domingo, 27 de setembro de 2026

A opnião de Miguel Cruz sobre "Dispatched", de B. Clay Moore e Gete e "Exquisite Corpses, Vol. 3", de vários

 

Dispatched

Dispatched, série em publicação pela Ignition Press (já publicados os #1 e #2), é ação, ação, ação. Às vezes, se a sequência é boa e os desenhos de qualidade, nada a dizer. É o caso. Morgan Powers, antigo agente de operações clandestinas agora escondido sob uma identidade oficial e empregado como estafeta, entra num complexo empresarial no preciso momento em que este é tomado por terroristas (acho que já vimos isto, não?). Sem arsenal, dispõe apenas da experiência acumulada e das encomendas fechadas na carrinha cada caixa podendo conter uma solução improvisada ou um objeto inútil. A premissa, que diria um encontro entre MacGyver e Die Hard, segue a mesma abordagem desses filmes de ação.

O argumentista B. Clay Moore vai gradualmente dando pistas sobre o protagonista. Antes de libertar a violência, o autor mostra a rotina banal, o isolamento familiar e o esforço de regressar à vida civil; quando Powers volta a agir, a competência física surge inseparável das marcas do passado. 

Na arte, Daniel Gete é decisivo. O seu desenho combina legibilidade com uma textura áspera e ligeiramente distorcida, dando peso aos espaços industriais, aos golpes e às súbitas irrupções de violência. A composição sabe acelerar nas sequências de confronto, mas também introduz imagens associativas um gesto quotidiano que convoca a memória de uma arma ou de uma morte capazes de exteriorizar o estado mental de Powers sem explicações excessivas. 

A equipa criativa funciona bem como verdadeiro conjunto: Moore controla a revelação narrativa e a ambiguidade moral do herói; Gete fornece a fisicalidade e o ambiente; Loughridge organiza a temperatura emocional da página; e o lettering dá contraste entre a agitação coletiva e a calma treinada de Powers. A própria Ignition Press merece destaque por apostar num thriller de criadores, de conceito imediatamente comunicável, e por enquadrá-lo com capas de Gete e variantes de autores como David Lapham, Andy MacDonald e Fernando Blanco (confesso que “fui a diferentes capas”).

Ainda há muito da série por ser revelado, mas Dispatched é um thriller enérgico, visualmente convincente e mais atento à fragilidade do seu protagonista do que a apresentação explosiva faria supor. E o #2 deixa-nos com vontade de conhecer o #3. Isso é muito bom!




Exquisite Corpses, Vol. 3

Exquisite Corpses parte de uma ideia absurdamente interessante: de cinco em cinco anos, na noite de Halloween, as famílias mais ricas dos Estados Unidos contratam assassinos especializados e transformam uma pequena localidade numa arena clandestina; o sobrevivente garante à família que representa o controlo do país durante o ciclo seguinte. Nos dois primeiros volumes, Oak Valley, no Maine, passa de cidade adormecida a tabuleiro de massacre, enquanto a série apresenta os concorrentes, os seus métodos e a obscena indiferença das elites que observam tudo à distância.

O terceiro volume, que reúne os números 9 a 13 e encerra a primeira “temporada”, começa quando a noite chega ao fim e o jogo parece encaminhar-se para o seu desfecho previsto. Restam menos assassinos, os confrontos tornam-se inevitáveis e o espaço narrativo contrai-se. A alteração decisiva, porém, vem dos habitantes: levados ao limite, deixam de aceitar o papel de vítimas e procuram subverter as regras impostas pelos poderosos. É essa passagem da sobrevivência à resistência que dá ao livro a sua verdadeira força dramática.

James Tynion IV e Michael Walsh, criadores e arquitetos da série, conduzem um projeto deliberadamente coral. Tynion assegura a premissa política e a mecânica de suspense; Walsh preserva a identidade visual e o ritmo global. À sua volta, Tyler Boss, Jordie Bellaire e Che Grayson participam na escrita, enquanto Valentine De Landro, Marianna Ignazzi e Gavin Fullerton se juntam a Walsh no desenho. O resultado poderia parecer fragmentário, mas a estrutura de “sala de argumentistas” converte a multiplicidade de vozes numa vantagem: cada confronto tem personalidade própria sem quebrar a progressão da narrativa.

