Seccotine - T. 1: Mystère à Champignac
Com Mystère à Champignac, a editora Dupuis, através de Sophie Guerrive e Elric inaugura a primeira série derivada de Spirou centrada exclusivamente em Seccotine, figura histórica do universo Spirou et Fantasio, criada por Franquin em 1953.
Claro que a premissa enunciada pela editora é de dar autonomia narrativa a uma personagem secundária, mas emblemática pela sua rivalidade com Fantasio. Na prática, a aposta numa personagem feminina, num universo de machos: Spirou, Fantasio, Spip, Marsupilami e o Conde de Champignac, constitui uma forma de tentar atrair um leque adicional de leitores, e leitores mais jovens, num universo rentável, que continua a gerar receita, seja através dos livros, seja através de filmes.
Acredito que fosse deliberada a intenção de fugir à grande aventura e apostar num contexto mais reflexivo, social. E essa parece ser a razão de este primeiro tomo ser passado em Champignac, numa abordagem tipo detetive rural, explorando o quotidiano da vila, e um ritmo notoriamente pausado e mais doméstico. Afinal o desaparecimento de animais é um agregador de atenções, particularmente num meio pequeno.
Os temas da sustentabilidade, da caça, de algumas relações sociais são determinantes nesta narrativa, como seria de esperar com uma investigação levada a cabo por uma pessoa curiosa e de fortes convicções como Seccotine. No entanto, neste primeiro tomo, e isolada do seu habitual confronto com o famoso duo, a personagem da jornalista surge mais contida, menos irreverente, mais detetive que jornalista.
O desenho de Elric é muito no estilo tradicional da série Spirou, bonito, dinâmico, muito legível, boa apresentação de um cenário rural consistente, mas sem grandes rasgos.
O argumento é fluido, percetível, sem grandes falhas, mas muito clássico. A fidelidade ao universo de Spirou é cuidadosamente respeitada, tudo é seguro, sem mexer nos símbolos. Mantém um certo charme, mas não inova.
Em resumo, lê-se com agrado, mas não será das BD mais memoráveis que já terei lido. Como se costuma dizer (ok, ok, como eu costumo dizer) “não é bom nem mau, antes pelo contrário!”. Mas atenção, a criação de uma nova personagem num universo bem conhecido não é algo que se consiga facilmente, e sem dar previamente o tom como neste tomo. Vamos dar o benefício da dúvida.



