segunda-feira, 13 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Tango T. 9 - Faux Frères", de Matz e Xavier e "Gunnar le Vampire", de Dumontheuil

 

Tango T. 9 - Faux Frères

Este é o nono tomo da bem conhecida série Tango. Neste tomo relativo aos irmãos falsos, mais do que uma grande inovação temática, encontramos identidade e maturidade gráfica num thriller contemporâneo.

Inserido num registo urbano e contemporâneo o nono volume da série Tango confirma a solidez de uma das séries de aventura e thriller mais consistentes da banda desenhada franco belga recente. A dupla Matz (argumento) e Philippe Xavier (desenho) prossegue aqui um percurso narrativo que combina eficácia de género com um progressivo aprofundamento psicológico do protagonista. 

O ponto de partida é simples, mas carregado de implicações: Tango, num momento de desgaste pessoal marcado por isolamento e consumo excessivo de álcool é abordado por Shannon para uma missão de infiltração em Porto Rico. O elemento decisivo é a existência de um homem que lhe é quase idêntico, abrindo a possibilidade de uma substituição funcional, mas desencadeando também uma confrontação inesperada com o seu próprio passado. 

O argumento de Matz estrutura-se como um thriller clássico infiltração, tensão crescente, confrontações violentas, mas introduz uma camada mais ambígua através do tema do “duplo”. Este não funciona apenas como recurso narrativo, mas como catalisador identitário: Tango é levado a questionar as suas origens, as suas ligações familiares e a própria construção da sua identidade, o que o torna uma figura vulnerável, marcada por falhas e fragilidades.

Na minha opinião, é ao nível gráfico que Faux Frères atinge um grau particularmente elevado de maturidade. O desenho realista de Xavier é bem conhecido, e já muita gente me referiu a semelhança do seu desenho com o de William Vance. O seu desenho é elegante, a perfeição anatómica é notável, a fluidez de movimentos facilita uma leitura agradável que a estrutura cinematográfica permite. O ritmo visual é cuidadosamente controlado, alternando momentos de aceleração (ação, confrontos) com pausas mais contemplativas. Para além disso, o autor demonstra grande domínio na representação de espaços tropicais, urbanos e marítimos, integrando-os plenamente na narrativa, mas isso já o sabíamos. 

As cores de Jérôme Maffre desempenham um papel essencial na construção da identidade visual do álbum. O uso de tons quentes e saturados reforça a sensação de calor, tensão e exotismo, criando um contraste constante entre luminosidade e ameaça.

Editado pela Lombard, esta BD cumpre com a expectativa criada, não surpreende, mas constitui uma leitura agradável.



Gunnar le Vampire

Com Gunnar le Vampire, Nicolas Dumontheuil propõe uma abordagem singular do imaginário vampírico, afastando-se deliberadamente tanto da tradição gótica clássica como das versões contemporâneas que privilegiam o espetáculo ou a psicologia romântica. Caracterizada como uma espécie de fábula literária, esta obra constitui um exercício gráfico particular de um autor muito particular e que encara esta narrativa fantástica com um nível de ironia e um certo cinismo que a tornam uma BD muito interessante, mesmo se um pouco longa.

Acompanhamos a história do vampiro Gunnar, uma figurinha um pouco grotesca, que não é um sedutor, não tem nada de heroico, pouco de trágico, e que não inspira verdadeiramente um grande medo o que, para um vampiro, deve ser um pouco chato, senão mesmo frustrante! É este o vampiro de Dumontheuil: um estranho inadaptado mais do que um ícone do terror.

E por isso, a BD é essencialmente “atmosférica”, isto é, descreve um ambiente em que se movimenta Gunnar, e relata um conjunto de episódios humorísticos e absurdos que com ele acontecem. 

Como é bom de entender, a melancolia é dominante nem poderia ser de outra forma, por uma questão de consistência mas a crueldade mostra a sua terrível carantonha com alguma frequência, como forma, aliás, de conseguir alguma empatia do leitor que, no entanto, é sempre mantido num certo desconforto.

O desenho de Dumontheuil mantém-se ao nível que já nos habituou: exuberante e grotesco, aparentemente deformado e irregular com um propósito, muito expressivo e rico em detalhes. As cores são intensas, reforçando a melancolia e a intensidade.

