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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "La langue des vipères", de Brocal e "Le Roy des Ribauds - T. 5: Livre V", de Brugeas, Toulhoat e Blanchard


La langue des vipères

A protagonista, Iodis, é filha ilegítima de um alto dignitário religioso e cresceu na abadia de Réol, onde alguns jovens de nobres origens estudam uma forma de magia chamada a “Língua” um poder que permite a quem o possui responder a perguntas através de visões. Iodis aspira a escapar à vida monástica através de uma carreira de tipo académico, mas vê o seu planeamento, dependente do seu estatuto de excelente aluna, ameaçado pela chegada de Halcyon de Monterréol, uma jovem brilhante, misteriosa e aparentemente perfeita.

A tensão entre as duas intensifica se quando um precioso quadro desaparece, juntamente com o monge que o pintava, deixando sinais de violência. Iodis convence se de que Halcyon esconde um segredo capaz de comprometer toda a abadia. A narrativa mistura intriga, rivalidade, investigação e fantasia, num ambiente claustrofóbico onde o poder espiritual e o poder social se entrelaçam.
Uma obra de Juliette Brocal, que se encarrega do argumento do desenho e da cor, que me foi aconselhada por amigos, uma vez que eu não me senti inicialmente atraído nem pelo tema, nem pelo desenho, nem, confesso, pelas mais de 200 páginas.

O que é certo é que a autora constrói um universo que combina elementos medievais, religiosos e fantásticos com grande consistência. O traço é limpo, expressivo e elegante, com personagens de silhuetas marcadas e ambientes detalhados sem excessos ornamentais. As cores são fundamentais: tons ocres, azuis profundos e vermelhos litúrgicos criam uma atmosfera de mistério, espiritualidade e tensão. A paleta reforça a dualidade entre o sagrado e o inquietante, entre a ordem monástica e os segredos que a corroem.

A abadia é representada como um espaço vivo, com claustros, bibliotecas, salas de estudo e corredores que parecem esconder histórias. A composição das pranchas é clara, fluida, favorecendo a leitura e a progressão narrativa.

Não é muito o meu estilo de desenho, traços finos, retratando apenas o essencial, com foco nos contornos, mas se estranhei no início, a obra acabou por se entranhar.  Não é uma fantasia épica, mas sim uma obra de intriga e rivalidade, com uma atmosfera que prende o leitor. 

Da autoria de Juliette Brocal e editado pela Rue de Sèvres em Abril de 2026.





Le Roy des Ribauds - T. 5: Livre V

Uma abordagem completa a esta série não cabe aqui com facilidade. Vamos tentar o melhor possível. De Vincent Brugeas (argumento), Ronan Toulhoat (desenho e cores) e Anaïs Blanchard (cores), editado pela Akileos, temos:

T1: Somos introduzidos a um universo medieval onde o rei governa Paris através de uma rede clandestina de homens das sombras: os Ribauds — rufiões, patifes, canalhas ao serviço do poder. O protagonista, conhecido como o Rei dos Ribauds, é o mestre desta rede, manipulando informação, violência e medo.

T2: Azar, o poder real vacila. Conspirações internas ameaçam a estabilidade do reino. O Rei dos Ribauds enfrenta rivais dentro da própria corte e descobre que a sua posição é mais frágil do que imaginava.

T3: O equilíbrio entre o rei, os nobres e os Ribauds desmorona-se. O protagonista é empurrado para um conflito que já não controla, e o ciclo entra numa fase de desagregação moral e política. A violência sobe de tom.

T4:  O foco desloca-se para o tema da linhagem, e para o papel que o filho do Rei dos Ribauds pode desempenhar. Como o título de Michel Vaillant: os jovens lobos! 

A frase que abre o T5 é “Mon père n’a jamais voulu être roi.” (o meu pai nunca quis ser rei) — parece ganhar aqui um significativo peso dramático: o ciclo prepara a transmissão de poder e a redefinição do papel dos Ribauds na cidade. O filho confronta o legado do pai, o rei enfrenta as consequências das suas escolhas, e os Ribauds são forçados a redefinir a sua própria existência. O segundo ciclo fecha com violência, manobra política e tragédia.

Uma série excelente, com intrigas palacianas de grande qualidade, imaginação e realismo. A tradução mais adequada, na minha opinião seria o rei dos “canalhas”, e não há nada que seja poupado nesta história. O desenho é muito bom, realista, vigoroso, enérgico, a maldade é visível na ação, mas também nas expressões, nos rostos. As cores sublinham o dramatismo da narrativa, o sombrio das situações, o vermelho da violência, e a composição de página é elegante e entusiasmante.

Brutal, sim. Elegante, curiosamente também. Cativante certamente. O testemunho que posso deixar é simples: Eu gostei bastante!


quarta-feira, 22 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "La Cuisine des Ogres - t. 2: Une vie de vaurien", de Vehlmann e Andréae e "Frankenstein", de David Sala


La Cuisine des Ogres - t. 2: Une vie de vaurien

Já aqui tinha falado do tomo 1 da “Cozinha dos Ogres”, quando pensava ser um one shot, impressionado pela solidez e fantasia do argumento (Fabien Vehlmann) e pela excecionalidade do desenho (Jean Baptiste Andréae), acompanhado de tons de coloração feéricos. Com Cuisine des Ogres - tome 2: Une vie de vaurien os autores aproveitam (claro!) o sucesso comercial do tomo 1, mas também consolidam um universo narrativo de rara riqueza, prosseguindo o trabalho de reinvenção do conto numa versão terrível, sombria e de realidade humana.

A personagem central do primeiro tomo já tinha tido o seu “ciclo de vida”, razão pela qual agora é explorada uma outra personagem (diríamos secundária): Brèche Dent (em português diríamos dente lascado), um gnomo com aquele ar muito típico do folclore bretão (lembrei-me agora de Fournier…), como podem ver na capa.

Toda a BD é centrada na escolha moral da personagem e no seu carácter: trair para ascender socialmente ou preservar a ética e a lealdade e aceitar um exílio temido. Inseguro, “apagadinho”, mas empático, B-Dent vai-se mostrar um verdadeiro e surpreendente resistente. Também neste tomo, os autores deleitam-se com uma crueldade por vezes divertida, quase sempre absurda. 

No primeiro tomo, o espaço central era a cozinha e parte da aventura no espaço “aberto”. Desta vez, é o mundo exterior à cozinha que dá título à série a dominar. Em qualquer dos ambientes, o que nos chama imediatamente a atenção é a extraordinária qualidade gráfica, a delicadeza do tratamento moral e o grotesco fantástico do ambiente contextual. O ritmo da narrativa é muito dinâmico, tudo “é vivo”, os jogos de luz são notáveis, a experiência de leitura é imersiva.

