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quarta-feira, 1 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Seccotine – T. 1: Mystère à Champignac", de Guerrive e Elric e "Cauchon… ou l’homme qui tua Jeanne d’Arc", de Dorison e Parnotte

 

Seccotine - T. 1: Mystère à Champignac

Com Mystère à Champignac, a editora Dupuis, através de Sophie Guerrive e Elric inaugura a primeira série derivada de Spirou centrada exclusivamente em Seccotine, figura histórica do universo Spirou et Fantasio, criada por Franquin em 1953.

Claro que a premissa enunciada pela editora é de dar autonomia narrativa a uma personagem secundária, mas emblemática pela sua rivalidade com Fantasio. Na prática, a aposta numa personagem feminina, num universo de machos: Spirou, Fantasio, Spip, Marsupilami e o Conde de Champignac, constitui uma forma de tentar atrair um leque adicional de leitores, e leitores mais jovens, num universo rentável, que continua a gerar receita, seja através dos livros, seja através de filmes.

Acredito que fosse deliberada a intenção de fugir à grande aventura e apostar num contexto mais reflexivo, social. E essa parece ser a razão de este primeiro tomo ser passado em Champignac, numa abordagem tipo detetive rural, explorando o quotidiano da vila, e um ritmo notoriamente pausado e mais doméstico. Afinal o desaparecimento de animais é um agregador de atenções, particularmente num meio pequeno.

Os temas da sustentabilidade, da caça, de algumas relações sociais são determinantes nesta narrativa, como seria de esperar com uma investigação levada a cabo por uma pessoa curiosa e de fortes convicções como Seccotine. No entanto, neste primeiro tomo, e isolada do seu habitual confronto com o famoso duo, a personagem da jornalista surge mais contida, menos irreverente, mais detetive que jornalista.

O desenho de Elric é muito no estilo tradicional da série Spirou, bonito, dinâmico, muito legível, boa apresentação de um cenário rural consistente, mas sem grandes rasgos.

O argumento é fluido, percetível, sem grandes falhas, mas muito clássico. A fidelidade ao universo de Spirou é cuidadosamente respeitada, tudo é seguro, sem mexer nos símbolos. Mantém um certo charme, mas não inova.

Em resumo, lê-se com agrado, mas não será das BD mais memoráveis que já terei lido. Como se costuma dizer (ok, ok, como eu costumo dizer) “não é bom nem mau, antes pelo contrário!”. Mas atenção, a criação de uma nova personagem num universo bem conhecido não é algo que se consiga facilmente, e sem dar previamente o tom como neste tomo. Vamos dar o benefício da dúvida.




Cauchon… ou l’homme qui tua Jeanne d’Arc

Cauchon foi, efetivamente o homem de Igreja que dirigiu o processo que conduziu à condenação de “Joana D’Arc” e à sua morte pelo fogo aos 19 anos. Há vários elementos da história que são reais, mas a BD é uma interpretação romanceada que, no fundo, vem questionar algumas inconsistências registadas no comportamento de Cauchon. É um “e se…” numa leitura crítica de uma figura esquecida, em que o tema central é a ligação entre responsabilidade e poder e também misericórdia.

A BD desloca deliberadamente o centro narrativo de uma das figuras mais icónicas da história europeia, Joana d’Arc, para aquele que tradicionalmente permanece na sombra: o bispo Pierre Cauchon, como agente de um sistema e de uma luta pelo poder. O argumento é essencialmente centrado no relato do processo judicial, sem nunca entediar o leitor, mas pelo contrário, envolvê-lo, como se o desfecho não fosse conhecido e imutável.

Cauchon, na personagem desta BD, é uma personagem culta, inteligente, muito complexa, moralmente incómoda, mas certamente interessante e corajosa. 

A tensão entre legalidade e legitimidade percorre toda a narrativa, com o cuidado de tentar que o leitor esteja sempre bem imbuído do contexto temporal.

O desenho de Joel Parnotte é clássico, envolvente, transbordante de emoções, de cor, de escuridão, de personagens extraordinárias, e colocado totalmente ao serviço de uma transmissão adequada do conteúdo, e da credibilização da história. Belíssimo, muito trabalhado nas arquiteturas, vestuários, adornos, ambiente. 

O argumento de Xavier Dorison de que em Portugal temos vários álbuns editados, desde “Ulysse e Cyrano” a “1629…ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta”, passando pelo “Castelo dos Animais” ou “Undertaker” é conduzido com mão de mestre e uma agradável gestão de diferentes momentos (dividido, aliás, em capítulos).

Não é uma obra de pura emoção, pelo contrário é uma BD de reflexão, que obriga o leitor a confrontar a história sob um ângulo desconfortável. Aposta ganha, numa edição de grande qualidade da Dargaud.

Uma palavra final para a capa: Não tem imagem de base, apenas imagens religiosas “debruadas” a dourado, como se de um livro da idade média se tratasse, talvez um livro religioso.