As próprias vinhetas e sequências são irregulares e surpreendentes, o que fica muito bem a esta interpretação pessoal e burlesca do universo dos vampiros. O alinhamento do texto (ricamente construído) e do desenho, é excelente.

A leitura não é fácil, nem é rápida, seja pela densidade, seja pelos detalhes, mas é uma leitura muito satisfatória, uma “experiência”. BD editada pela Dupuis na coleção Aire Libre.



São quatro as novidades da Ala dos Livros que chegarão nos próximos meses!

Serão mais do que estas, mas destacamos já estas quatro obras que a Ala dos Livros publicará na versão portuguesa e que chegarão nos próximos meses. 

Domingos é talvez o livro pelo qual mais ansiamos, da autoria do nosso querido amigo Sidney Gusman. O Diabo e a Coral, é outra obra que nos suscita muita curiosidade, tendo em conta que é um trabalho do espanhol Josep Homs, autor da série Shi. O sétimo álbum de "O Gato do Rabino" e o quinto volume da série "Wildwest" fazem também parte deste leque de novidades da Ala dos Livros. 

Aguardemos por estas e por mais ainda.







domingo, 12 de julho de 2026

Estão abertas as candidaturas para 4.ª residência artística de BD em Bruxelas

 


Até ao dia 31 de Julho estão abertas as candidaturas para a 4.ª edição da Residência Artística de Banda Desenhada de Bruxelas.

Esta iniciativa destina-se a pessoas de nacionalidade portuguesa, residentes em Portugal ou na Bélgica e é desenvolvido pelo Camões - Centro de Língua Portuguesa em Bruxelas, com o apoio da Embaixada de Portugal na Bélgica, e do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, em parceria com o Município de Beja/Bedeteca de Beja, a Université Libre de Bruxelles e o Centre Belge de Bande Dessinée/Musée de la BD Bruxelles.


BDs da estante - 694: Lucky Luke - O Fio que canta, de Morris e Goscinny - edição ASA

 


Editado originalmente em 1977, este álbum faz parte da época de ouro da série Lucky Luke, pois ainda tem como argumentista Goscinny. Em 1850 era dramático comunicar num pais tão grande como os Estados Unidos. Para pôr fim ao tempo que demorava e aos ataques do Pony Express (ligação de homem a cavalo), o Presidente  Abraham Lincoln decidiu nomear duas equipas para ligaram o Oeste a Leste por telégrafo. É este o tema do álbum “O fio que canta”.

sábado, 11 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "L’Escadron bleu, 1945", de Le Pon e Ollagnier e "Chagrin", de Rodolphe e Griffo

 

L’Escadron bleu, 1945 

L’Escadron bleu, 1945 é um one shot publicado em 2026 pela Dupuis, integrado na prestigiada coleção Aire Libre, conhecida por acolher obras com rigor histórico, mesmo que romanceadas, e com um grafismo clássico, mas de qualidade visível. 

A narrativa acompanha Madeleine Pauliac, médica pediatra e uma visível resistente francesa, que pouco após a libertação de Paris é enviada para Moscovo e Varsóvia como médico tenente das FFI (Forças Francesas de Resistência). A sua missão: organizar o repatriamento sanitário dos franceses libertados pelo exército russo e dos que permaneciam detidos na Polónia sob controlo soviético.

Madeleine acaba por liderar um grupo de enfermeiras cujo nome dá título a esta BD: o Esquadrão Azul. Para além de se tratar de uma página pouco conhecida da história pelo menos por mim e que tem a ver com a atuação de um grupo humanitário em pleno caos pós-guerra e de ocupação da Polónia, bem com a criação do hospital francês de Varsóvia dirigido por Madeleine, esta BD é naturalmente dominada e retrata bem o clima de tensão político que começa a desenvolver-se no final do esforço conjunto (razoavelmente conjunto) de combate ao inimigo comum. Para além das mais de 130 páginas desta BD, o dossier de 14 páginas incluído nesta edição é muito interessante e ajuda a conhecer a situação.