Os diálogos são muito bem trabalhados, musicais, inteligentes, o que implica uma atenção de leitura que faz com que, apesar de ser um “page turner”, não seja uma leitura rápida.

Uma leitura agradável e recomendada, uma boa edição da Rue de Sévres, menos surpreendente que o primeiro tomo (como seria natural) mas não menos original, talvez um pouco menos emocional e linear que o primeiro, com uma estratégica abordagem de aprofundamento moral e talvez simbólica.

A capa, para mim é o ponto fraco, não porque não seja belíssima, mas porque, para quem não conheça a série, pode parecer exclusivamente infantil. Não o é certamente!





Frankenstein, de David Sala

Mais uma adaptação de Frankenstein, desta vez por David Sala, editado pela Casterman (mais de 200 páginas, já agora). Não é uma adaptação qualquer, não porque, creio eu, a obra de Mary Shelley possa ser revisitada sobre alguma perspetiva diferente e particularmente inovadora, mas porque a linguagem gráfica é diferente do habitual e muito pessoal – o que seria de esperar de um autor como David Sala (na JuveBêDê já falei sobre “Le Poids des Héros”, e temos editado em português o “Jogador de Xadrez adaptado de S. Zweig).

Mais do que contar novamente a história de Dr. Frankenstein e da sua criatura, Sala desenha essencialmente a violência sobre o diferente e sobre a condição de rejeitado, um pouco como vimos no cinema recentemente, mas com cânones gráficos muito diferentes. As referências sociais contemporâneas são também óbvias, desde logo com a introdução de alguma empatia por personagens secundárias.

A Victor Frankenstein é arrogante, ambicioso e moralmente elitista (ou moderno, como refere. Não abandonando os contornos góticos habituais, David Sala procura atribuir a esta BD uma camada de leitura contemporânea; exercício arriscado, mas conseguido dada a exuberância do desenho e da composição de página.

Cada página aproxima se mais de um quadro do que de uma prancha tradicional; o autor privilegia a pintura em vez do desenho, e as cores são essenciais para a textura palpável da BD. As referências gráficas de Klimt e da Art Nouveau parecem-me óbvias e resultam bastante agradáveis, embora admito que dependa do gosto de cada um. A obra tem, assim, uma identidade estética muito forte, o que pode fazer com que não seja do agrado de “todo o público”, até porque o desenho, notoriamente, não pretende a estabilidade emocional (ou sentimento, se quiserem) procurado e conseguido (e não apenas como resultado da grotesca figura da criatura).

Não se trata de uma BD de leitura rápida, há muito detalhe, há muito trabalho de adaptação constante aos desafios do autor que consegue aquilo que pretende: estabelecer uma obra única no panorama editorial Franco-Belga, e com uma história de base das mais conhecidas e revisitadas! 

Pela minha parte, gostei da leitura – claro que não consigo deixar de estar em cada momento a fazer as comparações sobre outras adaptações ou sobre a obra original, o que me cansa um pouco e reconheço o patamar gráfico muito elevado, o que justifica a recomendação.


sexta-feira, 10 de julho de 2026

A opinião de Miguel sobre "Le Horla", de Paul e Gaëtan Brizzi e "Juste après la vague", de Monféry


Le Horla 

A editora Futuropolis usa mais esta obra dos irmãos Brizzi (Paul e Gaëtan) para lançar uma nova coleção: La Bibliothèque Fantastique, um projeto editorial que visa adaptar, num ritmo anual, grandes textos do fantástico europeu. Os irmãos Brizzi lançaram-se então a um texto de Maupassant, que eu, ó ignorante miserável, nem conhecia, mas que, depois de o ler em BD (os meus pais, coitados, muito teriam a dizer sobre isto), direi que é difícil de ultrapassar em fantástico e sobrenatural. 

Uma excelente, densa, mas bastante legível BD, sobre a qual não consigo elogiar as qualidades de adaptação, mas que retrata bem o invisível (como aliás é destacado na abordagem comercial da editora), que retrata bem o medo.

A narrativa é baseada num diário, logo, numa narração de acontecimentos por parte de alguém que se vai afastando cada vez mais da realidade e da estabilidade psicológica. As sensações, o “invisível” as “inquietudes” são o centro da narração nesta BD: o que é realidade e o que é resultado da deriva psicológica do narrador?

Como já é hábito no trabalho de Paul e Gaetan, a BD é a preto e mais preto e ainda mais preto, cinzento e branco, com muitos jogos de luz e trabalhos de sombras. A atmosfera criada pelo desenho é permanentemente inquietante, desafiadora. A sugestão, num contexto opressivo, é o elemento essencial.

Sabemos bem o envolvimento em projetos cinematográficos dos autores particularmente de um dos irmãos e na consequência que isso tem na estrutura do trabalho a duas cabeças e a quatro mãos (enfim, assumindo tanto quanto me recordo – que ambos são destros, a duas mãos…!). E está bem assim, pois a influência cinematográfica ajuda na fluidez da leitura.

Le Horla dos irmãos Brizzi é, assim, um caso sério de rigor e de escolhas, que se destaca pela tentativa bem conseguida, argumentarei - de traduzir visualmente um estado psicológico.




Juste après la vague

Com Juste après la vague (Logo após a vaga), Dominique Monféry propõe uma adaptação particularmente intensa do romance de Sandrine Collette, transformando um relato de catástrofe global num drama profundamente íntimo. Entre distopia ecológica e tragédia familiar, a obra articula duas dimensões complementares: a luta pela sobrevivência num mundo submerso e a violência moral das escolhas impostas por essa mesma sobrevivência (desde logo a escolha de uma mãe em relação aos seus filhos).

O ponto de partida é brutal na sua simplicidade: uma vaga gigantesca devastou o planeta, reduzindo-o a uma dispersão de ilhéus isolados. Uma família numerosa sobrevive num promontório rochoso, mas a subida contínua das águas torna inevitável a fuga. O problema é insolúvel: há apenas uma barca, incapaz de transportar todos. A decisão dos pais abandonar três dos filhos para salvar os restantes constitui o núcleo trágico da narrativa.

A força da obra reside na forma como transforma um cenário pós apocalíptico num estudo psicológico e ético. A catástrofe está presente, mas pouco se vê, funciona sobretudo como contexto: o verdadeiro foco são as relações familiares e a violência íntima das decisões.

Dominique Monféry, com uma longa experiência no cinema de animação transporta para a banda desenhada uma narrativa visual quase a 3D, com um desenho e uma gestão de cores, que reforçam a “espessura” das páginas.