Os assassinos são concebidos como ícones instantaneamente reconhecíveis máscaras, armas, alcunhas e silhuetas portentosas. A sátira social é frontal: os milionários são monstruosos, os habitantes pagam a conta e o jogo condensa uma ordem política fundada no privilégio. A falta de subtileza é evidente, mas quase sempre funcional; esta é uma fábula de horror em alta velocidade, mais interessada em expor a crueldade do sistema do que em conceder-lhe atenuantes.

Graficamente, o volume confirma uma das grandes qualidades da série. A violência é física, legível e coreografada com precisão, mas o desenho não perde de vista os rostos e a vulnerabilidade dos civis, particularmente na grande maioria de cenas noturnas onde cada página parece aproximar o amanhecer e o desastre.

Muito interessante, ritmada, com muitas sequências de ação bastante bem coreografadas e com um foco atraente no modo como o horror ganha impacto quando se detém nas vidas comuns devastadas pelo jogo. A conclusão é credível e interessante nesta história de terror editada pela Image.

BDs da estante - 705: Fábulas: Lendas no Exílio, de Bill Willingham e Lan Medina - Edição Devir

 


O que aconteceria se todas as personagens dos tradicionais contos de fada afinal existissem, e tivessem sido forçadas a abandonar a Terra da fantasia, para viver no nosso mundo? O que poderiam a Branca de Neve, o Lobo Mau, o Príncipe Encantado e o Barba-Azul fazer para sobreviver na nossa realidade? Pois bem, preparem-se para descobrir toda a verdade sobre a Comunidade das Fadas e das Fábulas, as personagens “supostamente” imaginárias, que se mudaram de armas e bagagem para Nova Iorque, onde vivem disfarçadamente e dissimuladamente entre os mortais mundanos. Fábulas é uma divertida história que apresentou, em 2004, pela primeira vez a linha da Vertigo – uma das colecções da DC Comics, mais virada para material que não tem a ver com super-heróis.


sábado, 26 de setembro de 2026

A nossa leitura de Flocons, de Marc Lizano e Silki - edição Casterman


Esta é uma história intimista, de enorme delicadeza e sensibilidade sobre o luto e sobre tudo o que permanece em nós, das pessoas que partem. Flocons é da autoria de Marc Lizano (argumento) e Silki (desenho) e foi editado recentemente pela Casterman. Desde logo fomos arrebatados pela lindíssima capa e pela sinopse. Esta é a nossa leitura.

A história começa de uma forma pesada e extrema. Um casal de meia idade decide morrer junto e cometer um duplo suicídio. O cenário que escolhem para o fazer é na região montanhosa de Cauterets, no meio da neve. Depois de encontrados, os filhos são avisados e têm de ali se deslocar para fazer o reconhecimento dos corpos.

Os dois irmãos, um homem e uma mulher, iniciam então uma viagem até ao local. Embora em estado de choque e com tudo o que têm pela frente, o reencontro dos irmãos vai fazer com que ao longo do caminho revisitem memórias, falem de afectos e de feridas antigas.

Estamos perante uma história, cujo centro da narrativa é a dificuldade em compreender e aceitar as escolhas de quem amamos e enfrentar o luto. É uma obra muito delicada, que vive também de momentos de silêncio e sendo um drama, não é dada a muitos dramatismos.

O cenário da morte do casal (a neve, branca e silenciosa), desenhado por Silki, contribui muito para criar a atmosfera que transmite paz e respeito pelo que aconteceu, o que cria um contraste entre a serenidade e a violência do acontecimento.

Apesar de analisamos tudo isto e considerarmos uma obra bonita, sensível e melancólica, achamos que há alguma inconsistência no modo como os filhos lidam com a situação, por vezes parecendo em choque e muito tristes e outras vezes, quase como se o acontecimento nas suas vidas fosse banal. Há diferenças de ritmo e de intensidade no argumento e no final sentimos ali a falta de um melhor desfecho. 




