L’Exode du Louvre - T. 1
Mais uma boa Banda Desenhada na minha opinião, claro. E para mais, uma BD de Gradimir Smudja, um autor cujo desenho me fascina, pela qualidade, expressividade, brilho e, particularmente, pela vida e alegria que emana das suas páginas (mesmo quando o tema tem pouco de positivo), do seu estilo e cores. Para mim, isso é já muito!
Editado pela Futuropolis, “O Êxodo do Louvre” aborda um tema muito interessante apesar de já o ter visto abordado noutras obras que decorre da antecipação da guerra com a Alemanha Nazi, em 1939. O diretor do museu do Louvre está preocupado ao contrário de muitos dos seus concidadãos com a possibilidade da guerra e, particularmente, com as consequências desse conflito para o museu que dirige. Alertado por um trio improvável (e bastante excêntrico): Picasso, Cocteau e Dalí, Jaujard tem a noção de que a situação é grave. Como proteger as obras primas do Louvre, símbolos da identidade cultural francesa, perante a ameaça nazi?
O álbum acompanha o processo de decisão, as hesitações, os planos improvisados e a mobilização de equipas técnicas e administrativas. A história não se limita ao plano institucional: Smudja mostra o Louvre como um organismo vivo, onde conservadores, trabalhadores, motoristas e funcionários se tornam protagonistas de uma operação monumental. O volume termina com a preparação da grande evacuação que será desenvolvida no tomo 2.
Em L’Exode du Louvre, cada prancha poderia estar numa galeria do museu. A paleta é rica, quente, com tons que evocam a luz parisiense e a textura das salas museológicas. Há ecos de Monet, Degas, Toulouse Lautrec e até do surrealismo, sobretudo nas aparições de Dalí e pronto (!), aí toca mais um dos meus pontos sensíveis.
Jaujard é representado com grande subtileza emocional: o rosto transmite responsabilidade, ansiedade e determinação. Os três artistas, por seu lado, são retratados com humor e exagero, quase como caricaturas vivas. Esta escolha estilística cria um contraste interessante entre o drama histórico e a leveza boémia da vida artística parisiense.
As salas do Louvre são desenhadas com profundidade, textura e monumentalidade. As cenas exteriores captam bem o clima pré guerra: uma Paris vibrante, mas com sombras que se adensam. Visualmente notável, a BD consegue manter o rigor histórico, e um bom ritmo de narração, mesmo que seja visível que o autor se deleita com alguns dos seus desenhos quem não o faria, numa história passada no Louvre? Basta ver a capa e estamos conversados.
Corum - T. 1: Le Chevalier des épées
Mais uma adaptação das sagas de Michael Moorcock: Desta vez não é Elric (já conhecida entre nós em BD), mas sim um novo herói, também ele condenado à luta eterna entre a ordem e o caos. Os responsáveis por esta adaptação publicada pela Glénat são David Chauvel (em Portugal só conheço publicação nos Clássicos da Literatura em BD, embora também uma das “cabeças” que está na origem da saga “As 5 terras”) no argumento e Luca Merli no desenho (Italiano, desconheço publicações em português).
A narrativa abre num mundo devastado: os Mabdens, humanos bárbaros, exterminaram quase por completo os Vadhaghs, uma raça antiga e refinada. O protagonista, Corum Jhaelen Irsei, último sobrevivente do seu povo, é capturado e mutilado pelo conde Glandyth. Salvo por Moidel, é conduzido ao feiticeiro Shool, que lhe confia uma missão impossível: roubar o coração de Arioch, o mais poderoso dos deuses do Caos o mesmo Arioch que domina o destino de Elric.
A partir daqui, desenha se uma busca épica e trágica movida pela vingança, e em que o protagonista vai realizar o seu percurso de busca interior (como dizia o comandante do avião das aventuras de Natacha: “Eu já vi isto”). Aventura, brutalidade, reflexão existencial e q.b. de misticismo. A novidade não é elemento marcante desta BD, mas o desenho expressivo, detalhado, vigoroso, cheio de energia física, permite uma roupagem diferente e atrativa. As figuras são tensas, musculadas, quase escultóricas, reforçando a violência ritualizada do mundo de Corum.
As pranchas evocam vastidão, decadência e presença divina, sendo as cores dominantes os vermelhos sangrentos, os azuis místicos, e os ocres queimados. A cor reforça a dimensão trágica e “mítica” da narrativa.
O ritmo é intenso, o respeito pelo original é marcante. Todo o ambiente é sombrio, para que a leitura seja agradável tenderia a sugerir algum gosto pela fantasia com laivos filosóficos e a preparação de entrada num mundo marcado pelos atos de “deuses” caprichosos que manipulam o destino dos mortais.
Se gosta destas sagas; se gostou de Elric; tem aqui uma BD que não se limita a ser mais uma, tem força, tem intensidade, tem marca, nomeadamente gráfica. E atenção: o tomo 2 está com data de saída prevista de Agosto deste ano.




































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