Os enquadramentos são quase sempre amplos, procurando destacar a desolação, e a solidão das personagens, o que é reforçado pela expressividade dos rostos. A composição de página muito variável dá uma boa imagem do caos que se pretende retratar. 

A águia é o elemento dominante e o uso de aguarelas ajuda a dar uma credibilidade à situação, o que se torna distintivo neste trabalho, onde poucas palavras são usadas.

Uma leitura intensa, mas interessante, sofisticada e marcante. 

Editado pela Rue de Sévres.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "La guerra de Audrey, de Rúbio e Aroca e "Tourner la Page", de Zep

 

La guerra de Audrey

Uma curiosidade que encontrei numa livraria em Espanha: La guerra de Audrey, da Planeta Cómic, editada em 2025, de Salva Rúbio (argumento) e desenho de Loreto Aroca.

Uma novela gráfica de pequeno formato, mas com 150 páginas que romanceia a infância e adolescência de Audrey Hepburn durante a Segunda Guerra Mundial, quando viveu nos Países Baixos ocupados pelos nazis, após uma decisão familiar de escapar de Londres para fugir dos bombardeamentos, conjugada com uma má avaliação de que os Nazis não invadiriam a Holanda… afinal a raça é a mesma.

Na Holanda, Audrey vive anos de fome extrema, medo constante e repressão, e “agarra-se” à vontade de dançar e de aprender a dançar como forma de refúgio, sobrevivência e de objetivo de vida.

A narrativa tem uma forte base documental e histórica, e uma abordagem intimista e emocional, centrada na experiência de uma criança, sem heroísmos artificiais, sem aventura e eventos forçados, mas focada na empatia. E acho que, o exercício é bem conseguido. O desenho é sensível, elegante e expressivo, a cor é bem usada para explorar emoções e o lado humano dos acontecimentos. Bem documentado, com rigor histórico, apesar de evitar espetacularidade, ou qualquer aprofundamento de eventos da guerra. A mãe de Audrey vai fazendo avaliações erradas atrás de avaliações erradas: a mudança para a Holanda, a confraternização com o ocupante…

A história não me era conhecida e é a base para uma narrativa envolvente, embora muito contida, clássica e com uma limitada abordagem aos acontecimentos envolventes e muito centrada na personagem central, com pouca profundidade no tratamento das personagens secundárias.

Uma leitura simpática, agradável, simples, com bom impacto humano e uma curiosidade biográfica sobre uma das mais amadas atrizes de cinema.



Tourner la Page – Zep

Tourner la page, de Zep, acompanha a história de um autor de romances que, após ter conhecido o sucesso literário, se vê confrontado com o declínio da sua carreira e com uma profunda crise pessoal. Ao longo da narrativa, seguimos um percurso de perda, dúvida e tentativa de reconstrução, onde o protagonista lida com o esquecimento, a solidão e a necessidade de redefinir a sua identidade, mas com um twist anunciado desde a primeira página: a sua morte. O título traduz bem essa travessia: trata-se de aceitar o fim de um ciclo e encontrar forma de seguir em frente, num registo simultaneamente íntimo e reflexivo. Ah, e é bom não esquecer que os planos humanos saem “furados” com muita frequência!

A nível gráfico, a BD mantém a qualidade excecional a que o autor nos habituou, relativamente intimista, cores luminosas, representação gráfica detalhada, os rostos como espelho da alma, os espaços envolventes detalhados e realistas. Zep adota um estilo em aguarela, suave e expressivo, que marca uma evolução talvez natural no seu trabalho. As cores delicadas e o traço contido criam uma atmosfera melancólica e introspetiva, reforçando o tom emocional da narrativa. A maturidade artística do autor já não precisava de ser provada, mas está comprovada.

Nesta BD, para mim, o ponto a destacar no trabalho de Zep é a exploração de temas como o sucesso, a sua fragilidade e o funcionamento do mundo editorial, transformando a narrativa numa reflexão mais ampla sobre a criação artística e o reconhecimento num mundo “dog-eat-dog” (coitado dos cãezinhos, é uma expressão). A BD é envolvente, ficamos com a ideia de que diz bastante, em determinados pontos, ao seu autor. Zep desembaraça-se tão bem no domínio humorístico como num registo mais sério e sisudo, mas sem perder o humor e a ironia.

É curioso que, do meu ponto de vista, a BD nunca é previsível, e tem vários momentos surpreendentes, mas a surpresa torna-se imediatamente natural, facilmente digerível, o que constitui relevante ponto positivo. Quando virei a última página (perceberam? Sim o título do livro é virar a página, certo?… ouff!) fiquei com uma grande curiosidade sobre o que se seguiria, mas verdadeiramente, todos perceberemos: não é importante.

A capa é sóbria, clara e sugestiva, refletindo bem a introspeção da obra e, veremos, o estado emocional do protagonista. O livro conta com cerca de 96 páginas, num formato cuidado que valoriza o trabalho em aguarela e a leitura pausada. Publicado pela editora Rue de Sèvres, esta BD é uma das BDs de 2026, na minha opinião. 


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "La Dernière Maison Juste Avant la Forêt", de Loisel e Djian e "La Danseuse aux Dents Noires", de Stalner e O. Truc


La Dernière Maison Juste Avant la Forêt

Muito me entusiasmei quando soube, já há alguns meses, de que iríamos ter uma nova BD com Loisel “ao desenho”. Já há uns anitos que não tínhamos o gosto de ver uma BD desenhada por Loisel e há mais ainda com Loisel sozinho no desenho – importa recordar que Magasin Général (Armazém Central em Português) foi realizado em conjunto com Jean-Louis Tripp e o último tomo em francês foi editado em 2014.

O/a leitor/a eu não sei… Eu sou fã do desenho que pudemos ver em Peter Pan ou em La Quête de L’Oiseau du Temps. Logo, repito-me, fiquei satisfeito com a notícia, e assim que a BD chegou às livrarias, lá estava eu. Isto apesar de ser uma edição “pesada” seja na carteira seja literalmente, como resultado do formato, da capa e das mais de 160 páginas. Edição Rue de Sèvres.

A Última Casa mesmo antes da Floresta tem argumento de Régis Loisel e de Jean-Blaise Djian, desenho de (repito-me outra vez) Loisel e cores de Bruno Tatti.

Entretanto já li o “calhamaço” e fiquei sem saber o que diga! Surpreendente é. Difícil de classificar, certamente. Com grande tristeza minha, não percebi a intenção. Vamos admitir que é um divertimento de vaudeville, uma sequência de trapalhadas contadas com humor. Achei pontualmente divertido, por vezes ternurento, mas no essencial nem me moveu nem me convenceu. Que raio, Loisel é daqueles em relação aos quais sou fã incondicional. Algumas pranchas são tão escuras que prejudica a legibilidade. Enfim, é a vida. Acontece. Veni, Vidi, mas desta vez não Vinci. Ah, já agora, também não gostei muito da capa.