Novidade Penguin: Adaptação para banda desenhada da famosa obra "A Biblioteca da Meia-Noite"

 


Esta foi uma novidade que nos surpreendeu e nos deixou expectantes: a adaptação do livro "A Biblioteca da Meia-Noite". Lemos o original, de Matt Haig, e é um dos nossos livros preferidos, pelo que, ler agora a sua versão adaptada para banda desenhada, deixou-nos muito felizes. O livro será editado a 5 de Outubro, em Portugal, pela Penguin. A adaptação é de Fred Fordham, de quem já lemos outras adaptações como Mataram a Cotovia, O Grande Gatsby, Admirável Mundo Novo e Um Feiticeiro de Terramar.

A sinopse:

Entre a Vida e a Morte existe uma Biblioteca…

A vida de Nora tem ido de mal a pior.

É então que, ao bater da meia-noite do seu último dia na Terra, Nora dá por si numa biblioteca. Aí, é-lhe dada a oportunidade de repensar os seus arrependimentos e experimentar cada uma das outras vidas que poderia ter vivido.

O que levanta uma questão fundamental: com escolhas infinitas, qual é a melhor forma de viver?

Baseado no fenómeno mundial com milhões de exemplares vendidos, Fred Fordham recria de forma magistral em novela gráfica o clássico moderno de Matt Haig.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A nossa leitura de O Fantasma da Ópera, de Paul e Gaëtan Brizzi (de Gaston Leroux) - co-edição Arte de Autor e A Seita


Os irmãos Paul e Gaëtan Brizzi, têm vindo a adaptar obras clássicas para banda desenhada. Foi disso exemplo "O Inferno de Dante" e "Dom Quixote de la Mancha", ambos co-editados pela Arte de Autor e pel' A Seita, tal como este "O Fantasma da Ópera", que foi lançado este ano e cuja leitura terminámos.

Os desenhos dos irmãos Brizzi são únicos e extraordinários, pelo que a principal força desta adaptação é a sua interpretação visual. Esta adaptação do romance homónimo de Gaston Leroux, publicado originalmente em 1910, ganha aqui uma nova vida, através da banda desenhada, com monumentais desenhos a preto e branco, cenários incríveis e uma expressiva utilização das sombras. Os irmãos Brizzi conseguem nesta obra criar uma atmosfera que é simultaneamente fascinante e ameaçadora e apesar dos seu traço ser a lápis e não ser carregado, a expressividade do desenho faz com que todos os principais acontecimentos e todas as sensações não percam o seu impacto, antes pelo contrário, pois ganham ainda mais força.

Uma palavra para os espaços. A narrativa acontece na Ópera e sua arquitectura tem aqui especial relevância. O espaço é grandioso, mas ao mesmo tempo claustrofóbico, cheio de segredos, com sinistros espaços subterrâneos. Em algumas páginas temos vinhetas que funcionam quase como ilustrações autónomas, o que reforça ainda mais a monumentalidade. Diríamos quase que todo o edifício é tão importante na história, que ganha uma importância semelhante à das suas personagens.

Quanto às personagens, destacamos a forma como os desenhadores representam Erik. Uma figura quase natural, mas que progressivamente vamos conhecendo a sua dimensão humana. A sua deformidade, a sua solidão e a sua obsessão por Christine tornam-no muito mais do que uma figura assustadora, pois esta não é apenas uma história de terror, mas também uma história de um amor impossível.





Exposição: A Biblioteca Municipal de Odivelas acolhe uma exposição dedicada a João Amaral

 


A partir do próximo dia 29 de Setembro e até ao dia 31 de Outubro, irá estar patente na Biblioteca Municipal D. Dinis, em Odivelas, uma exposição que assinala os 32 anos de carreira de João Amaral. Tendo como temática central a relação entre a banda desenhada e a literatura, reúne pranchas das adaptações literárias que efetuadas pelo autor, nomeadamente de A Voz dos Deuses, de João Aguiar, de A Viagem do Elefante, de José Saramago e de Rosa, Minha Irmã Rosa, de Alice Vieira. 