O prefácio desta BD é de Philippe Maynial, sobrinho de Madeleine Pauliac, e que escreveu sobre a história da sua familiar, passa uma mensagem de autenticidade histórica. Virginie Ollagnier, escritora e romancista, autora de uma outra obra de que aqui falei Sucre Noire tem-se especializado na pesquisa histórica e na capacidade de transformar uma base de documentário em narrativa emocionalmente envolvente e com fluidez, a juntar a uma mensagem de base de cariz humanista. O desenho ficou a cargo de Yan Le Pon, detentor de um traço clássico, detalhado, expressivo e documental. A sensação de necessidade e urgência de intervenção humanitária é, na minha opinião, muito difícil de transmitir no desenho, e o autor fá-lo com uma interessante sobriedade. O seu estilo combina realismo com uma paleta cromática contida, adequada ao ambiente do pós guerra. Anne Claire Thibaut Jouvray (um dos membros da família Jouvray) é a responsável por uma colorização subtil, que reforça o importante tom melancólico e austero da obra, num contexto onde as personagens se têm de mostrar contidas, subtis e muito diplomáticas.

É uma interessante narrativa, uma boa BD e, portanto, uma leitura informativa e com uma força emocional envolvente. 




Chagrin

Chagrin (Mágoa) é um álbum intimista e melancólico, que diria essencialmernte possível pela experiência dos seus dois autores: Rodolphe no argumento e o grande Griffo no desenho. Perda, memória e luto, são os temas essenciais, tratados num “outro tempo”.

A narrativa segue um protagonista confrontado com acontecimentos que o obrigam a revisitar episódios dolorosos da sua vida. Rodolphe constrói um enredo subtil, mais emocional do que factual, onde o não dito é tão importante quanto o que é visível. A subtileza, a fluidez dada pelo relato do essencial, a perceção do humano sem juízos de valor, são o foco de Rodolphe.

Griffo, com o seu traço elegante e expressivo, reforça a atmosfera de introspeção, usando enquadramentos e expressões faciais que sublinham a fragilidade emocional das personagens. O seu estilo de desenho é, efetivamente, uma representação de falhas, fragilidades, decadência, remorso, marcas das escolhas infelizes. As cores reforçam a impressão de introspeção.

Para uma BD deste tipo ou, se quiserem, com um tema intimista, é essencial um bom diálogo, culto, literário, e um bom controlo de sequências, ritmos narrativos e perspetivas. Tudo isso é conduzido com mestria.

A BD não agradará a todos, é muito melancólica, tem pouca ação. No entanto, é um verdadeiro romance gráfico de qualidade e negrume, séria, com uma excelente coerência entre narrativa e desenho. 
Elegante, sensível e cuidada, esta BD foi editada pela Dupuis na sua coleção Aire Libre. Um verdadeiro romance em 130 páginas, esta BD captou a minha atenção e a leitura é longa, pois os detalhes no desenho são muitos, e o texto e os silêncios são para se apreciar len-ta-men-te.

A capa, para mim, é muito bem conseguida visualmente e a atenção do “cliente” é atraída imediatamente pela citação de Balzac: “Se me possuíres, possuirás tudo. Mas a tua vida passará a ser minha. Assim o quis Deus”. 

Está percebido ao que vamos?


A nossa leitura do segundo e terceiro volume de Something is killing the children, de Tynion IV, Dell'edera e Muerto - edição Devir

 


Continuamos a dizer que terror não é muito o nosso género preferido, mas esta série prendeu-nos e agora estamos a acompanhar esta série Something is Killing the Children, para descobrir o mistério do que está a acontecer na pequena cidade de Archer's Peak, localizada no Wisconsin, nos Estados Unidos.

Depois de uma pausa após o primeiro volume, lemos o segundo e o terceiro de seguida e foi quase de cortar a respiração. É que conforme vamos avançando na história, são-nos dadas mais explicações e o mistério começa a ter algumas peças do puzzle, mas está longe de se resolver, pois outras questões ficam em aberto. Portanto, quando começamos a achar que a coisa está mais perto de ser resolvida, afinal complica-se ainda mais, pois nesta fase entraram na narrativa outras personagens muito importantes e outras, já existentes, ganham mais protagonismo.

