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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "The Time Before", de Bonin e "Le Clan des Otori" (BD, Gallimard – Fétiche, 2021–2026)

 



The Time Before

Embora com título inglês, esta é uma BD em francês como língua original, de Cyril Bonin já dele falei a propósito de outras obras e editado pela coleção Grand Angle, parte integrante da Editora Bamboo. Já tem uns anos, mas tinha-me “passado” e encontrei-a por acaso numa livraria.

Bonin é um autor curioso, completo o que ajuda a uma grande coerência entre a narrativa e a parte gráfica e inventivo no tratamento de histórias marcadas pela busca do humano, invariavelmente introspetivas.

A narrativa decorre em Nova Iorque no final dos anos 1950 e acompanha Walter Benedict, um jovem fotógrafo ambicioso, que socorre e salva um velho vendedor vítima de agressão, oferecendo-lhe este um talismã que permite voltar ao passado e alterar os acontecimentos.

Inicialmente muito cético, Walter vai testando o talismã e acaba a usar repetidamente esse “poder” para ascender socialmente e melhorar a carreira, para conquistar a mulher que ama e para evitar alguns erros pessoais.

Mas a perfeição não existe, e as circunstâncias alteram as reações dos outros. Para além do que as alterações em acontecimentos, mesmo que muito irrelevantes, têm consequências de longo prazo. Os dilemas morais demoram anos a surgir, mas são inevitáveis.

Pois é: como discutir planeamento de futuro e destino pessoal sem discutir livre-arbítrio? Como se pode escolher sem se aprender a renunciar. Muito inteligente, fantasista, mas não fantasioso, esta é uma BD que obriga à reflexão ao mesmo tempo que é muito agradável de ler, apesar de ser uma leitura pontuada de algumas angústias. 

O desenho é realista, de linhas finas, elegante, luminoso, e mostra um excelente trabalho de época. Possui bons enquadramentos que ajudam ao questionamento permanente. 

A ideia é apelativa, bem tratada e com vários momentos surpreendentes, desde logo o final. Uma leitura recomendável.





Le Clan des Otori (BD, Gallimard - Fétiche, 2021–2026)

Há pouco tempo tivemos a presença em Beja de Benjamin Bachelier, desenhador responsável pela adaptação à BD de “A Saga dos Otori” da autora Lian Hearn (editada em português pela Presença, já os 6 volumes da BD ainda não tiveram essa sorte).

Os textos dos dois ciclos desta série de BD ficaram à responsabilidade de Stéphane Melchior. A série insere-se num Japão feudal fictício, inspirado no período Sengoku, marcado por guerras de clãs, códigos de honra samurai, com uma marcada dimensão política e estratégica e também com a presença discreta de elementos quase sobrenaturais. 

As personagens centrais são o jovem Takeo, adotado pelo clã Otori, mas que pertence a um grupo secreto de guerreiros com interessantes poderes, e ao mesmo tempo a uma seita de crentes num só deus, e Kaede, figura feminina forte, resistente, com forte sentido político e diplomático, e a quem o acaso acaba por dar um significativo poder e relevância política.

Este par, que em boa medida só sonha em estar junto, afasta-se por razões de sobrevivência e honra. 
Muito interessante, com muitas cenas de ação, uma descrição detalhada da vida no Japão feudal, dos diferentes estratos sociais, e com uma predominância de intrigas políticas e de tragédias pessoais. A luta pelo poder por um lado, o sacrifício pessoal e a renúncia por outro.

Bachelier tem um traço facilmente reconhecível, um desenho expressivo, quase realista, que foi beber à estética japonesa (tanto quanto eu conheço), intercalando grandes quadros contemplativos ou de campo de batalha com páginas mais minimalista, sendo o estilo de desenho muito adaptado ao conteúdo emocional da narrativa, com uma atmosfera poética interessante, tanto mais que as condições de vida eram, muitas vezes miseráveis. 

Pela minha parte gostei bastante de toda a série, embora reconheça que o estilo de desenho poderá não ser do agrado de todos. As personagens são muitas e diversas, às vezes com nomes próximos. A fragilidade da condição de cada uma das personagens é, por vezes angustiante. Apesar de tudo isso e se calhar POR tudo isso a leitura desta ambiciosa saga editada pela Gallimard é merecedora de atenção e, tanto quanto sei, tem feito sucesso em França.


segunda-feira, 2 de março de 2026

332 - A opinião de Miguel Cruz sobre "Bordeaux / Shanghai, de Eacersall e Causse

 

Bordeaux / Shanghai

Esta BD do conhecido duo Amélie Causse, Mark Eacersall (este último tem Tananarive como única edição sua em língua portuguesa) é apresentada como uma história sobre o vinho de Bordéus, o que fez com que não ficasse nas minhas listas de leitura. No entanto, a BD teve bastante destaque e algumas pessoas disseram-me que era divertido, pelo que acabei por “lhe pegar”. E fiz bem. Resumindo desde já: é agradável, positiva, tem componentes de comédia romântica, é bem disposto, e tem um desenho legível (aproximando-se um pouco do estilo Mangá), elegante e com páginas luminosas.

