos são destros, a duas mãos…!). E está bem assim, pois a influência cinematográfica ajuda na fluidez da leitura.

Le Horla dos irmãos Brizzi é, assim, um caso sério de rigor e de escolhas, que se destaca pela tentativa bem conseguida, argumentarei - de traduzir visualmente um estado psicológico.




Juste après la vague

Com Juste après la vague (Logo após a vaga), Dominique Monféry propõe uma adaptação particularmente intensa do romance de Sandrine Collette, transformando um relato de catástrofe global num drama profundamente íntimo. Entre distopia ecológica e tragédia familiar, a obra articula duas dimensões complementares: a luta pela sobrevivência num mundo submerso e a violência moral das escolhas impostas por essa mesma sobrevivência (desde logo a escolha de uma mãe em relação aos seus filhos).

O ponto de partida é brutal na sua simplicidade: uma vaga gigantesca devastou o planeta, reduzindo-o a uma dispersão de ilhéus isolados. Uma família numerosa sobrevive num promontório rochoso, mas a subida contínua das águas torna inevitável a fuga. O problema é insolúvel: há apenas uma barca, incapaz de transportar todos. A decisão dos pais abandonar três dos filhos para salvar os restantes constitui o núcleo trágico da narrativa.

A força da obra reside na forma como transforma um cenário pós apocalíptico num estudo psicológico e ético. A catástrofe está presente, mas pouco se vê, funciona sobretudo como contexto: o verdadeiro foco são as relações familiares e a violência íntima das decisões.

Dominique Monféry, com uma longa experiência no cinema de animação transporta para a banda desenhada uma narrativa visual quase a 3D, com um desenho e uma gestão de cores, que reforçam a “espessura” das páginas.

Os enquadramentos são quase sempre amplos, procurando destacar a desolação, e a solidão das personagens, o que é reforçado pela expressividade dos rostos. A composição de página muito variável dá uma boa imagem do caos que se pretende retratar. 

A águia é o elemento dominante e o uso de aguarelas ajuda a dar uma credibilidade à situação, o que se torna distintivo neste trabalho, onde poucas palavras são usadas.

Uma leitura intensa, mas interessante, sofisticada e marcante. 

Editado pela Rue de Sévres.