A verdade é que continuam a morrer crianças, de modo muito violento e não somos poupados a essa violência explícita (afinal estamos perante uma história de terror). Os assassinos são monstros que apenas são vistos pelas crianças e isso dificulta a resolução do problema, tendo em conta que os adultos não acreditam naquilo que não conseguem ver e tendem a culpar o que lhes parece mais racional, ainda que aquelas mortes não tenham nada de racional. 

No centro da história temos a enigmática Erica Slaughter, que apesar de ter conseguido matar o monstro que aterrorizava a cidade, o horror está longe de ter acabado porque o monstro que ela matou era uma mãe… e agora os seus filhos também têm que morrer, pois a sua fome insaciável faz com que precisem de comer... mais crianças. Havendo mais mortes, os habitantes voltam as suas suspeitas para a estranha que está entre eles e Erica vê-se ameaçada tanto de um lado, como de outro, pois surge uma estranha organização que a conhece bem e que quer travar-lhe os movimentos e não parecem ter propriamente boas intenções...




sexta-feira, 10 de julho de 2026

A opinião de Miguel sobre "Le Horla", de Paul e Gaëtan Brizzi e "Juste après la vague", de Monféry


Le Horla 

A editora Futuropolis usa mais esta obra dos irmãos Brizzi (Paul e Gaëtan) para lançar uma nova coleção: La Bibliothèque Fantastique, um projeto editorial que visa adaptar, num ritmo anual, grandes textos do fantástico europeu. Os irmãos Brizzi lançaram-se então a um texto de Maupassant, que eu, ó ignorante miserável, nem conhecia, mas que, depois de o ler em BD (os meus pais, coitados, muito teriam a dizer sobre isto), direi que é difícil de ultrapassar em fantástico e sobrenatural. 

Uma excelente, densa, mas bastante legível BD, sobre a qual não consigo elogiar as qualidades de adaptação, mas que retrata bem o invisível (como aliás é destacado na abordagem comercial da editora), que retrata bem o medo.

A narrativa é baseada num diário, logo, numa narração de acontecimentos por parte de alguém que se vai afastando cada vez mais da realidade e da estabilidade psicológica. As sensações, o “invisível” as “inquietudes” são o centro da narração nesta BD: o que é realidade e o que é resultado da deriva psicológica do narrador?

Como já é hábito no trabalho de Paul e Gaetan, a BD é a preto e mais preto e ainda mais preto, cinzento e branco, com muitos jogos de luz e trabalhos de sombras. A atmosfera criada pelo desenho é permanentemente inquietante, desafiadora. A sugestão, num contexto opressivo, é o elemento essencial.

Sabemos bem o envolvimento em projetos cinematográficos dos autores particularmente de um dos irmãos e na consequência que isso tem na estrutura do trabalho a duas cabeças e a quatro mãos (enfim, assumindo tanto quanto me recordo – que ambos são destros, a duas mãos…!). E está bem assim, pois a influência cinematográfica ajuda na fluidez da leitura.

Le Horla dos irmãos Brizzi é, assim, um caso sério de rigor e de escolhas, que se destaca pela tentativa bem conseguida, argumentarei - de traduzir visualmente um estado psicológico.




Juste après la vague

Com Juste après la vague (Logo após a vaga), Dominique Monféry propõe uma adaptação particularmente intensa do romance de Sandrine Collette, transformando um relato de catástrofe global num drama profundamente íntimo. Entre distopia ecológica e tragédia familiar, a obra articula duas dimensões complementares: a luta pela sobrevivência num mundo submerso e a violência moral das escolhas impostas por essa mesma sobrevivência (desde logo a escolha de uma mãe em relação aos seus filhos).

O ponto de partida é brutal na sua simplicidade: uma vaga gigantesca devastou o planeta, reduzindo-o a uma dispersão de ilhéus isolados. Uma família numerosa sobrevive num promontório rochoso, mas a subida contínua das águas torna inevitável a fuga. O problema é insolúvel: há apenas uma barca, incapaz de transportar todos. A decisão dos pais abandonar três dos filhos para salvar os restantes constitui o núcleo trágico da narrativa.