O vinho de Bordéus dá o contexto, mas a aventura é centrada em duas personagens principais e um conjunto de personagens secundárias, todas elas importantes. A grande “vitória” desta BD é a de nos conseguir fazer identificar com algumas personagens e perceber bem outras e, mesmo, ir mudando de opinião sobre a personagem principal: Wei.

A BD começa com os (não o sabemos ainda) pais de Wei a provarem vinho francês de Bordéus, na sua terra natal na China. A mãe de Wei é particularmente apreciadora, e faz um comentário sobre a possibilidade de chineses serem donos de vinhas em Bordéus, o que gera um riso de gozo por parte do empregado do restaurante. Passados 25 anos, encontramos Wei, filho de milionário, imaturo, mimado, inútil, com dívidas de jogo, e o seu pai, milionário e rígido, dono de um domínio vinhateiro em Bordéus. Ambos marcados pela morte da mãe de Wei, sobre a qual sabemos poucos detalhes. 

Depois de algumas peripécias, Wei acaba por ir para Bordéus tomar conta do domínio, sendo que começa por fazer várias asneiras, inscrever-se no surf, ter um acidente de carro, ou seja tudo menos encarar seriamente a tarefa que lhe foi atribuída pelo pai. As situações são divertidas desde logo porque Wei só fala mandarim ou inglês, boa parte dos trabalhadores e responsáveis do domínio só falam francês, exceção feita para a jovem filha de um casal, e para a enóloga Lola.

Ao longo das páginas, Wei vai conhecendo os locais, a sua atitude vai mudando, e a pressão do seu pai vai aumentando. As discussões, divergências de opinião e mal-entendidos com Lola vão num crescendo, estimuladas até por um vizinho que quer contratar Lola.

Divertido, realista, com uma interessante caracterização contextual, das regras de avaliação dos vinhos, dos conflitos de interesse na atribuição de prémios, mas particularmente com um excelente tratamento das personagens e um adequado tratamento gráfico, Bordéus/Shangai explora ainda um pouco o tema do choque de culturas.

Nunca totalmente previsível, a evolução da narrativa é gradual, em crescendo, até ao seu clímax delicioso. Uma BD (de mais de 200 páginas) muito interessante e mesmo muito “simpática” que, naturalmente, recomendo. Editado pela Bamboo, na sua reputada coleção Grand Angle.



quarta-feira, 16 de julho de 2025

A opinião de Miguel Cruz sobre "La Terre Verte", de Ayroles, Tanquerelle e Merlet e "Calle Málaga", de Brodel e Eacersall

 

La Terre Verte

Não conheço ninguém que não tenha gostado de “O Burlão das índias” editado em Portugal em 2021 pela Ala dos Livros. À semelhança da BD de que aqui vos vou “falar”, também “O Burlão das Índias” tinha argumento de Alain Ayroles. Recentemente a Ala dos Livros publicou o primeiro tomo de “A Sombra das Luzes”, também de Ayroles.

Entre estas três BD, um vago elemento comum: os elementos históricos e a caracterização de época. Em todos eles, Ayroles forçou os seus desenhadores a detalhado trabalho de pesquisa. 

Desta vez o desenhador é Hervé Tanquerelle, cujas “entregas anteriores foram “Le Ministre et la Joconde” (One Shot excelente) e “Le Dernier Atlas” (três volumes, excecional e tresloucado). O estilo de desenho de Hervé Tanquerelle adequa-se na perfeição ao desafio que tinha pela frente e torna um exercício de 250 páginas num conjunto muito atrativo. As expressões, os ambientes, a sequência narrativa, tudo é dominado com mão de mestre. Uma palavra para a coloração a cargo de Isabelle Merlet, que contribuem fortemente para a profundidade das imagens.

Os diálogos são cortantes e frequentemente divertidos. Mas a história não o é. Melancolia e loucura, megalomania e rancor. Estes são os elementos centrais de uma clara crítica a alguns comportamentos humanos, e particularmente (e não exclusivamente) à sede de poder.

Imagine-se se um Ricardo III, versão Shakespeare (a BD é dividida não em capítulos, mas em “Actos”, o que torna ainda mais óbvia a ligação), sobrevivente à Batalha de Bosworth, que depois de vestir as suas roupas a um pobre desgraçado caído em batalha, foge e acaba a acompanhar o bispo Mathias que vai tomar conta das almas no território da Groenlândia. Feio, a coxear e com uma corcunda, Ricardo vai tudo fazer para se tornar Ricardo I da Groenlândia.