A exposição pretende contribuir para a valorização da banda desenhada enquanto expressão artística e literária, promovendo a leitura junto de públicos juvenis e adultos e irá também contemplar algumas visitas orientadas para alunos do 1º ciclo do ensino secundário, gratuitas e sujeitas a inscrição prévia através do endereço bmdd@cm-odivelas.pt. 

O autor marcará presença no dia da inauguração dia 29 pelas 10h00.

Juvebêdê Breaking News: "Cartagena", a derradeira obra de Hermann, será publicada pela Arte de Autor no início de 2027

 


Confirmámos com a Arte de Autor esta excelente notícia. O livro Cartagena, obra que Hermann conseguiu concluir pouco tempo antes de morrer (o autor deixou-nos em Março deste ano), será publicada em Portugal pela Arte de Autor, em Fevereiro de 2027. O livro foi originalmente editado em Abril deste ano pela editora Le Lombard e já publicámos aqui no Juvebêdê a opinião de Miguel Cruz que leu a sua versão original.

A Arte de Autor tem vindo a publicar várias obras de Hermann nos últimos anos, como a série Duke, Brigantus e mais recentemente o álbum duplo (Old Pa Anderson + Redenção), trabalhos realizados em colaboração com o seu filho Yves H., com quem trabalhou em muitos das suas obras do anos mais recentes e o mesmo aconteceu com este Cartagena.




quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Autor: o conhecido e aclamado argumentista francês Rodolphe (1948-2026) faleceu no passado dia 22 de Setembro


O aclamado argumentista francês de banda desenhada Rodolphe Daniel Jacquette (1948-2026), conhecido profissionalmente apenas como Rodolphe, faleceu no passado dia 22 de Setembro, aos 78 anos, na sequência de uma paragem cardíaca, em Colombes, França. A notícia do seu falecimento foi confirmada oficialmente pelas Edições Glénat. 

O autor partiu dois escassos dias antes do lançamento da sua mais recente obra literária Conan Doyle v.1 - Le Monstre du Staffordshire (ver capa acima), editada precisamente no dia de hoje e deixando outros projectos já prontos e que serão publicados em breve.

Com uma carreira que se estendeu por quase meio século, Rodolphe consolidou-se como um dos autores mais ativos e versáteis do universo da BD. Escreveu mais de 200 álbuns abrangendo os mais diversos géneros, desde o mistério e o policial até ao western, ficção científica e fantástico.

Antes de se dedicar inteiramente à escrita de argumentos, Rodolphe formou-se em estudos literários na Faculdade de Nanterre e exerceu a profissão de professor de Letras. A sua paixão pelas narrativas levou-o a colaborar com alguns dos desenhadores mais prestigiados do sector, construindo histórias marcantes como:

• Trent e Kenya: Séries de enorme sucesso internacional criadas em parceria com o aclamado desenhador franco-brasileiro Leo.

• Comanche: Saga clássica que assumiu com mestria e respeito ao dar continuidade ao trabalho original deixado por Greg.

• Les Écluses du ciel: Criada ao lado de Michel Rouge e François Allot.

• As Investigações do Comissário Raffini: Desenvolvida em conjunto com Jacques Ferrandez.

Ao longo do seu percurso, o escritor foi galardoado com distinções de prestígio no meio, incluindo o reputado Prémio Jacques-Lob em 1993, que reconhece o talento e o percurso de  argumentista de BD. A comunidade artística lamenta a perda de um criador incansável e de um contador de histórias nato que deixou uma marca indelével na nona arte.

Os álbuns editados em Portugal pelo autor foram vários, entre os quais Kenya e mais reentemente a novela gráfica A Marca Jacobs - uma vida em banda desenhada (edição Arte de Autor) escrita por Rodolphe e desenhada por Louis Alloing, livro que detalha a fascinante vida de Edgar P. Jacobs, o lendário criador da série Blake e Mortimer.

A sua morte ocorreu de forma inesperada, num momento em que se preparava para lançar um novo álbum de BD e após ter lançado recentemente a sua autobiografia, Old School? Un demi-siècle de bande dessinée.