A força da obra reside na forma como transforma um cenário pós apocalíptico num estudo psicológico e ético. A catástrofe está presente, mas pouco se vê, funciona sobretudo como contexto: o verdadeiro foco são as relações familiares e a violência íntima das decisões.

Dominique Monféry, com uma longa experiência no cinema de animação transporta para a banda desenhada uma narrativa visual quase a 3D, com um desenho e uma gestão de cores, que reforçam a “espessura” das páginas.

Os enquadramentos são quase sempre amplos, procurando destacar a desolação, e a solidão das personagens, o que é reforçado pela expressividade dos rostos. A composição de página muito variável dá uma boa imagem do caos que se pretende retratar. 

A águia é o elemento dominante e o uso de aguarelas ajuda a dar uma credibilidade à situação, o que se torna distintivo neste trabalho, onde poucas palavras são usadas.

Uma leitura intensa, mas interessante, sofisticada e marcante. 

Editado pela Rue de Sévres.


A nossa leitura de Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - edição A Seita

Quando assistimos à apresentação deste livro no festival Coimbra BD, percebemos logo que estávamos perante uma história especial e de qualidade. Não nos enganámos. Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska, é uma obra sensível, bonita e dramática, sobre o peso de uma pessoa doente na família e o papel dos cuidadores.

Três Irmãs (Trzy siostry) é a primeira banda desenhada da autora e a narrativa acompanha três irmãs órfãs que vivem numa pequena cidade da Polónia. As duas mais velhas, Olza e Lena, dedicam a sua vida a cuidar da irmã mais nova, Dominika (Domi), que sofre de uma doença grave e degenerativa, necessitando de assistência permanente.

O que importa aqui não é o nome da doença, porque a autora inventou uma doença fictícia. Não interessa qual é, porque a história é inspirada em experiências reais de famílias cuidadoras e esse é o cerne da questão. Não a doença em si, mas o impacto que ela exerce sobre toda a estrutura familiar, que aqui é muito débil, tendo em conta que as três raparigas perderam os seus pais e apenas a mais velha trabalha para as sustentar, enquanto a do meio se centra em cuidar da mais nova, descurando a sua vida escolar. Ou seja, as mais velhas têm um enorme peso a seu cargo, pois as circunstâncias obrigam-nas a abandonar os seus projectos pessoais, os estudos, relações amorosas, saídas com amigos e sonhos. A responsabilidade que as duas mais velhas têm, torna-se o eixo em torno do qual toda a sua existência gira.

Há uma parte da história em que surge uma nesga de esperança de conseguirem mudar a irmã para um centro de reabilitação, mas isso também significa mudarem elas de cidade e esse tema não vai ser fácil, porque as duas mais velhas têm opiniões e sentimentos diferentes em relação a essa mudança. Aliás as duas começam a evidenciar divergências no que toca a lidar com a situação, porque enquanto uma encara o cuidar da irmã como uma missão, a mais velha sente um conflito entre o desejo de construir a sua própria vida com a obrigação de cuidar da irmã. Não há comportamentos certos ou errados aqui, não há julgamentos. Há apenas sentimentos e exaustão. 

É um romance gráfico triste mas muito terno e profundamente realista, que não deixa de alertar para a forma como a sociedade encara os cuidadores. Os problemas económicos, o isolamento social e a falta de apoio das instituições, são questões aqui muito presentes.

Uma palavra final para a mais nova, a Domi, que embora quase não comunique, acaba por funcionar como o centro emocional da narrativa. A sua presença e o seu estado, influencia todas as decisões e estado de espírito das suas irmãs mais velhas e mostra-nos como uma personagem pode ter enorme peso na história, mesmo sem participação verbal.

Resta-nos falar do desenho que nos encantou. Um traço leve e delicado, quase como se fosse um esboço, mas muito bonito, que realça a sensibilidade do tratamento do tema da história. A escolha das cores, numa paleta muito reduzida, em tons pastel compõe na perfeição este magnífico "Três Irmãs".