O território é inóspito e perigoso, propício ao surgimento de um “chefe”, a população é reduzida e crédula (salvo raras exceções), o frio é muito, um único navio assegura o comércio com o exterior, o que aumenta a miséria de alguns e a ignorância de muitos, e as más relações com os experientes caçadores Inuítes fornecem a desculpa do inimigo externo.

Gostei bastante desta BD, mas há que reconhecer que ela é, essencialmente, sombria. A escolha da Groenlândia do século XV é uma escolha arriscada, que se percebe pela necessidade de estabelecer uma base de conquista de Ricardo, mas que não é fácil de abordar por ser limitada na sua densidade e, logo, na complexidade de relações humanas. As relações e ações-reações são por vezes teatrais. Mas esse era, diria eu, precisamente o objetivo. 

Uma aposta ganha da Editora Delcourt, com uma capa conseguidamente inquietante.




Calle Málaga

Perto de Málaga, numa deprimente zona turística balnear fora de época, um homem (sabemos mais tarde o seu nome Saïd) vagueia, pouco se cruzando com os locais, claramente com algo a esconder, e evidentemente perturbado. O que faz, porque está ali, como se sustenta, uma vez que claramente não trabalha, são as perguntas óbvias ao final de muito poucas páginas.

Esconde-se, foge das autoridades, mas também dos seus “associados”, não sabemos os detalhes. Permanentemente nervoso, toma precauções. O ambiente é depressivo, e no aparthotel onde habita, está só! Até um dia em que um outro personagem, de ar inofensivo aluga um quarto próximo. Com muita dificuldade e cautela, sempre de pé atrás, os dois homens acabam por estabelecer uma certa relação, e acabam por ir acampar na montanha, uma vez que o recém-chegado é um jovial professor de biologia, e apaixonado pela natureza, flora principalmente.

E eis que um dia, Saïd percebe que alguém esteve no seu apartamento. Esconde-se no apartamento do jovial professor e consegue observar umas inquietantes personagens a entrar no seu “território”, pelo que decide fugir.

E pronto, é isto que se passa neste thriller em que o relevante são os ambientes, o que permite ao desenhador Blondel apresentar-nos desenhos de página completa, por vezes duas páginas, razoavelmente opressivas, mas com um desenho de qualidade. Mais do que isso, o desenho consegue o que é necessário, numa BD em que os diálogos são limitados, e o que importa é sermos capazes de compreender o que vai naquelas cabeças!

Uma história simples, na coleção Grand Angle da editora Bamboo, em que após a sua conclusão tudo parece óbvio, mas em que o suspense é palpável. As cores reforçam a inquietação, a capa diz-nos ao que vamos, com uma personagem de rosto fechado e cara de poucos amigos, uma pequena sugestão de que está armado, atento a tudo o que o rodeia e a si mesmo, isolado, à espera do inevitável.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

A opinião de Miguel Cruz sobre "Inspecteur Balto: Manufrance, Bichons et Camgirls", de Ducoudray e Geffroy e "Where the Body Was", de Brubaker e Philips

 


Inspecteur Balto: Manufrance, Bichons et Camgirls

Esta BD fez já um ano desde que foi editada e foi já lida há uns meses, mas outras publicações levaram a que ficasse sempre preterida nos comentários aqui. Injustamente.

Balto, ao contrário do título, já não é inspetor, uma vez que se reformou, e reconverteu-se em detetive privado. Naturalmente, é um polícia com métodos tradicionais (e frequentemente pouco ortodoxos), sendo que o facto de não estar habituado à internet e não gostar de telefones portáteis (quanto mais de smartphones!) não o perturba muito na generalidade de inquéritos com que tem de lidar. Mas o inquérito que lhe vai surgir desde as primeiras páginas desta BD envolve o desaparecimento de uma camgirl, ou seja, a desaparecida realizava performances de cariz sexual online.

Felizmente o nosso detetive-ex-inspetor é bastante desenrascado, para além de manter alguns contactos que o ajudam. Assim, apesar de alguma dificuldade em avaliar como abordar o inquérito que lhe é apresentado (no bar que lhe serve de escritório) por duas amigas da desaparecida, rapidamente consegue estabelecer uma linha de ação. O inquérito não é fácil, efetivamente, uma vez que isto de procurar pessoas a partir de nomes artísticos tem que se lhe diga!

O caráter antiquado de Balto, a revelação gradual da sua história pessoal, a forma como se relaciona com outras personagens, a sua desadequação nalguns contextos, a convicção com que ultrapassa obstáculos, tudo isto traz novidade a um tratamento clássico de uma história de detetives mais ou menos clássica, mas muito bem imaginada e realizada.

