La langue des vipères
A protagonista, Iodis, é filha ilegítima de um alto dignitário religioso e cresceu na abadia de Réol, onde alguns jovens de nobres origens estudam uma forma de magia chamada a “Língua” um poder que permite a quem o possui responder a perguntas através de visões. Iodis aspira a escapar à vida monástica através de uma carreira de tipo académico, mas vê o seu planeamento, dependente do seu estatuto de excelente aluna, ameaçado pela chegada de Halcyon de Monterréol, uma jovem brilhante, misteriosa e aparentemente perfeita.
A tensão entre as duas intensifica se quando um precioso quadro desaparece, juntamente com o monge que o pintava, deixando sinais de violência. Iodis convence se de que Halcyon esconde um segredo capaz de comprometer toda a abadia. A narrativa mistura intriga, rivalidade, investigação e fantasia, num ambiente claustrofóbico onde o poder espiritual e o poder social se entrelaçam.
Uma obra de Juliette Brocal, que se encarrega do argumento do desenho e da cor, que me foi aconselhada por amigos, uma vez que eu não me senti inicialmente atraído nem pelo tema, nem pelo desenho, nem, confesso, pelas mais de 200 páginas.
O que é certo é que a autora constrói um universo que combina elementos medievais, religiosos e fantásticos com grande consistência. O traço é limpo, expressivo e elegante, com personagens de silhuetas marcadas e ambientes detalhados sem excessos ornamentais. As cores são fundamentais: tons ocres, azuis profundos e vermelhos litúrgicos criam uma atmosfera de mistério, espiritualidade e tensão. A paleta reforça a dualidade entre o sagrado e o inquietante, entre a ordem monástica e os segredos que a corroem.
A abadia é representada como um espaço vivo, com claustros, bibliotecas, salas de estudo e corredores que parecem esconder histórias. A composição das pranchas é clara, fluida, favorecendo a leitura e a progressão narrativa.
Não é muito o meu estilo de desenho, traços finos, retratando apenas o essencial, com foco nos contornos, mas se estranhei no início, a obra acabou por se entranhar. Não é uma fantasia épica, mas sim uma obra de intriga e rivalidade, com uma atmosfera que prende o leitor.
Da autoria de Juliette Brocal e editado pela Rue de Sèvres em Abril de 2026.
Le Roy des Ribauds - T. 5: Livre V
Uma abordagem completa a esta série não cabe aqui com facilidade. Vamos tentar o melhor possível. De Vincent Brugeas (argumento), Ronan Toulhoat (desenho e cores) e Anaïs Blanchard (cores), editado pela Akileos, temos:
T1: Somos introduzidos a um universo medieval onde o rei governa Paris através de uma rede clandestina de homens das sombras: os Ribauds — rufiões, patifes, canalhas ao serviço do poder. O protagonista, conhecido como o Rei dos Ribauds, é o mestre desta rede, manipulando informação, violência e medo.
T2: Azar, o poder real vacila. Conspirações internas ameaçam a estabilidade do reino. O Rei dos Ribauds enfrenta rivais dentro da própria corte e descobre que a sua posição é mais frágil do que imaginava.
T3: O equilíbrio entre o rei, os nobres e os Ribauds desmorona-se. O protagonista é empurrado para um conflito que já não controla, e o ciclo entra numa fase de desagregação moral e política. A violência sobe de tom.
T4: O foco desloca-se para o tema da linhagem, e para o papel que o filho do Rei dos Ribauds pode desempenhar. Como o título de Michel Vaillant: os jovens lobos!
A frase que abre o T5 é “Mon père n’a jamais voulu être roi.” (o meu pai nunca quis ser rei) — parece ganhar aqui um significativo peso dramático: o ciclo prepara a transmissão de poder e a redefinição do papel dos Ribauds na cidade. O filho confronta o legado do pai, o rei enfrenta as consequências das suas escolhas, e os Ribauds são forçados a redefinir a sua própria existência. O segundo ciclo fecha com violência, manobra política e tragédia.
Uma série excelente, com intrigas palacianas de grande qualidade, imaginação e realismo. A tradução mais adequada, na minha opinião seria o rei dos “canalhas”, e não há nada que seja poupado nesta história. O desenho é muito bom, realista, vigoroso, enérgico, a maldade é visível na ação, mas também nas expressões, nos rostos. As cores sublinham o dramatismo da narrativa, o sombrio das situações, o vermelho da violência, e a composição de página é elegante e entusiasmante.
Brutal, sim. Elegante, curiosamente também. Cativante certamente. O testemunho que posso deixar é simples: Eu gostei bastante!




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