Abaixo podem ver algumas capas dos vários livros em que Rodolphe participou.

Com uma vida dedicada à BD, aqui ficam os nossos mais sinceros pêsames à família e aos  amigos.








A nossa leitura de "Os novos russos", segundo volume de Slava, de Pierre-Henry Gomont - edição ASA


Lemos recentemente o segundo volume da trilogia trágico-cómica "Slava", de Pierre-Henry Gomont, que tem como o título "Os novos russos" e edição da ASA.

Não sabemos se influenciados pela entrevista que fizemos no ano passado ao autor, que nos disse que os volumes seguintes eram melhores do que o primeiro, a verdade é que gostámos mais deste segundo volume do que o inaugural. Partimos com a vantagem de já conhecermos o universo da série e os seus protagonistas, e já sabemos de antemão que estes não vão ter uma vida fácil. 

Estamos nos anos 1990, em território russo. De um lado temos Lavrine, abandonado por Troubetskoï num lugar isolado, sem dinheiro, e depois de perder dois dedos de uma mão. Do outro lado temos Slava, que continua a tentar salvar a mina e mantém a clandestinidade da sua relação com Nina. Temos assim, os dois amigos, de costas voltadas e longe um do outro.

O que é interessante neste livro, a par do contexto histórico e político, é assistir à evolução das duas personagens principais. 

No início vemos Lavrine nas ruas da amargura, um farrapo que julgava ter perdido a sua capacidade de manipular os outros. Porém, ele consegue sobreviver graças à sua astúcia. Ele não perde uma oportunidade para conseguir algo em seu proveito. Ele mente, engana, improvisa e manipula, para atingir os seus objectivos.

Quanto a Slava, continua activo e empreendedor, empenhado em salvar a mina, mas na verdade o seu objectivo de vida não é esse, não domina o ambiente onde está inserido e acaba por tentar fazer vingar o seu talento em artes plásticas. A sua relação com Nina é que o agarra às questões relacionadas com a mina, para as quais não tem vocação, pois o que está em jogo foge às suas capacidades. 

Estamos perante uma transformação económica e as personagens não compreendem completamente a sua dimensão. Para salvar a mina, é preciso entrar no sistema que está a destruir o mundo ao qual ela pertence. E é no meio destes meandros de negociações que os dois amigos se voltam a encontrar.

A miséria, a corrupção, a violência e a perda de referências não são apresentadas através de discursos solenes. São incorporadas nas situações absurdas em que Slava e Lavrine se encontram.

Pierre-Henry Gomont consegue, através de uma forma original e mais leve, mostrar-nos um pouco do drama sobre o colapso da União Soviética. Utiliza o humor negro, o absurdo, situações quase burlescas. E isso com um grande ritmo, pois os diálogos são rápidos, não há muita margem para grandes contemplações. Tudo isto em ambientes que nos remetem para espaços russos: estradas e paisagens geladas, aldeias, instalações industriais, vestígios da arquitectura soviética.



quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Solomon Kane 1/4: The Lion Errant, de Zircher" e "Animal Pound - t.1 e 2", de Gross

 

Solomon Kane 1/4: The Lion Errant

Criado por Robert E. Howard em 1928, Solomon Kane é um dos grandes aventureiros da literatura pulp: um puritano inglês do final do século XVI, vestido de negro e movido por uma fé severa, que percorre o mundo perseguindo tiranos, criminosos e forças sobrenaturais. Menos exuberante do que Conan, mas talvez mais inquietante, Kane combina a rigidez moral de um justiceiro bíblico com a condição solitária de um cavaleiro errante. The Lion Errant retoma essa figura depois de The Serpent Ring e envia-a, sob a orientação de um misterioso leão de juba negra e de um antigo bastão atlante, da costa suaíli para a Índia.