As primeiras páginas são muito interessantes, e o desenho corresponde às expectativas. Pierrot é carteiro, simpático, bem apreciado pelas pessoas, acha-se irresistível – afinal, quando se vê ao espelho, é um belo rapaz – e não compreende a reação das mulheres quando o vêm. Nós que o vamos vendo percebemos a realidade, e ficamos intrigados por aquela imagem no espelho. 

A determinada altura, Pierrot desloca-se para casa dos pais para passar uns dias, na altura do 14 de julho. E a casa é, efetivamente, a última casa mesmo antes da floresta. À sua frente vai uma rapariga que Pierrot acha ter as mesmas feições da sua amada – mas não é, é uma jovem que a sua mãe contratou para fazer pirraça ao seu pai. Ah, já agora, a mãe de Pierrot é uma espécie de “bruxa” que não apenas lançou o feitiço que faz com que o reflexo no espelho seja belo, como transformou os seus empregados numas criaturas estranhas (visíveis na capa) que habitam o fundo do poço. Ah, sim, e transformou o seu marido e pai de Pierrot numa estátua sem braços nem pernas, mas falante. 

E para culminar o todo, no meio do frondoso jardim há uma estufa com plantas carnívoras, que servem para resolver o problema de alguns curiosos. Os acontecimentos são absurdos e tudo se desenrola a um ritmo absolutamente desconcertante com situações encadeadas e contadas com mão de mestre. O desenho é, na maioria das páginas absolutamente fantástico de expressividade e detalhe. Algumas das personagens são atrativas, gosto de Coin-Coin, o pato boia na banheira de Pierrot, uma espécie de grilo falante de borracha. O universo é criado de uma forma coerente. Mas toda a história é negra, agressiva, com momentos desagradáveis. Reconheço a qualidade narrativa, e a qualidade do desenho, mesmo estando à vontade para dizer não ser dos melhores trabalhos que já vi. 

Mas direi que será apenas para um público limitado. Não foi para mim!




La Danseuse aux Dents Noires

Com a bailarina de dentes negros, temos um grande regresso às obras mais comerciais do desenhador Eric Stalner, numa edição muito cuidada da Dupuis, na sua coleção Aire Noire.

Esta BD vem romancear as aventuras reais do professor Hermentaire Truc, sendo o argumento escrito pelos seus descendentes Olivier Truc e Jean-Laurent Truc (Truc e Truc, portanto), que aproveitam também para nos apresentar no final da BD um dossier histórico e familiar muito interessante.

O Professor Truc, uma sumidade francesa no domínio da oftalmologia da época, é contactado para se deslocar ao Camboja para operar o Rei que sofre de cataratas. Se é fácil de perceber que uma operação às cataratas naquela época não constituía tarefa simples, agora imaginem a pressão diplomática associada a esta tarefa arriscada, numa época em que a posição pró-francesa do rei é muito contestada, inclusivamente no seio da sua família, e vários países se posicionam para ocupar o papel relevante de apoio à gestão do país. A isso acrescentemos ainda um Rei medroso, uns monges que têm de dar luz verde a qualquer intervenção no seu Rei, tentativas de sabotagem, ameaças e uma dançarina preferida do Rei, cujo papel e influência não são fáceis de perceber ou interpretar.

O assassinato do assistente do professor, e as suas hesitações de consciência, após começar a ter uma noção das desigualdades sociais no país e do papel do comércio do ópio, concedem maior densidade a esta história.

Uma história muito interessante, exótica, surpreendente, que nos capta a atenção, simples de seguir, mas difícil de julgar. Tal como o professor, também nós leitores ficamos profundamente divididos sobre qual o desenlace que preferimos para uma história aparentemente simples.

O desenho é delicioso, o desenhador aproveita a oportunidade para desenvolver imagens sumptuosas do Camboja da época, dos animais locais, de uma vida que não o sendo, nos aparece mais real que a realidade.

Um excelente momento de leitura, didático, certamente, mas profundo e agradável. A ler sem falta. Já agora, os dentes negros têm, naturalmente um significado. Eram sinais de beleza e de posição social, e resultavam da aplicação de uma mistura que tingia os dentes, mas que, aparentemente, pretendia também servir para os proteger.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

A opinião de Miguel Cruz sobre "Banana Story - t.1/2: L'ascension, de Manini e Park e "Le Grizzli T. 2: Une Haleine de Cadavre", de Matz e Simon

 




Banana Story t.1/2 - L'ascension

O título é muito direto. Um jovem, de nome Samuel sobrevive a um Pogrom na Roménia, mas fica sozinho com a morte dos seus pais, tomando a decisão de embarcar em direção a Nova York, onde um seu tio habita há já alguns anos. A viagem faz-se sem problemas de maior, mas o seu tio já não faz parte do mundo dos vivos. Não conseguindo arranjar emprego, acaba por embarcar clandestinamente em direção à Guatemala, perseguindo o seu sonho de trabalhar no negócio da banana. Tommy é outro clandestino a bordo, e as peripécias que vão viver selam uma amizade e uma união de futuro. 

Na Guatemala vão trabalhar para a empresa americana que explora o país, e acabam a fazer amizade com a jovem Jimena, filha de um cultivador (ainda) independente. Este trio vai acabar por fazer o seu caminho no negócio das bananas, deixando, no entanto, marcas diversas no seu percurso. Os detalhes sobre as oportunidades de negócios, a crueza na abordagem à exploração dos recursos naturais dos países da América Central e do Sul, a exploração de mão de obra barata, tudo isso tem interesse nesta BD. As diferenças de perspetivas entre os três jovens é, aliás, bem explorada. Samuel o visionário, com poucos escrúpulos, mas uma enorme capacidade de farejar novas oportunidades de negócios. Tommy, um sonhador sempre dominado pelas preocupações sociais, a justiça e a coesão de grupo. Os dois jovens partilham uma história, um passado e uma solidariedade que os mantém juntos, mas é duvidoso que partilhem uma ideia de futuro. Têm, ainda, em comum, a paixão por Jimena. Esta, por sua vez, é a pacificadora, a profissional financeira e a imagem do bom senso.

Este primeiro tomo termina, precisamente, no auge das divergências entre os dois amigos. Com alguma base em eventos reais, esta aventura está prevista em dois tomos, e é editada pela Rue de Sévres.