Excelente obra inaugural da colecção Bursztyn/Âmbar, da Seita, que procura trazer para o nosso país o que de melhor se faz em BD na Polónia, numa parceria com a editora polaca Timof Comics e com o Festival Internacional de Comics de Łódź (ao abrigo do apoio à edição no âmbito do PRR.






quinta-feira, 9 de julho de 2026

Prémios Quai des Bulles (Associados ao Festival de Saint-Malo - França)

Ao mesmo tempo que em Angoulême a situação do Festival continua a arrastar-se de adiamento em adiamento nos tribunais, prometendo mais um pequeno “flop” para 2027 (ou, se quiserem, mais um festival Off), para o festival de Saint-Malo, que normalmente coincide com o nosso Amadora BD, as coisas vão “mexendo”, e a seleção de álbuns é interessante para “captar” alguns sinais dos gostos de um público francófono.

Quanto ao prémio Ouest-France/Quai des Bulles, atribuído por um júri de leitores do jornal diário Ouest-France, escolhidos com a característica de terem menos de 35 anos (e mais de 18), estão nomeados:

Akari, de Marco Kohinata, Ed. Le Lézard Noir;

Avila, de Teresa Radice e Stefano Turconi, Ed. Glénat;

Karl, de Cyril Bonin, Ed. Sarbacane;

Mémoires d’un garçon agité, de Zabus e Valérie Vernay, Ed. Dargaud;

Mise à Mort du Tétras Lyre (La), de David Combet, Ed. Glénat;

Montagne d’Encre (La), de Nicolas Debon, Ed. Dargaud;

OFF, de Romain Renard, Olivier Tollet e Patrice Réglat-Vizzavona, Ed. Daniel Maghen;

Punk à Sein, de Magali Le Huche, Ed. Dargaud;

Tekoha, de Clara Chotil, Ed. Actes Sud;

Vaillantes, de Cécile Becq e Émilie Chazerand, Ed. Rue de Sèvres.



Quanto ao prémio ADAGP/Quai des Bulles (ADAGP é a Sociedade de Autores nas Artes Gráficas e Plásticas), também conhecido pelo prémio “jovem revelação”, cujo júri é composto por artistas, jornalistas e profissionais, os nomeados são:

Amère, de Lucrèce Andreae, Ed. Delcourt;

Salomé, de Alice Bienassis, Ed. Delcourt;

De Bonne Foi, de Marguerite Boutrolle, Ed. Dargaud;

Trop tard, de Baptiste Delengaigne, Ed. 2042;

Levure, de Juliette Hayer, Ed. Sarbacane;

Ces Lignes qui Tracent Mon Corps, de Mansoureh Kamari, Ed. Casterman;

Je Reviens dans Six Mois, de Lucas Landais, Ed. Albin Michel;

Marly ou la Neige en Été, de Emmanuel Lantam, Ed. Réalistes;

Les Singes, de Yann Le Bec, Ed. Dupuis;

Belle de Soie, de Pavel Bart, Ed. Delcourt.




Ilustra BD 2026: Snoopy e Naruto - duas exposições que ainda podem visitar até dia 31 de Julho

 

Este ano fomos pela primeira vez ao Ilustra BD e ainda não tínhamos falado aqui na nossa experiência. Fomos logo no dia de inauguração das exposições, coincidindo também com a presença do autor francês Pierre Alary, a convite da Ala dos Livros. Tivemos o gosto de estar com o autor, muito simpático e disponível e trouxemos dois belos autógrafos.

Esta 7.ª edição do Ilustra BD surpreendeu-nos pela qualidade e dimensão do espaço expositivo e das exposições propriamente ditas, todas com muita qualidade. Note-se que as duas primeiras da lista que se segue ainda podem ser visitadas até dia 31 de Julho, no auditório municipal Augusto Cabrita.

- Snoopy e os Peanuts

- Naruto - Nunca desistir...

- Mulheres de Papel - de várias autoras portuguesas com curadoria de Hugo Pinto

- Zorro, o Herói Popular - Pierre Alary

- Shhhhhh - André da Loba

Além de Pierre Alary foram vários os autores portugueses presentes no evento, muitos deles disponíveis no mercado do livro para autógrafos. 

