quinta-feira, 2 de julho de 2026

A nossa leitura de "O cheiro dele depois da chuva", de José Luis Munuera - edição Arte de Autor


Basta olharmos para a capa e lermos o título, para perceber que nos vamos comover com a leitura de "O cheiro dele depois da chuva". Bingo. Quem não se comover com esta história é porque tem um coração de pedra. Brincadeiras à parte, já sabíamos que íamos gostar muito deste livro e não nos enganámos.

A obra original "O cheiro dele depois da chuva" é muito intimista, poética e autobiográfica, da autoria de Cédric Sapin-Defour. Aqui é adaptada para banda desenhada por José Luis Munuera e mantem o mesmo registo. 

Que belo livro temos aqui, sobre a relação entre um homem e o seu cão, que nos convida à reflexão sobre o passar do tempo, o amor e o luto. O amor entre um homem e o seu cão surge como uma experiência transformadora, neste caso entre Cédric e Ubac. Nesta história verídica vemos que Ubac nunca foi tratado como um "animal de estimação" convencional. É tido como um companheiro de vida que vai alterar a forma como Cédric vive o seu dia a dia e a sua relação com o tempo. O amor aqui entre os dois é incondicional e de aceitação, principalmente de aceitação do luto, pois quem tem um animal sabe que à partida ele tem uma vida mais curta que o seu dono. Há a inevitabilidade da perda, mas vive-se com alegria cada dia.

Ao longo da história vamos assistindo à vida de Cédric antes de Ubac, a adopção, e a vida dos dois e a sua relação com a natureza. Pelo meio vamos conhecendo outras personagens e uma outra muito especial que vai aumentar este núcleo de amor.

É uma história muito bonita sem grandes sobressaltos e onde se repetem passeios, estações do ano, rotinas, a par do envelhecimento. Vamos lendo com a certeza de que os momentos banais vividos são muito importantes, porque não são infinitos. É essa certeza que faz com que paire sempre uma sombra melancólica.

Uma palavra para a natureza, em destaque neste livro. A montanha, a chuva, os bosques e as mudanças de estação, são uma presença muito forte e acompanham o estado emocional das personagens.

Por último e não menos importante, os desenhos de Munuera de que gostamos tanto. O autor/ilustrador tem um traço muito fluído e elegante, há muita expressividade nas suas personagens e utiliza as cores de forma a que estas se relacionem com a narrativa.  Os tons quentes acompanham os momentos de felicidade e intimidade. Os cinzentos, azuis e verdes mais frios tornam-se predominantes à medida que a narrativa se aproxima da perda, reforçando a dimensão melancólica da história.

Resumindo, temos aqui uma belíssima banda desenhada sobre a finitude da vida e sobre a cumplicidade entre um animal e um homem.



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