O argumento é bem estruturado, os diálogos e as situações são interessantes, apesar de haver alguns pontos em que há saltos narrativos de natureza expedita. Isso não prejudica a leitura, e reconheço que muito acontece e muito nos captura a atenção ao longo de 120 páginas deste primeiro tomo. O texto e storyboard foram desenvolvidos por Jack Manini, um bem conhecido autor francófono, mas que creio que em português tem apenas duas participações, uma em Go West Young Man e na “recolha” Uderzo visto pelos seus amigos, e em ambos os casos com desenho.

O desenho é do Coreano Kyung Eun Park, que nos entrega uma estruturação de páginas e um desenho muito interessante, clássicos, cinematográficos, e muito legível e luminoso. Um bom exercício, contrastando imagens de espaços abertos e da natureza, com imagens de proximidade, centradas nas personagens, num desenho realista, com personagens fáceis de identificar.

Uma boa leitura e um primeiro tomo que nos abre o apetite para a sequência, embora possa estragar o apetite para bananas. 





Le Grizzli T. 2: Une Haleine de Cadavre

Para quem não se lembre de um comentário que fiz sobre o tomo 1 (eu próprio tive de o ir recuperar e reler), não, este comentário não é sobre uma BD que aborde o famoso urso pardo. Grizzli é a alcunha de um ex-boxeur, ex-criminoso, aparentemente ex-rebelde, reformado, portanto (!), que, na década de 50 do século passado, se dedica a uma vida calma de representante automóvel. Com a mesma estrutura corporal do referido urso, e uma aproximação generosa, mas socialmente respeitável, à quantidade de pelo do mesmo, Grizzli está permanentemente a cruzar os seus antigos conhecimentos e, por mais que queira levar uma vida calma (e burguesa, de “cave” como eles dizem), acaba por se ver envolvido em problemas alheios, mas que um sólido código de amizade e lealdade torna também seus.

Neste tomo 2, o generoso Grizzli aceita, com o seu colega Toine (que se movimenta bastante bem no universo das corridas de cavalos e apostas), levar a cabo uma investigação sobre o desaparecimento da jovem filha de Bubu. O também aparentemente reformado Bubu prefere, logicamente, não recorrer à polícia, que estranho seria. Para além disso, Grizzli e Toine poderão ajudar a evitar que as preocupações paternais se tornem num disruptivo massacre.

A investigação representa um voltar ao meio que já pouco frequentam, cruzar personagens notáveis, visitar locais de diversão (essencialmente) noturna, um vai e vem de belíssimas viaturas, com destaque para uma DS, um Panhard e para um Facel Vega. E os dois personagens centrais deste filme francês - “à la” Lino Ventura, Delon, Belmondo e mesmo Jean Gabin, cujo rosto, aliás, nos observa em várias das páginas desta BD – vão conseguir encontrar a raptada, assegurar o desenlace do mistério e mesmo corrigir um erro cometido logo nas primeiras páginas da BD. O título “Um hálito de cadáver” não nos deixa muitas dúvidas quanto ao que vamos.

Muito agradável, com um desenho de Fred Simon em excelente forma, detalhado, expressivo, agradável, suave, caricatural q.b. As viaturas são uma perdição, bem como a nostalgia evidente de uma época de ouro do cinema francês (segundo dizem). Muito boa leitura, muito realista, muito trabalho de caracterização de época.

A história é interessante, um “polar” não muito complexo, mas bem-adaptado à época, com personagens estereotipadas q.b., mas com particular humor. Muito humor cínico, efetivamente, várias vezes o humor vira “negro”. O destaque, no entanto, vai para o facto de os diálogos – cortantes – serem escritos em “Argot” parisiense da época, tal como usado no meio popular. E isso dá um colorido à leitura (para além de dar origem a alguns mal-entendidos na própria narrativa) muito interessante. Para mim dá um colorido tal que várias frases têm de ser lidas e relidas até conseguir a exatidão de significado: Felizmente há um glossário mesmo no final… O nosso bem conhecido Matz, notoriamente, teve um grande prazer a escrever o argumento e os diálogos para esta BD.

Em resumo, imagino as dificuldades eventuais de tradução, sei que é uma BD de nicho – mas que vai fazendo sucesso, de tal forma que a Dargaud já está a anunciar o tomo 3 – mas continuo a referir que a leitura é muito agradável e interessante. Fortemente recomendável, na minha opinião.


quarta-feira, 21 de maio de 2025

A opinião de Miguel Cruz sobre "Gone with the Wind", de Alary e "Last on His Feet", de Matejka e Daoudi

 


Gone with the Wind

A 25 de junho de 2023 foi aqui publicado um breve comentário sobre o Tomo 1 de Gone with the Wind. Ora, cá estamos para “contar o fim da história”!  É que o tomo dois foi publicado em janeiro de 2025, um belo “objeto de mais de 145 páginas”, bela capa, excelente trabalho editorial.

E o tomo dois mantém a qualidade do tomo 1, se é que não é melhor. É que o trabalho do desenhador e a adaptação do Romance de Margaret Mitchell, ambos por Pierre Alary, são excelentes. Excelente ritmo, inteligente profundidade da história, das personagens, dos diversos temas tratados. Gone with the Wind é uma belíssima história de amor. Gone With the Wind é muito mais do que uma mera história de amor. 
A adaptação é excelente e permite redescobrir um romance de referência com qualidade e sem superficialidades. O trabalho gráfico de Pierre Alary é muito bom, com diversas páginas absolutamente sumptuosas, o trabalho de cores é fortíssimo. Pierre Alary, um simpático e corajoso autor conseguiu claramente ganhar a sua aposta.

O reencontro entre Rhett e Scarlet, Tara sempre no pensamento desta última, tudo o que Scarlet faz para sobreviver, a caracterização da sociedade que os rodeia, as preferências, as invejas, a incompreensão, a ausência de perdão, os estereótipos, a cupidez e oportunismo de tantos, a adaptação ou falta dela à abolição da escravatura.

Os momentos de confronto entre as duas personagens principais são-nos apresentados de forma notável, são páginas que ficam na memória do leitor/da leitora. Os momentos em que Scarlet toma consciência dos efeitos do seu comportamento são de um impacto e de uma candura notáveis. Os momentos de “explosão” de Rhett são também notáveis.

Recomendo a leitura sequencial dos dois tomos, por mais que se conheça bem a história, sendo que a leitura destes dois volumes é extremamente agradável, mesmo que a história, como sabemos, não o seja totalmente, um interessantíssimo retrato de um mundo em forte mudança (ou decomposição). 

Editado pela Rue de Sévres. Não esperava dizer isto – o meu ceticismo de partida quanto a adaptações de certas obras literárias é conhecido – mas esta adaptação de Pierre Alary, um autor que, ao contrário de Scarlet não cedeu aos estereótipos e que soube impor a sua interpretação pessoal, é de leitura indispensável.