A leitura é agradável, envolvente, as personagens credíveis e de caráter forte, o desenho semi-realista de Damien Geoffroy é cuidado, e tem o condão de dar profundidade a toda a história, bem como de nos transportar para dentro da página.

Sejamos claros: eu não gosto do personagem, tal como caracterizado por Aurélien Ducoudray, e cada revelação sobre a sua vida passada aumenta o meu afastamento. Mas Balto tem carisma, e leva o inquérito “a direito”.

Editado pela Bamboo, não é a novidade do ano… mas vale a pena a leitura.




Where the Body Was

Ed Brubaker e Sean Phillips têm sido uma dupla ganhadora no universo comics, sendo que a edição em português de Criminal ilustra tal facto à perfeição. Ed Brubaker é um mestre na elaboração de imaginativas histórias policiais e Sean Phillips é o seu parceiro ideal “no crime”, com um belíssimo, duro e expressivo desenho.

Where the body Was caiu nas livrarias no início do ano, mas eu só dei pelo corpo do delito muito recentemente, e só mais recentemente ainda chegou ao topo da minha lista de leituras, que isto o tempo não chega para tudo, como se costuma dizer.

Neste comics, a quantidade de personagens de relevo para a investigação do crime é grande – são (mais ou menos) nove - o que permite aos autores (e aos leitores e leitoras) deleitar-se com as páginas dedicadas à análise e exploração dos aspetos relevantes dos antecedentes de várias delas.

Aliás, logo no início são apresentados os retratos dos protagonistas: Desde Tommy Brandt, delinquente juvenil a Jack Foster, detetive privado, passando por Mrs Wilson, a bisbilhoteira local, Lila Nguyen, a miúda dos patins ou o Dr. Ted Melville, psiquiatra dedicado. Para não falar no polícia que só quer que não o “chateiem”. Atenção, são meros exemplos, nada de spoilers. Nas páginas iniciais é ainda apresentado um mapa com a localização de locais de interesse (incluindo o seven/eleven e a pensão, atualmente habitada por drogados) e casa de cada personagem, bem como o local onde foi encontrado o corpo que dá título à obra.

Tudo tem início em finais de junho de 1984, algures na California, tudo se desenrola nos subúrbios de uma desconhecida cidade, e as personagens fazem a sua vida normal – que Brubaker se encarrega de enredar, num interessante exercício de integração de vidas.

O centro da narrativa não é o crime que se verifica na Pelican Road, mas sim o percurso de investigação e a perspetiva de cada personagem sobre os acontecimentos. Porque muitas páginas são, efetivamente, o ponto de vista de diferentes personagens, que vêm a sua vida cruzar-se com a dos outros, numa crítica social e análise de estilos de vida que assume particular relevância. É que a leitura de cada um não é independente da sua experiência de vida e de acontecimentos pessoais, nem é imutável.

Enfim, e pelo meio temos, de facto, o trabalho de descoberta de quem cometeu o crime. 

Interessante, envolvente, curioso, inteligente. Um comic diferente dos anteriores Criminal, Sleeper, Pulp, Reckless, Kill or be Killed…



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

A opinião de Miguel Cruz de "Hiver à L’Opéra", de Chabert e Pelaez e "Du Bout des Doigts", de Bonin



Hiver à L’Opéra

Recordo-me de, já há algum tempo, aqui ter falado (muito bem!) de uma outra BD “Automne en Baie de Somme”, uma história policial em ambiente Belle Époque, e da autoria de Philippe Pelaez (argumento) e Alexis Chabert (desenho). 

Ora Hiver à L’Opéra é também uma história policial que decorre em plena Belle Époque, os autores são os mesmos, tal como a editora Bamboo (Coleção Grand Angle), e, para além disso, constitui um segundo inquérito do Inspetor Alexis Chabert, que ficámos a conhecer na BD anteriormente mencionada.

Em termos de comentário, não há como fugir ao evidente: o que nos chama a atenção em primeiro lugar é o desenho, o excelente, colorido e luminoso desenho de Alexis Chabert. Aliás, a começar pela capa, todo o desenho, perspetivas, sequência narrativa, ambientes de uma história passada numa estética tão reconhecível, roupas, comportamentos, são magníficos. Ficamos com uma boa ideia do Paris de finais do Século XIX (neste caso estamos em dezembro de 1896).

Quanto ao argumento, o primeiro aspeto a assinalar é que, apesar de encontrarmos o mesmo inspetor, o seu comportamento é algo distinto do da aventura anterior, talvez mais distendido, depois de todos os problemas que teve com as suas chefias. O segundo é de que algum contexto político que envolve a história é informativo, mas não aporta muito valor acrescentado à narrativa. O terceiro e último é que a narrativa tem elementos interessantes de imprevisibilidade, apesar de “o culpado” ser conhecido, tem lógica e um tom adequado quer à época, quer – o que é o mais relevante – à sequência e prazer da leitura.

