Comanche Trail
Comanche Trail, de Christian Rossi, apresenta‑se como uma obra que simultaneamente homenageia e reinterpreta os códigos do género. A ambiguidade narrativa é, talvez, o ponto particularmente distintivo desta BD que desloca o foco do western na BD para um território mais introspetivo e atmosférico, sem estereótipos.
O enredo organiza‑se em torno de uma longa perseguição, estruturando-se como um verdadeiro road‑movie no deserto, onde a progressão geográfica acompanha o aprofundamento psicológico das personagens. A narrativa assenta menos na acumulação de acontecimentos do que na construção de uma experiência de imersão: o leitor é progressivamente envolvido na deriva dos protagonistas, num ambiente onde o espaço vasto, silencioso e hostil assume uma função dramática central.
É, contudo, ao nível gráfico que Comanche Trail afirma de forma mais evidente a sua singularidade. Christian Rossi, autor de uma longa trajetória na banda desenhada franco‑belga, e uma das minhas referências, caracteriza-se por um desenho simultaneamente clássico e experimental. A sua linha, aparentemente fluida e controlada, revela uma constante procura de equilíbrio entre precisão figurativa e liberdade expressiva. As personagens são construídas com grande economia de traço, mas sem perda de densidade psicológica: um gesto contido, uma inclinação do corpo ou um olhar bastam para sugerir intenções, tensões ou hesitações.
A composição das pranchas evidencia um domínio notável do ritmo visual. Rossi alterna sequências amplas, de respiração quase cinematográfica, com enquadramentos mais fechados que concentram a atenção nos rostos e nas interações. O silêncio e o vazio assumem tanta importância quanto a ruidosa ação.
A cor desempenha igualmente um papel fundamental. Os tons ocres, vermelhos e azulados dominam o álbum, evocando tanto a aridez das paisagens quanto a dimensão emocional das situações. A luz, frequentemente tratada de forma difusa ou rasante, contribui para uma sensação de instabilidade e de transitoriedade, reforçando a ideia de um mundo em permanente deslocação.
O que é certo é que Comanche Trail propõe uma visão menos idealizada do Oeste, questionando certos mitos fundadores e apresentando uma leitura mais ambígua das relações entre culturas e comunidades.
Um belíssimo álbum, rico e complexo. Editado pela Casterman.
Le Mage du Kremlin
A BD Le Mage du Kremlin, editado pela Casterman, é uma adaptação do romance de Giuliano da Empoli, da responsabilidade de Luc Jacamon (autor nosso conhecido de Le Tueur – o Assassino). Trata-se de um romance de base histórica, mas centrada numa ficção de natureza política, tema que tem vindo a interessar Jacamon (mesmo em Le Tueur), e que se desenvolve como um thriller.
No centro da narrativa surge Vadim Baranov, (que nos é indicado ter sido inspirado em Vladislav Sourkov, conselheiro de Vladimir Putin). Antigo homem de teatro, Baranov torna se arquiteto da comunicação política do regime, transformando a realidade em encenação e a política em espetáculo. O próprio dispositivo narrativo uma longa confissão reforça essa dimensão teatral: esta BD é sobre propaganda e manipulação.
Em Le Mage du Kremlin vamos acompanhar a personagem central desde a queda da União Soviética até à consolidação do regime de Putin, passando por momentos-chave (os anos 90, o controlo dos media, os conflitos e crises que consolidam a autoridade do poder central).
O argumento é inteligente e interessante, sem estados de alma, mas cheio de subtilezas, e mostrando os limites da manipulação, a importância de símbolos e da simplicidade da mensagem. O desenho realista do autor ajusta-se bem a esta adaptação, com páginas de tom muitas vezes sombrio (mas nunca negro, antes arrepiante), rostos marcados, mas facilmente reconhecíveis, personagens expressivas, mas essencialmente frias. Ao longo das várias páginas, a tensão contextual é palpável, e isso é difícil de conseguir, especialmente porque nos “bastidores” tudo tem de ser muito contido e diplomático.
O espaço desempenha um papel central na narrativa. A Rússia não surge apenas como cenário, mas como estrutura de base histórica, em que a mudança de paisagem e as subtilezas dos símbolos são representativos da mudança.
Luc Jacamon confirma aqui a sua capacidade de transformar temas complexos em narrativas visuais acessíveis, sem os simplificar em demasia. A estética é interessante e a narrativa educativa (ou informativa, como preferirem). Vale a pena a leitura.















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