Last on His Feet

O título complete desta novela gráfica é Last on his Feet: Jack Johnson and the Battle of the Century, e como o nome indicia, estamos perante uma história de boxe. Mas certamente não apenas sobre uma história de boxe, mas sobre uma grande figura do boxe: Jack Johnson. Mas como Jack Johnson era negro, e o combate do século teve lugar nos Estados Unidos da América de 1910, esta é uma história de segregação racial, da forma como um dos grandes lutadores de todos os tempos foi tratado por ser negro, de oportunidades perdidas, de caráter, do que poderia ter sido, e de caminhos desbravados.

Editado pela Liveright (Publishing Corporation) em 2023, com textos de Adrian Matejka e desenho de Youssef Daoudi, esta novela gráfica é uma obra excecional, aviso que fica também para aqueles e aquelas que não se sintam atraídos/as pelo Boxe. Eu também nem por isso, sendo esta uma obra de qualidade inegável, de profundidade narrativa evidente, de surpreendente nível poético.

Lembro-me de, em 2024, ter ouvido falar da edição francesa desta novela gráfica (o desenhador é francês) sendo que, por algum motivo de que hoje já não me recordo, nunca a cheguei a adquirir. Uma das minhas filhas visitou, em Washington, o National Museum of African American History and Culture e lá encontrou à venda a edição inglesa de quase 320 páginas, tendo achado (com razão, thumbs up) que eu gostaria. E depois de lida, faz todo o sentido ser obra destacada naquele excelente museu.

O combate do século eu sabia qual era – Jack Johnson, campeão de pesos pesados, contra Jim Jeffries, campeão do mundo de pesos pesados, saído da sua reforma. O que não sabia era que este famoso combate que teve lugar a 4 de julho de 1910 em Reno, tinha resultado de longos anos de desafios lançados por Johnson para combater o campeão do mundo, para o poder ser, por sua vez, o que nunca lhe fora permitido por ser negro (“the color line”). Johnson ganhou inequivocamente o combate, com quase todo o público contra si, com as notícias abafadas, e tendo sido objeto de diversas perseguições depois de ganhar o combate até ser reduzido quase à miséria. 

“Thanks to these fists, I’ve witnessed scenes that poets can’t put words to…” A novela gráfica aborda o combate como elemento narrativo central, mas aborda desde as origens do lutador até à sua morte, numa vida cheia, corajosa, de um homem com e uma força interior e convicções notáveis, numa luta contra uma sociedade onde as suas atitudes e comportamentos eram tolerados pela sua fama e pela sua fortuna, mas onde a mínima oportunidade e defeito – e eram vários – foram aproveitados para o tentar deitar abaixo.
 Do melhor que tive oportunidade de ler nos últimos tempos.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

A opinião de Miguel Cruz sobre "Habemus Bastard – Tomo 22", de de Schwartzmann e Vallée e "Un Putain de Salopard, Tome 4: Le Rituel", de Loisel e Pont

 


Habemus Bastard – Tomo 2

Há um pouco menos de um ano, pude dar aqui a minha opinião sobre Habemus Bastard Tomo 1 de Schwartzmann e Vallée, e nessa altura escrevi: “Veremos se o desenlace permitirá manter o excelente nível desta primeira parte…”. Não manteve, ultrapassou, na minha opinião o segundo tomo é ainda mais interessante e bem estruturado que o primeiro, talvez porque permite dar resposta a várias questões que ficavam em suspenso na primeira “entrega”.

Continuamos a acompanhar Lucien, homem de mão de um chefe de grupo criminoso, que se esconde por trás de uma batina/sotaina, depois de ter cometido um pequeno erro numa tarefa que lhe tinha sido encomendada pelo chefe.

Padre em Saint-Claude, Lucien começou, no tomo um a sua adaptação às suas tarefas e à sua nova vida, incluindo o desenvolvimento das suas relações com a comunidade local, com destaque para a mãe de um dos seus alunos de catequese, com a mulher que faz as limpezas na sua casa de função e lhe dá apoio diário, bem como com o seu filho – canal de acesso ao mercado de droga local, com o empreiteiro da região, responsável por algumas construções na vila e na igreja, com o seu invejoso colega de localidade próxima, e a uma pequena jovem que o apoio na missa, inteligente, órfã de mãe e com um pai mais dado ao consumo de bebidas no bar local. A isto vem-se juntar a visita de uma jovem do passado!

Apanhado no meio de uma disputa entre dois gangs, sendo um deles aquele para o qual trabalhou e que o procura, e o outro um gang rival que procura vingar uma morte, tentando eliminar um padre que, por azar, é aquele cuja batina Julien está a usar!

E vamos ter bastante ação, mas sempre com um humor que nos diverte e torna a leitura agradável e difícil de interromper.

Esta história vai num crescendo interessante, bem desenvolvido, com diálogos cortantes e uma narrativa magistralmente elaborada. O desenho de Vallée é excecional, ágil, apelativo, cinematográfico, marcante e reconhecível.

A ler e reler, e voltando a uma referência que fiz no anterior comentário, espero que esta bela edição da Dargaud (Tome 2: Un Coeur sous une Soutane) veja um dia a luz em versão portuguesa.





Un Putain de Salopard, Tome 4: Le Rituel

Vou traduzir para português o título desta série para “Um Filho da Mãe”. Outras traduções, se calhar mais adequadas, não seriam próprias para este texto!!!?

Escrever sobre o tomo 4 e último de “Un Putain de Salopard” constitui uma oportunidade de falar sobre uma excelente série, talvez das melhores que alguma vez li e que tive a oportunidade de apreciar das mais recentes.

A história é passada em território brasileiro, em plena selva da Amazónia, na década de 70, numa zona onde há apenas um agente da lei por muitos km quadrados. No caso, o nosso agente da lei (Régo) é 5 estrelas e dotado de um grande bom senso, se bem que um pouco estrábico…

Max regressa a este território de onde saiu com três anos, acompanhando a sua mãe, recentemente falecida, que nunca quis falar sobre o passado ou sobre as suas origens. Max não conhece o seu pai, e vem iniciar uma busca tendo como única pista duas fotografias de sua mãe com dois homens diferentes. Qual deles será o seu pai? E como encontrar esses homens?

A chegada de Max é simultânea com a de duas jovens enfermeiras, Christelle e Charlotte, que vão tomar conta do dispensário local, durante três meses. Os três vão ao encontro de Corinne (Sim, C-C-C), uma jovem que vive há alguns anos no local e que vai servir de base para os contactos necessários.