Quanto à história:  o público enche a sala de Ópera Garnier para apreciar o espetáculo. No entanto, o “espetáculo” acaba por ser outro, que o público não vai apreciar: amarrado por umas cordas nos pulsos e nos pés e quase nu, o corpo do responsável pela segurança Presidencial vai sobrevoar a sala, largando nesta copiosas quantidades de sangue. Este é o ponto de partida para mais uma investigação dificultada pelos interesses envolvidos.

Lê-se com muito agrado, recomenda-se com convicção.




Du Bout des Doigts

Há alguns autores que, através do seu desenho, nos conseguem quase automaticamente pôr bem-dispostos, pela luminosidade das páginas, pelas cores agradáveis e aparentemente sempre judiciosamente utilizadas, pela expressividade dos rostos, pela capacidade de transmitir emoções, pela positividade que colocam no seu trabalho. Cyril Bonin é um desses desenhadores.

Autor completo (argumento, desenho, cores) nas suas BD mais recentes, Cyril Bonin tem uns trabalhos melhores do que outros, mas já aqui falei dele algumas vezes, nomeadamente pela BD “Les Dames de Kimoto” de que gostei bastante, adaptada do romance de Sawako Ariyoshi. 

Du Bout des Doigts (literalmente, na ponta dos dedos) é uma obra diferente dos seus trabalhos anteriores, embora também aqui as mulheres constituem a força motriz da narrativa. Acompanhamos um período da vida de Paul Déa, pintor figurativo por gosto e vocação, mas que ainda não “se encontrou” nem “realizou” no seu trabalho e que é negativamente influenciado por um grupo de amigos que se juntam com frequência para discutir a arte conceptual, a escola de Paris e bla bla bla…

Com uma rotina estabelecida, Paul tem a sensação de estar a passar ao lado da vida e de ser incapaz de se tornar um artista verdadeiro, quanto mais reconhecido. Apesar da sua relação (que também não evolui) com uma mulher casada, Georgina, Paul acaba por se envolver com uma jovem cabeleireira que, por acaso, e no local onde habitualmente corta o cabelo, o atende. Literalmente, Paul confia “a sua cabeça” a Mathilde.

Mathilde tem o condão de o tornar feliz, de lhe gerar um entusiasmo por vezes infantil, de lhe permitir lidar com a sua habitual permanente insatisfação. E é a história da relação entre Paul e Mathilde, os problemas desta com a sua mãe e as descobertas que, através desta última, Paul faz sobre Mathilde, que nos fala esta BD. Fala-nos, claro, também um pouco sobre o meio artístico parisiense na década de 60.
Um desenho bonito e expressivo, tons doces e agradáveis, uma excelente técnica narrativa ao serviço de uma obra sobre a felicidade, a descoberta sentimental e o amor. Um corte de cabelo diferente e transformador, uma lufada de ar fresco!

Lê-se com facilidade e boa disposição. Muito agradável mesmo, e isso é muito positivo e como costuma citar um grande amigo meu, “para melhor está bem, está bem, para pior já basta assim”… Editado pela Bamboo, na sua coleção Grand Angle.



sábado, 9 de setembro de 2023

A opinião de Miguel Cruz sobre: "Le Passager du Polarys", de Cailleaux e Bocquet e "L’Héritage Wagner", de Zuiden e Desberg

 


Le Passager du Polarys

Le Passager du Polarys é uma excelente BD adaptada de um romance de mistério, talvez dos menos conhecidos, de Georges Simenon – o bem conhecido autor belga das “aventuras” do Comissário Maigret. 

José-Louis Bocquet, também argumentista do recente Blake e Mortimer “Oito Horas em Berlim”, assume as rédeas da adaptação desta estranha aventura e denso mistério, imaginada por Simenon. Tudo começa com a partida de um cargueiro, o Polarys, para uma viagem de cabotagem ao longo da Costa Norueguesa. O frio é grande, as escalas poucas e reduzidas no tempo, o que transforma um aparentemente banal, embora estranho, caso de “clandestino a bordo” num mistério denso e complexo envolvendo um número limitado de personagens/passageiros e a descoberta de algumas relações entre eles, narrado essencialmente pelo capitão do navio. Somos enganados, ou conduzidos no caminho errado, com frequência, induzidos em juízos de valor frequentemente simplistas, e sempre mantidos com a atenção focada no aprofundamento e “desconstrução” das personagens.

Christian Cailleaux, que este ano já vira publicado um outro álbum, “La Fleche Ardente” – continuação de “Le Rayon U”, apresenta-nos aqui um desenho excecional, com cores mortiças, muito adaptadas à viagem do Polarys, e da autoria do próprio desenhador.

