Brian Bones, détective privé – T. 6: Mustang
Várias vezes tenho pensado se Brian Bones não será para mim, no universo BD, uma espécie de “Guilty Pleasure”. Se calhar a série não merece o destaque, é “muito carros”, vrruuum, vruumm, um humor detectivesco muito cínico e razoavelmente negro. Mas o que é certo é que cada tomo que leio me agrada e diverte. Sou fâ de ambos os autores desde há muitos anos. Desde que Rodolphe escreveu Trent ou Les Écluses du Ciel; desde que Georges Van Linthout desenhou Twins ou Lou Smog.
O sexto volume de Brian Bones, editado pela Paquet reforça a identidade da série, como seria de esperar para quem conhece a linha editorial: um policial leve, descontraído e profundamente marcado pela cultura automóvel clássica. Desta vez, Brian Bones sonha com um Ford Mustang à venda por apenas 1500 dólares, um preço irresistível, mas totalmente fora do seu alcance. A oportunidade surge quando a antiga proprietária do carro é suspeita de rapto de uma criança, e Bones, acompanhado do inseparável Jo, se vê envolvido numa investigação que rapidamente ultrapassa o simples fascínio mecânico. O Mustang torna se assim o centro narrativo de uma história que mistura humor, nostalgia, estrada e um caso humano que exige sensibilidade.
Rodolphe constrói uma intriga simples, mas eficaz, fiel ao tom da série: diálogos leves, ritmo fluido, personagens simpáticas e uma narrativa que nunca pretende reinventar o policial, mas sim oferecer uma leitura agradável e acessível. A história é contada com mão de mestre, mesmo não sendo surpreendente.
O desenho de Georges Van Linthout é outro dos pilares do álbum. Van Linthout traz para Mustang o seu traço realista, claro e narrativo, que privilegia a legibilidade e a atmosfera. O Ford Mustang, como todos os clássicos em todos os tomos, é representada com rigor documental e carinho pelo detalhe: linhas, cromados, interiores tudo tratado com precisão que agradará aos amantes de carros clássicos. As personagens são expressivas, com humor subtil e gestualidade natural, e os ambientes retro oficinas, estradas, bares, garagens recriam uma América estilizada, nostálgica, mas credível. A cor de Stibane, luminosa e quente, reforça o tom bem-disposto e descontraído da série.
Ok, “guilty pleasure”! Ainda hoje creio que tenho um corgi-toys Mustang, branco, estofos castanhos, que levantava o capot e permitia ver o motor. Enfin…


Dortmunder – Bank Shot
Com desenho de Jesús Alonso Iglesias (o mesmo de “O Fantasma de Gaudi” – Levoir, 2018 e de “Judee Sill” de que aqui falei – Dupuis, 2023), e o texto de Doug Headline, Dortmunder é mais uma adaptação para BD de um thriller noir de Donald Westlake (tal como “Parker” – sim Westlake e Richard Stark são (desculpem, eram) a mesma pessoa).
O protagonista, John Dortmunder, ladrão profissional, mas particularmente azarado, recebe de Kelp um plano aparentemente infalível (eh eh eh!): roubar um banco que, por motivos logísticos, foi temporariamente instalada numa “casa móvel”. A ideia é simples (novamente eh eh eh!) neutralizar os seguranças, pôr a “banca sobre rodas” e desaparecer com o dinheiro. Estamos na década de 70, e estes planos ainda faziam algum sentido.
Naturalmente, nada corre como previsto. A narrativa transforma o golpe perfeito numa sucessão de contratempos, equívocos e improvisações, mantendo o leitor num equilíbrio delicioso entre o suspense e o riso, de tanta estupidez ou como antigamente eu ouvia muito, quando era jovem, e fora de Lisboa: “tendência asinina”.
A BD é propositadamente retro, e esta é a sua aposta, para além de uma história absurda, divertida e povoada de gente incompetente (mas empenhada!).
O desenhador simplifica o desenho, apresenta-o nervoso e ágil, com linhas limpas, enquadramentos clássicos e uma paleta de cores pop que reforça o ambiente retro. O desenho não procura ser puramente realista, tal como o texto privilegia a comédia das situações: privilegia a expressividade, o ritmo e a legibilidade, criando um universo visual que combina policial, comédia e nostalgia.
A arte serve sobretudo a narrativa fluida, clara, com boa gestão de espaços e uma mise en scène que valoriza tanto os momentos de tensão como os de humor, bem como as interações entre as personagens, que funcionam muito bem. É um álbum que se lê com claro prazer visual.
Dortmunder – Bank Shot é uma boa adaptação, divertida e visualmente coerente de um clássico de Donald Westlake. O humor, a ironia e o sabor dos anos 1970 estão bem presentes, sustentados por um desenho retro que reforça a identidade da obra. Esta BD editada pela Dupuis não pode ser apresentada como revolucionária ou particularmente inovadora, mas também não o pretende ser e cumpre plenamente o que promete entregar: um polar burlesco, leve, eficaz e com personagens irresistivelmente azaradas.
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