Neste território selvagem, a violência que nele grassa vai fazer com que Max acabe perdido na selva, acompanhado de Baia, uma jovem muda, que felizmente conhece a medicina das plantas e sabe desembaraçar-se na selva. Com tudo isto, os jovens vão enredar-se numa velha história de tráfico, de roubo e de rapto da jovem filha de Hermann que dirige com mão de ferro uma exploração mineira local, e que agora vive apenas para encontrar os restos mortais da sua filha, que se sabe morta num acidente de aviação. Nesse avião iam também os dois “candidatos” a pai de Max.

E pelo meio temos um verdadeiro e c*#r!o “filho da mãe” tal como é chamado logo no tomo 1 por Margarida, a proprietária “faz tudo” do bar “O Tucano” onde Corinne trabalha.

Enfim, tenho pouco espaço para descrever uma história rica de detalhes e de personagens, conduzida com mão de mestre por Regis Loisel, sempre convincente, interessante, entusiasmante, credível, com boa caracterização da generalidade dos “atores e atrizes” principais, e com excelentes diálogos. Apenas posso apontar uma ou outra incorreção nas tentativas de acrescentar palavras ou frases em português do Brasil, mas nada que tenha impacto na agradabilidade da leitura.

O grafismo de Olivier Pont é excelente, dinâmico, elegante, consistente ao longo dos 4 tomos, e as pranchas passadas no meio da selva são muito bem conseguidas sem exageros ou artifícios. As cores têm verdadeiro valor acrescentado. Bonito, agradável, excelentes sequências, qualidade narrativa total.
Quatro tomos de nível consistente, uma série IN-DIS-PEN-SÁVEL, de Loisel (Armazém Central, Peter Pan, Em Busca do Pássaro do Tempo) e de Pont (de que me recordo quando em 2004 publicou uma excelente série, “Où le Regard ne Porte Pas…”). Editado pela Rue de Sévres.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

A opinião de Miguel Cruz sobre "Les Évasions Perdues", de Legrand e Warzala e "M-A-D t.1", de Jarry e Legrain

Les Évasions Perdues

Editado pela Rue de Sévres, este é uma daquelas BD que pode passar despercebida, mas não o merece. Escrita pelo jornalista Thomas Legrand, e desenhado por François Warzala, esta BD pretende homenagear o pai do primeiro, através narração da vida daquele num campo de trabalho (um pouco à semelhança do que fez Tardi) durante a II Grande Guerra.

No entanto, ao contrário do que foi realizado por Tardi, a personagem central não é o pai de Legrand, mas uma personagem fictícia de nome Jacques Leboy. Não faço ideia de quais as reais razões para tal escolha, mas para mim a indicação é clara: tal permite uma liberdade grande, nomeadamente para dar uma maior amplitude à narrativa.

O desenho é muito inspirado na linha clara, e a leitura é muito fácil. 

O campo em causa, no leste da Europa, tinha características especiais: era um campo de (re)educação negociado entre os nazis alemães e as autoridades de Vichy para acolhimento dos aspirantes a oficiais do exército francês, com o objetivo de formar uma elite futura, com os necessários valores morais.

A narrativa é baseada no relato da situação e da vida do campo, num conjunto de evasões, ou melhor, de tentativas de evasão, mas essencialmente na abordagem, através da personagem principal e da sua relação com outros personagens no campo, aos valores morais em discussão, e numa crítica política ao colaboracionismo de Vichy.

Ou seja, efetivamente, não se pode dizer que estejamos perante uma aventura alucinantemente emocionante. Não. Estamos perante um documentário e uma crítica política interessante, um relato de um episódio histórico menos conhecido. Informativo. 




M-A-D t.1

Aí temos uma nova série de ficção científica. M-A-D foi anunciada como sendo uma série para três tomos, para já, veremos depois qual a reação do público. 

O tomo 1 tem o título de “Un Empire de Rouille”, ou seja, um império de ferrugem, o que é significativo para a caracterização do universo que começa nele a ser desenvolvido: corpos de metal que acolhem consciência humana, ou, numa visão mais crua, humanos aprisionados em corpos de robots. De facto, a base da história é a de que os humanos da época criam um exército de servidores que são efetivamente humanos, mas com corpos de robots. E acompanharam essa criação de um código que estabelece as regras básicas de obediência de seres “inferiores” aos seus “criadores”. E para garantir o adequado nível de subserviência, cada um destes “psybots” está ligado à consciência de um soldado humano, por sua vez adequadamente doutrinado.

É através desta relação de parceria permanente humano-psybot que se procura evitar uma consciência individual, um espírito crítico, e algum tipo de desobediência ou germe de revolta. Só que, por vezes, duas cabeças pensam melhor que uma… E esta aventura passa-se num período em que os humanos estão em elevado perigo de desaparecimento na sequência da sua guerra com os Organismos Artificiais Autónomos.

Trata-se de uma variação sobre temas bem conhecidos, com uma camada de modernidade, de atualidade, de preocupações recentes. Mas o exercício, pelo menos para já, veremos os outros tomos, mostra-se atraente, quer ao nível do desenho agradável e elegante, com boa composição de página e foco na ação, quer ao nível da narrativa, rigorosamente construída, credível, com uma boa profundidade de caracterização das personagens, e, repete-se, por enquanto, sem exageros nem moralismos fáceis.

Os autores Nicolas Jarry (argumento, sendo de dar nota de que este autor tem andado há uns anos por terras de anões, dragões, feiticeiros e ogres, e não apenas de ficção científica) e Thomas Legrain (desenho – haverá quem se recorde de “Sisco” uma sua interessante série que durou cerca de 10 anos), apresentam aqui um trabalho cuidado, bem pensado e que se encaixa bem nas preocupações que vamos tendo sobre alguma tecnologia e os limites da IA. Não é uma BD de ficção científica que transforme os cânones do género, mas constitui uma leitura agradável, inteligente e consistente.

Ah, já agora: M-A-D vem de Mechanical Assault Division. 71 páginas densas, editadas pela Lombard.




domingo, 8 de dezembro de 2024

A opinião de Miguel Cruz sobre "Omula et Rema: La Naissance d'un Empire - tome 2", de Sente e Jorge Miguel

 


Omula et Rema tome 2

Já o tinha referido e repito: Yves Sente é um daqueles autores que nos entregou já obras de grande qualidade. No entanto, a quantidade de trabalhos realizados leva-me a estar sempre de pé atrás quando publica uma nova BD. E também já o tinha referido antes: a razão pela qual resolvi entrar nesta “série” em dois tomos foi o facto de o desenho estar a cargo do nosso compatriota Jorge Miguel (eu sou Miguel Jorge, torna a coisa sempre divertida!).