Quem é o passageiro clandestino? Por onde se movimenta e o que pretende? O que se esconde por detrás do comportamento do estranho segundo-comandante? Quem roubou o dinheiro das cabines? O que justifica os comportamentos bizarros (mesmo neste contexto de elegância muito própria dos anos 30) de alguns passageiros (e passageira)? Qual a relação desta história marítima com a morte recente e por overdose de uma tal de Marie Baron? Quem é o passageiro que dá nome a esta BD?

Para descobrirem as respostas a estas e outras questões, as leitoras e os leitores terão de se dedicar a esta interessante história, com uma narrativa fluída e muita elegância na representação gráfica, bem como com diálogos interessantes e por vezes agradavelmente desconcertantes. Pode não ser uma obra revolucionária, mas uma coisa é certa: esta é, até ao momento, e na minha opinião, uma das BD do ano. Editado pela Dargaud.



L’Héritage Wagner

Correndo o risco de prejudicar a leitura do meu restante comentário, importa reconhecer que esta não foi das minhas apostas mais bem conseguidas, tendo ficado aquém da promessa e potencial da história anunciada, do título apresentado e da excelente capa preparada para nos atrair. E, no entanto, os pontos positivos são vários. Para além da já mencionada capa, tenho de começar pelo extraordinário desenho do belga Emilio VanDer Zuiden, num topo de forma. Bonito, elegante, muito seguro, próximo de uma linha clara, com uma capacidade de variar planos, adaptar técnica e de nos entregar uma estrutura de página atraente, fácil de entender, cinematográfico na sequência e ao mesmo tempo adequadamente teatral nas atitudes. 

Para quem não se recorde, Van Der Zuiden foi editado em Portugal com uma adaptação de Agatha Christie – Os Beresford. Para mim, este desenhador será sempre associado a uma excelente série denominada McQueen.

Depois, temos as cores de Jack Manini, que nos entregam o ambiente perfeito para esta narrativa feita de tensões e para os momentos teatrais que o atravessam. Diria mesmo mais: caracterização perfeita de tom e ambiente. Jack Manini é um autor de méritos firmados através de diversos álbuns de qualidade já publicados em França/Bélgica, e que participou em Go West Young Man, recentemente editado em Portugal. Por esse motivo fiquei um pouco surpreendido por o ver como colorista de L’Héritage Wagner mas, atendendo aos resultados, muito satisfeito.

Temos ainda a considerar a qualidade e profundidade de caracterização de um universo muito específico e elitista que é o operático alemão associado ao festival de Beyreuth, fundado em 1876 por Richard Wagner.

Infelizmente, a narrativa, embora interessante, fica um pouco aquém do potencial. Trata-se de uma história de confronto entre tentativas de modernização de um festival cultural e uma atitude conservadora e tradicionalista e pouca vontade (de alguns) de fazer alterações a um “saudoso passado”. Passado no século XX, incluindo variações de períodos temporais por vezes complexas, trata-se de um retrato do dia a dia e peripécias e invejas associadas ao festival, deixando muitas matérias ideológicas, de choques culturais e de clarificação da relação passada com o nazismo para um plano pouco desenvolvido. É pena, queríamos mais.

No entanto, o tratamento dos bastidores, a reconstituição cultural e a experiência em nos prender numa narrativa do veterano Stephen Desberg (I.R.$, Billy the Cat, etc.) permite-nos uma leitura interessante. Editado pela Bamboo, este one shot, tem uma relação com dois outros álbuns dos mesmos autores: Les Anges d’Auschwitz e Aimer pour Deux (no período da ocupação alemã de França).



quarta-feira, 22 de março de 2023

A opinião de Miguel Cruz sobre: "Kleos - #1", de Eacersall, Latapy e Causse e "La Meute", de Samama e Herry

Kleos – tomo 1

Kleos é uma nova série de que o título do tomo 1 nos dá uma boa ideia da base da narrativa: Celui qui Rêvait de Gloire (Aquele que Sonhava com Glória, numa tradução literal).

Philoklès é um jovem pescador, habitante de uma vila grega no Mediterrâneo, que se vê atacada por piratas no ano de 499 a.c.. Admirador das epopeias gregas, da Ilíada, da Odisseia de Homero, Philoklès é um sonhador cujos ideais são formatados à luz da mitologia grega. Quando a sua aldeia é pilhada, este jovem exige das autoridades alguma reação, e o envio de uma expedição que permita pôr termo a estes frequentes ataques. Ingénuo, inconsciente e empenhado, Philoklès acaba por embarcar no seu frágil barco de pescador, para seguir a pista dos piratas.

