segunda-feira, 2 de março de 2026

332 - A opinião de Miguel Cruz sobre "Bordeaux / Shanghai, de Eacersall e Causse

 

Bordeaux / Shanghai

Esta BD do conhecido duo Amélie Causse, Mark Eacersall (este último tem Tananarive como única edição sua em língua portuguesa) é apresentada como uma história sobre o vinho de Bordéus, o que fez com que não ficasse nas minhas listas de leitura. No entanto, a BD teve bastante destaque e algumas pessoas disseram-me que era divertido, pelo que acabei por “lhe pegar”. E fiz bem. Resumindo desde já: é agradável, positiva, tem componentes de comédia romântica, é bem disposto, e tem um desenho legível (aproximando-se um pouco do estilo Mangá), elegante e com páginas luminosas.

O vinho de Bordéus dá o contexto, mas a aventura é centrada em duas personagens principais e um conjunto de personagens secundárias, todas elas importantes. A grande “vitória” desta BD é a de nos conseguir fazer identificar com algumas personagens e perceber bem outras e, mesmo, ir mudando de opinião sobre a personagem principal: Wei.

A BD começa com os (não o sabemos ainda) pais de Wei a provarem vinho francês de Bordéus, na sua terra natal na China. A mãe de Wei é particularmente apreciadora, e faz um comentário sobre a possibilidade de chineses serem donos de vinhas em Bordéus, o que gera um riso de gozo por parte do empregado do restaurante. Passados 25 anos, encontramos Wei, filho de milionário, imaturo, mimado, inútil, com dívidas de jogo, e o seu pai, milionário e rígido, dono de um domínio vinhateiro em Bordéus. Ambos marcados pela morte da mãe de Wei, sobre a qual sabemos poucos detalhes. 

Depois de algumas peripécias, Wei acaba por ir para Bordéus tomar conta do domínio, sendo que começa por fazer várias asneiras, inscrever-se no surf, ter um acidente de carro, ou seja tudo menos encarar seriamente a tarefa que lhe foi atribuída pelo pai. As situações são divertidas desde logo porque Wei só fala mandarim ou inglês, boa parte dos trabalhadores e responsáveis do domínio só falam francês, exceção feita para a jovem filha de um casal, e para a enóloga Lola.

Ao longo das páginas, Wei vai conhecendo os locais, a sua atitude vai mudando, e a pressão do seu pai vai aumentando. As discussões, divergências de opinião e mal-entendidos com Lola vão num crescendo, estimuladas até por um vizinho que quer contratar Lola.

Divertido, realista, com uma interessante caracterização contextual, das regras de avaliação dos vinhos, dos conflitos de interesse na atribuição de prémios, mas particularmente com um excelente tratamento das personagens e um adequado tratamento gráfico, Bordéus/Shangai explora ainda um pouco o tema do choque de culturas.

Nunca totalmente previsível, a evolução da narrativa é gradual, em crescendo, até ao seu clímax delicioso. Uma BD (de mais de 200 páginas) muito interessante e mesmo muito “simpática” que, naturalmente, recomendo. Editado pela Bamboo, na sua reputada coleção Grand Angle.



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