Dito isto, a questão que qualquer um coloca é “e valeu a pena?”. Sim, valeu!

Comecemos pelo desenho: Realista, elegante, clássico, muito detalhe, excelente sequência narrativa, boas perspetivas, não se encontra um pormenor fora do sítio, cores luminosas e uma boa adequação entre a coloração e a evolução da história. Se algum reparo tenho a fazer tem a ver com o facto de me parecer que dada a densidade da história, talvez 3 em vez de dois tomos fosse melhor. No entanto, o desenhador faz um excelente trabalho com a matéria-prima que tem.

A história é interessante. Creio ter dito aqui que no final do tomo 1, de que tinha gostado, estava preocupado sobre a forma como a sequência se iria “desenvencilhar” das situações criadas. Neste tomo dois, os dois “mundos retratados no tomo 1 – um não terrestre, de onde provêm Omula e Rema (as irmãs gémeas que não o são, pois na civilização de que são originárias, eram realizadas cópias genéticas de cada um, just in case, e o outro terrestre, na antiguidade – vão se finalmente juntar. “Aterradas” na terra (!?) por acidente, as duas gémeas são tomadas por descendentes do rei Numitor. Ambiciosas, inteligentes e desembaraçadas, as “irmãs” acabam por alcançar os seus objetivos e recebem um vasto território para gerir. Infelizmente, as duas irmãs não são propriamente muito ligadas uma à outra, e a intriga, os rancores e a luta entre ambas leva a um fim razoavelmente previsível. Por aqui se vai percebendo o paralelo com os dois míticos fundadores de Roma: Romulo e Remo. 

Uma ideia de base interessante, apresentada com brio por Jorge Miguel, sendo que os elementos de ficção científica estão exclusivamente concentrados no tomo 1, sendo o tomo 2 um pouco mais clássico.

Uma obra de leitura recomendada e que foge ao tipo de trabalho que normalmente nos é apresentado por Yves Sente. O desenhador, esse, vai tendo créditos firmados no panorama da BD franco-belga. Editado pela Rue de Sévres.




sexta-feira, 25 de agosto de 2023

A opinião de Miguel Cruz sobre: "Le Dernier Quai", de Delestret e "Frontier", de Singelin

 


Le Dernier Quai

De vez em quando somos confrontados com uma BD difícil de classificar, e a que, se for de boa qualidade, temos o hábito de chamar uma pérola. E é precisamente sobre uma pequena pérola que vos quero falar: Le Dernier Quai. 

Nicolas Delestret é o responsável por esta BD e, para quem tenha lido alguns meus comentários anteriores, já me tinha agradavelmente surpreendido com uma outra BD chamada “La Maison aux Souvenirs”. Não é um autor de “grande público”, mas é um autor de qualidade, que constrói histórias muito bem estruturadas, poéticas e modernas para nichos de mercado. 

Sobre o desenho, num estilo semi-realista, muito delicado, em que as cabeças das personagens são tendencialmente arredondadas (há aqui traços de ligação a algum cinema de animação), nada a dizer de menos positivo. As cores são bem colocadas ao serviço dos diferentes momentos da narrativa, e a oposição luz-sombra demonstra um domínio gráfico de grande maturidade. Esta obra é de fácil leitura, pormenorizada no desenho e com uma composição de página muito atraente. A história é muito bem pensada, por forma a que o leitor vá, gradualmente, obtendo mais informação sobre as personagens e tentando adivinhar a relação entre elas.

O personagem principal é Émile, um simpático gerente de um hotel de charme muito especial, porque os clientes que ali chegam acabaram de deixar este mundo!! É um hotel purgatório, portanto, e este é o tema tratado com toda a doçura na BD. 

Todos os dias a rotina do nosso gerente de hotel é a mesma, o que nos dá a falsa ideia de que pouco haverá a contar. A chegada de três novos clientes ao hotel cria a base da narrativa, dividida em vários atos, cada um começando uma página inteira retratando o acesso ferroviário ao hotel, que nos permite ir conhecendo a história de cada um destes recém falecidos e, particularmente a sua relação com Émile. E é aí que, ao acontecer uma quebra da rotina, tudo se complica…

Só no final do livro é que conseguimos ter a resposta para as diversas questões que vão surgindo, conseguindo Delestret esconder bem o seu “jogo”. O/A leitor(a) que se quiser aventurar na “visita” a este hotel, deve começar por refletir bem sobre a capa que lhe é apresentada. Editado pela Bamboo.




Frontier

O título, tal como a capa, não deixam margens para dúvidas: trata-se de uma BD de Ficção Científica. Guillaume Singelin é um autor que tem trabalhado muito para o mercado norte-americano, e em guiões para cinema. Estamos num “território” para lá dos planetas do sistema solar – a “fronteira”.

Trata-se de uma boa BD, com um desenho muito detalhado, agradável à vista, cada “quadradinho” contendo uma miríade de pormenores e uma enorme quantidade de objetos, muito movimento e enorme expressividade. Apesar dos detalhes, a simplicidade de um desenho muito característico permite uma leitura muito agradável e até relaxante.

As cores estão bem, apenas pouco vibrantes num ou noutro ponto, mas parece ser intencional, para contrastar as tumultuosas páginas com a calma da leitura. As 190 páginas desta obra demoram muito tempo a ler, tal é a atenção que cada página nos suscita.

A história é bem trabalhada e a sequência narrativa muito boa, o autor constrói um universo coerente, procurando passar algumas mensagens éticas, por vezes simplistas, sem qualquer tom moralizador, mas criando uma profundidade de tratamento das personagens (com aspeto infantil, sem nariz, mas com caráter forte) que é de assinalar.

Ji-Soo, um espírito científico e um curioso do desconhecido, vendeu recentemente a sua empresa à Energy Solution, empresa com que ele não “simpatiza” o que o leva a uma aventura espacial, através da qual vai descobrir a exploração de outros planetas, através de uma recolha sistemática de recursos, com impactos ambientais significativos. Durante este seu périplo, Ji-Soo vai encontrar outras personagens (nomeadamente a aventureira Camina e o desenraizado Alex), todas elas com características e valor acrescentado em conhecimento, experiência de vida e opinião.

Uma das boas BD de 2023, na minha opinião, muito concentrada nas “pequenas coisas positivas” e, portanto, de leitura recomendável, apesar de, convém dizê-lo, o universo de ficção científica que lhe serve de base não seja extraordinariamente inovador nos seus pressupostos. A editora é a Rue de Sévres, através da sua chancela Label 619 que, mais uma vez, nos “entrega” uma obra cuidada, com excelente qualidade gráfica e editorial.