Rapidamente vai descobrir que isto de ser um herói não é fácil e que, se calhar, a sua preparação para esta aventura não é a melhor. Com alguma sorte à mistura o jovem vai prosseguindo o seu périplo, sendo que o tomo 1 termina num momento em que, após ser ferido e o seu barco ser incendiado, parece que essa sorte terminou. Um bom tratamento do suspense.

Pela nossa parte, acompanhamos esta aventura com gosto, num relato que evidencia a violência de uma sociedade marcada pela lei do mais forte, pela escravatura e pela brutalidade corrente. Somos confrontados, assim, com alguns elementos históricos interessantes, relativos à civilização grega, bem como com as tradicionais tempestades no mar, sereias, oráculos e as mulheres da ilha de Lesbos. Mark Eacersall e Serge Latapy são os dois responsáveis pelo argumento, tendo o primeiro já o registo de algumas BD muito interessantes e com bom acolhimento do público (“Cristal 417” e “Tananarive”, por exemplo), e sendo o segundo um jornalista especialista em civilização grega.

A desenhadora, Amélie Causse apresenta-nos um conjunto de pranchas bem estruturadas, grandes espaços, boas perspetivas, com um desenho sóbrio, moderno e agradável, rico em detalhes de natureza histórica, com cores muito luminosas. As imagens são expressivas e a história evolui com rapidez e consistência. Editada pela Bamboo, esta BD constituiu para mim uma agradável surpresa. Não apresenta, à partida, uma grandiosidade de um “Murena” ou de um “Alix”, mas não deixa de ser uma abordagem interessante, curiosamente conseguindo conciliar preocupações de atualidade e enquadramento histórico credível, e de leitura satisfatória.

A vontade de conhecer a sequência desta história é animada pela notícia da previsão da publicação do tomo 2 no final de abril de 2023.


La Meute

Aude Samama já esteve em Portugal, na Amadora, sendo que na altura tinha desenhado uma BD passada em Lisboa, e de autoria de Jorge Zentner, com o título de “Lisbonne, Dernier Jour”. Tinha também desenhado um livro sobre Amália que era acompanhado de um CD, parte integrante de uma coleção de BD/CDs. Desenho bonito, em aguarelas, composições de tipo “fotográfico”, cores alegres.

Recentemente, esta autora, acompanhada de Cyril Herry no argumento, lançou a BD La Meute (A matilha), mantendo a sua abordagem elegante e bem estruturada de um “quadro” em cada vinheta. Bonito, e conseguindo, apesar de tudo, manter uma boa sequência de movimento. O desenho é um elemento-chave para a qualidade desta obra, até porque se adapta muito bem a uma história feita de confronto de diferentes pontos de vista. A edição, como sempre muito cuidada, da Futuropolis, ajuda a tornar esta BD apelativa.

A história tem como ponto de partida a fuga de casa de dois adolescentes, Marina e Victor. Essa fuga, em direção ao bosque, vem agravar um sentimento de insegurança nos habitantes de uma vila cujos rebanhos têm estado a ser alvo de ataques de uma matilha de lobos.

Os tópicos abordados nesta história, para além dos ambientes familiares tóxicos que justificaram parcialmente a fuga, são os que facilmente decorrem da situação de insegurança atrás descrita: Os rumores, a má língua e os rancores, a inveja, os fingimentos, as feridas do passado. Esta é a dinâmica desta perturbante narrativa.

Com base na fuga dos dois jovens e do seu percurso, esta BD mostra-nos a visão gerada na intimidade de várias casas familiares da aldeia, criando um ambiente doentio, urgente e febril, numa narrativa surpreendentemente intensa e bem conduzida, apesar de vários momentos de grande “desagradabilidade”.

A contemplação da natureza, de grandes espaços e a relação entre os dois jovens constituem também uma boa oportunidade para o pincel de Samama, generosa nas cores e detalhada na apresentação de um ambiente melancólico e pleno de “electricidade”.
Ou…Como transformar uma história aparentemente banal num relato de forte intensidade emocional!

Interessante e merecedor de recomendação, trata-se de um one shot cujo argumento é da responsabilidade de um autor que me era totalmente desconhecido. 
Tenho, no entanto, um senão a apontar: A capa, pouco chamativa, com demasiado espaço ocupado pelo rosto em primeiro plano dos dois jovens, e que é redutora da interpretação do conteúdo da BD.


quinta-feira, 2 de março de 2023

A opinião de Miguel Cruz sobre: "L’Elixir de Dieu - t.1 - Spiritus Sancti", de Gihef e Galland e "Cache-Cache Batôn", de Lepage

 


L’Elixir de Dieu - t.1 - Spiritus Sancti

Não é que não pudesse ter usado a mesma frase para outros comentários que já aqui fiz, mas como não calhou, começo por usar a célebre tirada dos Monty Python para dar início ao comentário da BD L’Elixir de Dieu (T.1: Spiritus Sancti): And now, for somenthing Completely Different!