A história situa Kane no contexto do confronto entre a rainha guerreira Rani Durgavati e o Império Mogol, cruzando personagens e tensões históricas com deuses, demónios, vampirismo e outras ameaças do imaginário fantástico. O primeiro número dedica bastante espaço à instalação desse cenário — das rivalidades políticas às ambições militares —, enquanto o segundo continua a ampliar o elenco e recupera episódios essenciais da mitologia do herói. O resultado é uma aventura de escala épica e atmosfera convincente. Aguardo o terceiro número, a sair por estes dias de setembro, para ver o protagonista a aproximar-se do centro da ação.

Patrick Zircher assume aqui um papel autoral quase total: escreve, desenha, arte-finaliza e colora a série. Essa concentração de funções dá ao livro uma identidade muito coesa e revela um criador que conhece bem tanto a voz austera de Kane como o gosto de Howard pela aventura histórica contaminada pelo horror. 

É no desenho que The Lion Errant mais prontamente se impõe. Zircher constrói cenários densos, figuras sólidas e uma Índia visualmente rica, recorrendo a uma linha muito trabalhada sem sacrificar a legibilidade das cenas. A composição transmite solenidade e peso histórico, e a cor reforça tanto o calor e a materialidade dos espaços como a dimensão assustadora do sobrenatural. 

A experiência anterior de Zircher ajuda a explicar uma enorme segurança visual. Antes de se tornar também argumentista de Solomon Kane, destacou-se sobretudo como desenhador em séries como Iron Man, Thunderbolts, New Warriors e Cable & Deadpool, tendo ainda trabalhado para a DC em títulos como Nightwing, Green Arrow, Suicide Squad, Action Comics e The Flash. Neste projeto, essa longa aprendizagem no domínio da ação e da narrativa sequencial é colocada ao serviço de uma aventura menos super-heroica, mais atmosférica e historicamente informada.

A Titan Comics, responsável pela publicação da minissérie em quatro números, prossegue assim a recuperação dos heróis de Robert E. Howard com uma edição cuidada e orientada para leitores de fantasia histórica e horror sobrenatural. Para os admiradores de Howard e de banda desenhada histórica de pendor fantástico, é uma leitura fortemente recomendável.




Animal Pound - t.1 e 2

Animal Pound, minissérie publicada pela BOOM! Studios, assume, sem disfarces, a condição de releitura contemporânea de Animal Farm, de George Orwell. Tom King (o mesmo de Batman, The Sheriff of Babylon, Supergirl: Woman of Tomorrow, etc.) desloca a alegoria da quinta para um canil municipal: animais enjaulados, sujeitos ao abandono e à eutanásia, revoltam-se e conquistam o espaço onde eram mantidos. A vitória, porém, é apenas o princípio. O verdadeiro assunto do livro é o que sucede depois da libertação, quando é preciso transformar um impulso comum de revolta em regras, instituições e mecanismos de representação e quando o medo começa a tornar aceitável aquilo que, pouco antes, parecia intolerável.

Nos dois primeiros capítulos, a narrativa estabelece, com eficácia, o fundamento emocional e político da série. A conversa entre Lucky, um cão condenado a morrer, e Fifi, a gata que o escuta através da parede, confere à insurreição uma origem íntima, feita de memória e promessa. Anos mais tarde, Fifi articula a aliança entre cães, gatos e coelhos, e a tomada do canil abre a fase mais interessante: distribuir alimentos, organizar a convivência e redigir uma constituição. O segundo capítulo torna já visíveis as fraturas entre espécies, interesses e conceções de justiça; sobretudo, mostra como a democracia pode ser deformada não apenas pela violência aberta, mas também por regras eleitorais aparentemente razoáveis e por uma retórica que converte desigualdade em vontade popular.

King trabalha num registo muito reconhecível: personagens traumatizadas, instituições frágeis e repetições verbais que funcionam simultaneamente como refrão e como mecanismo de pressão. O argumento tem a inteligência de não copiar Orwell passo a passo; prefere atualizar a parábola para a polarização, o sistema bipartidário, a manipulação da informação e a ascensão de uma liderança autoritária por via eleitoral. 