Um belo espaço para um evento com estas características, mas que pecou por pouco público, pelo menos no tempo em que lá estivemos, e com pouca divulgação externa, ou seja, não vimos nada nas ruas a assinalar o Ilustra BD ou qualquer indicação, a não ser o painel no exterior do edifício. Talvez o Município do Barreiro possa investir no futuro na comunicação, pois sentimos que apenas lá estavam os mesmos do costume, que é como quem diz, os fãs que encontramos em todos os festivais. É um evento com qualidade, com potencialidade, parabéns aos cenógrafos envolvidos e com maior comunicação pode tornar-se num evento de referência.

Aqui ficam algumas imagens da nossa passagem pelo Ilustra BD.












quarta-feira, 8 de julho de 2026

Novidade Nuvem de Letras: Avatar: The Last Airbender™ Volume 4: Fumo e Sombra


A Nuvem de Letras já tem em pré-venda e com entrega a partir de 22 de Julho, o quarto volume da série Avatar: The Last Airbender™, com o título Fumo e Sombra.

A sinopse:

O Zuko e a Mai exploram a fundo a história da Nação do Fogo para desvendar o mistério de uma história para crianças que ganha vida: as Kemurikage!

Pouco tempo depois de regressar a casa após os eventos de A Busca, o Senhor do Fogo Zuko descobre que uma sociedade rebelde autointitulada Sociedade de Nova Ozai tem vindo a ganhar popularidade junto dos cidadãos da Nação do Fogo. O seu objetivo? Assassiná-lo e devolver o trono ao Ozai! E a prova de que o país está em risco é a presença das Kemurikage, que estão a raptar crianças por toda a Nação do Fogo. O medo instala-se na capital e a trama adensa-se.





Novidade G. Floy: série Preto, Branco e Sangue está de regresso com Venom, em banca a partir de hoje

 


A editora G. Floy Studio Portugal não tem editado nada infelizmente já há vários meses, mas está de regresso hoje em banca com a série Preto, Branco e Sangue, com título Venom, com o contributo de vários autores.

O lançamento nas lojas especializadas e livrarias generalistas será apenas no próximo dia 15 de Julho.

A história

A sobrevivência exige sacrifícios e cada gota de sangue tem uma história para contar. 

Venom: Preto, Branco & Sangue é uma arrepiante colecção de contos intensos a preto e branco com toques de vermelho, nos quais o simbionte é desencadeado na sua forma mais primal e intransigente. Cada capítulo permite ao leitor embrenhar-se no elo volátil entre hospedeiro e parasita, revelando Venom não só como um anti-herói dividido, mas também como uma imparável força da natureza. 

Leitura obrigatória para fãs de narrativas sombrias e arte impactante, pela mão de lendas dos comics como J.M. DeMatteis, Al Ewing, Erik Larsen e Chris Bachalo. 

Este álbum reúne as histórias publicadas originalmente em Venom: Black, White & Blood #1-4. 

Ficha técnica

Venom - Preto, Branco e Sangue 

Vários autores

G. Floy Studio Portugal 

Formato comic deluxe (18,0 cm x 27,5 cm) e capa dura 

152 páginas a cores

PVP: 23 €

ISBN: 978-83-67571-72-2




terça-feira, 7 de julho de 2026

Novidade Distrito Manga: o sétimo volume de Sinais de Afeto será lançado ainda este mês

 


Uma boa notícia para quem, como nós, segue esta série "Sinais de Afeto", de suu Morishita: o sétimo volume chega este mês, disponível a partir de 22 de Julho, com edição da Distrito Manga.

A sinopse:

Emma apanhou Itsuomi de surpresa na escola e arrastou-o até ao salão de jogos, onde ele foi brutalmente honesto quanto à ausência de qualquer interesse romântico por ela. O que Itsuomi não sabe é que Oushi os viu entrar juntos. Também desconhece que Oushi confrontou Yuki e a envolveu num abraço que disse mais do que alguma vez as suas palavras disseram – deixando-a com um peso de culpa a afundar-lhe o coração. Esta névoa de sentimentos não correspondidos ameaça o ainda frágil laço de confiança entre Yuki e Itsuomi… até que Itsuomi faz uma sugestão surpreendente.