Estamos num convento católico, no sul dos Estados Unidos, ano de 1929 (em plena proibição) as personagens centrais são freiras, incluindo uma noviça ruiva e sardenta de passado duvidoso, sem grande escrúpulo em recolher algumas das esmolas para “eventualidades futuras”. A missa é celebrada por um padre de comportamento duvidoso, quer na relação com a congregação, quer na relação social com as terras envolventes. As freiras têm, cada uma, capacidades e maneiras de ser muito distintas. A máfia local considera aquele convento como local estratégico para o tráfico e armazenamento de álcool ilegal. A já mencionada noviça ruiva foi, descobrimos, a namorada de uma personagem da máfia que controla uma outra zona do país. O KKK tem uma atividade intensa na região, e um dos seus alvos não encontra melhor esconderijo do que um espaço no interior do convento (por acaso, usado no passado para produção de álcool!). O dono do terreno onde se situa o convento faleceu, e o banco prepara-se para concretizar a sua venda.

É este cocktail explosivo (sim, sim, muito explosivo) que está na base do divertido argumento desta BD e dos seus diálogos cáusticos, que nos agarram desde a primeira página, com o auxílio de um desenho realista-humorista de boa qualidade, embora num ou noutro ponto ainda se perceba alguma rigidez por parte da sua jovem autora: Christelle Galland. O toque feminino na sensibilidade do desenho é notório, e é sempre bom ter mais uma autora neste “circuito”.

O primeiro tomo termina com uma intensidade grande, criando o suspense adequado para o tomo 2. O ritmo de acontecimentos é tão elevado, que este livro tem de ser lido de um só fôlego. Por vezes os acontecimentos até coincidem com o que estaríamos à espera, mas a forma como tudo se desenrola é tão disparatado e engraçado que ficamos surpreendidos.

Tudo aqui é surpresa, uma BD não significativamente divulgada, da editora Bamboo. Pela minha parte gostei da leitura, a composição de página é agradável e bonita, sem grandes floreados, e aguardo com curiosidade e interesse o que se vai passar não apenas com a noviça irlandesa, mas também com as restantes freiras, bem-dispostas, práticas, emocionais e solidárias (por vezes…).



Cache-Cache Batôn

Emmanuel Lepage é um dos autores de BD mais admirados do panorama atual da Banda Desenhada Franco-Belga. Quer pelos temas normalmente abordados, associados à compreensão dos comportamentos e motivações sociais, e ainda à defesa do ambiente, quer pelo seu extraordinário desenho realista.

Recorde-se, deste autor, a publicação em Portugal, de obras como a Terra Sem Mal (Vitamina BD) ou Muchacho (2 tomos publicados pela ASA). 

A grande maioria das suas obras contêm algo de autobiográfico – o autor tem, aliás, viajado pelo mundo e conhecido, bem como relatado, formas de vida muito distintas – e marcadamente intimistas. A BD Cache-Cache Batôn, nome de um jogo infantil que o autor jogava quando criança, é, como o título indica, um relato de uma sua experiência de juventude, retratada nos dias de hoje, com o autor a entrevistar vários dos intervenientes, num exercício sempre interessante de conciliação de diferentes memórias para tentar resumir uma realidade.

Com enorme pudor e evidente carinho (e nalguns casos um desejo de que as suas memórias fossem verdadeiros retratos da realidade o que sabemos não ser possível, e constatamos não ser correto todas as vezes que tentamos recordar ou retraçar eventos da nossa juventude), Lepage revisita a experiência dos seus pais e de alguns casais amigos que adquiriram uma propriedade rural de cerca de 5000 m2 para tentar desenvolver uma experiência de vida em quase autarcia.

Trata-se, por isso, de uma mistura de relato biográfico com um documentário (incluindo entrevistas) que procura, num tom bastante nostálgico, expor as verdadeiras teias de relações, as dinâmicas pessoais e de grupo de que não se pôde aperceber enquanto criança e, consequentemente, avaliar as razões do desfecho da experiência do grupo de adultos que lhe serviu de modelo numa fase inicial da sua vida.

A noção de que estas experiências utópicas, na altura ditas modernas, são algo do passado, é clara, e o caracter nostálgico está associado à sua fase de crescimento e aprendizagem e não ao modelo de sociedade. Outra época, portanto, relatada num projeto pessoal do autor!

A narrativa é muito fluida, agradável, fácil de seguir, e muito ajudada por desenhos soberbos, com cores magníficas, que permitem um tom jovial, leve, luminoso e agradável a toda a história. Um grande autor, numa obra interessante e de conteúdo pouco comum, editado pela Futuropolis.