Peter Gross (de Lucifer, The Books of Magic e American Jesus, entre outros) é decisivo para que a obra não se limite a um ensaio político ilustrado. O seu desenho, de linha firme e expressiva, distingue os animais sem os humanizar em excesso, preservando-lhes o peso físico, a vulnerabilidade e, quando necessário, a ameaça. A composição das páginas é clara, mesmo nas cenas coletivas, e os silêncios grades, corredores, olhares e espaços vazios possuem quase tanta importância como o diálogo.

Não é uma leitura agradável nem reconfortante, mas é uma obra consistente, que retoma uma referência evidente com uma clareza de propósito digna de atenção.


Jorge Palma (1950-2026) - Homenagens desenhadas

Jorge Palma é um nome que nos diz muito. A todos nós. Isso explica as reações de tanta gente nas redes sociais e foram muitos os artistas, ligados às artes plásticas que também se manifestaram. 

Não resistimos em agrupar aqui 10 imagens que vimos e que divulgamos, também prestando homenagem a esse grande músico que faz parte da nossa história.

Pela ordem de autoria ou de páginas/perfis onde encontrámos: Vasco Gargalo, Vasco Parracho, @joaorodrigues.art, @anasiartwork, @laika.pt, @mad_dog_by_mike_moka, @insoniascarvao, @lojadascaricaturas.pt, @kingarthus80, @filhodapub













Novidade Penguin: obra inédita "A Viagem de Shuna" do grande cineasta Hayao Miyazaki editado a 5 de Outubro

 


É uma excelente notícia a edição a 5 de Outubro desta obra inédita do multipremiado cineasta Hayao Miyazaki, uma obra originalmente publicada em 1983 e que se afirma como uma joia imprescindível para todos os fãs e leitores. A obra tem acabamento em capa dura e tradução do japonês foi feita por André Pinto Teixeira.

Hayao Miyazaki é um dos criadores mais respeitados do mundo da animação. Co-fundador do icónico Studio Ghibli, o autor e realizador tem lugar cativo no imaginário de várias gerações de leitores e espectadores.

Um livro de leitura obrigatória!

A sinopse

Uma aventura intemporal sobre coragem, esperança e compaixão. A obra-prima que revelou o imaginário de Hayao Miyazaki antes da fundação do Studio Ghibli.

Shuna, jovem herdeiro de uma terra hostil e árida, passa os dias a observar com desespero como o seu povo trabalha até à exaustão, colhendo o pouco grão que cresce nos seus campos. Um dia, um misterioso ancião chega às suas terras após uma longa viagem e, à beira da morte, fala-lhe de umas sementes douradas com as quais poderia devolver a abundância às suas colheitas. No entanto, terá de pagar um alto preço se quiser encontrá-las, pois as sementes encontram-se no lugar onde a lua nasce e regressa para morrer, onde a terra anuncia o seu fim um lugar de onde nunca ninguém regressou. Shuna, cheio de esperança perante a ideia de pôr fim à fome do seu povo, parte numa perigosa viagem rumo a oeste.

O autor

Nascido em 1941, em Tóquio, Japão, Hayao Miyazaki é um realizador de cinema de animação que cofundou o Studio Ghibli, em 1985, juntamente com Isao Takahata.

Miyazaki foi distinguido com o Leão de Ouro pela sua carreira e em 2014, o Conselho de Governadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas atribuiu-lhe um Óscar Honorário pelo conjunto da sua obra.

Miyazaki participou igualmente na conceção e produção do Museu Ghibli, inaugurado em Mitaka em 2001, do qual é diretor executivo honorário.




terça-feira, 22 de setembro de 2026

Juvebêdê Breaking News - Blake e Mortimer no Estoril, pelas mãos de Nicolas Barral


No final de Outubro será publicado pela Dargaud um livro comemorativo dos 80 anos da dupla Blake e Mortimer, que contará com dez histórias de seis páginas, centradas nas personagens secundárias da série. Será uma obra colectiva, uma vez que nela participam muitas figuras do mundo da nona arte.

Entre os participantes encontra-se Nicolas Barral, que divulgou (através do Blake et Mortimer - Centaur Club forum) uma página da sua história, que nos leva nem mais nem menos, ao Estoril e ao momento em que Francis Blake e o major Benson se conhecem.