quinta-feira, 10 de setembro de 2026
A opinião de Miguel Cruz sobre "La langue des vipères", de Brocal e "Le Roy des Ribauds - T. 5: Livre V", de Brugeas, Toulhoat e Blanchard
quarta-feira, 22 de julho de 2026
A opinião de Miguel Cruz sobre "La Cuisine des Ogres - t. 2: Une vie de vaurien", de Vehlmann e Andréae e "Frankenstein", de David Sala
La Cuisine des Ogres - t. 2: Une vie de vaurien
Já aqui tinha falado do tomo 1 da “Cozinha dos Ogres”, quando pensava ser um one shot, impressionado pela solidez e fantasia do argumento (Fabien Vehlmann) e pela excecionalidade do desenho (Jean Baptiste Andréae), acompanhado de tons de coloração feéricos. Com Cuisine des Ogres - tome 2: Une vie de vaurien os autores aproveitam (claro!) o sucesso comercial do tomo 1, mas também consolidam um universo narrativo de rara riqueza, prosseguindo o trabalho de reinvenção do conto numa versão terrível, sombria e de realidade humana.
A personagem central do primeiro tomo já tinha tido o seu “ciclo de vida”, razão pela qual agora é explorada uma outra personagem (diríamos secundária): Brèche Dent (em português diríamos dente lascado), um gnomo com aquele ar muito típico do folclore bretão (lembrei-me agora de Fournier…), como podem ver na capa.
Toda a BD é centrada na escolha moral da personagem e no seu carácter: trair para ascender socialmente ou preservar a ética e a lealdade e aceitar um exílio temido. Inseguro, “apagadinho”, mas empático, B-Dent vai-se mostrar um verdadeiro e surpreendente resistente. Também neste tomo, os autores deleitam-se com uma crueldade por vezes divertida, quase sempre absurda.
No primeiro tomo, o espaço central era a cozinha e parte da aventura no espaço “aberto”. Desta vez, é o mundo exterior à cozinha que dá título à série a dominar. Em qualquer dos ambientes, o que nos chama imediatamente a atenção é a extraordinária qualidade gráfica, a delicadeza do tratamento moral e o grotesco fantástico do ambiente contextual. O ritmo da narrativa é muito dinâmico, tudo “é vivo”, os jogos de luz são notáveis, a experiência de leitura é imersiva.
Os diálogos são muito bem trabalhados, musicais, inteligentes, o que implica uma atenção de leitura que faz com que, apesar de ser um “page turner”, não seja uma leitura rápida.
Uma leitura agradável e recomendada, uma boa edição da Rue de Sévres, menos surpreendente que o primeiro tomo (como seria natural) mas não menos original, talvez um pouco menos emocional e linear que o primeiro, com uma estratégica abordagem de aprofundamento moral e talvez simbólica.
A capa, para mim é o ponto fraco, não porque não seja belíssima, mas porque, para quem não conheça a série, pode parecer exclusivamente infantil. Não o é certamente!
sexta-feira, 10 de julho de 2026
A opinião de Miguel sobre "Le Horla", de Paul e Gaëtan Brizzi e "Juste après la vague", de Monféry
Le Horla
A editora Futuropolis usa mais esta obra dos irmãos Brizzi (Paul e Gaëtan) para lançar uma nova coleção: La Bibliothèque Fantastique, um projeto editorial que visa adaptar, num ritmo anual, grandes textos do fantástico europeu. Os irmãos Brizzi lançaram-se então a um texto de Maupassant, que eu, ó ignorante miserável, nem conhecia, mas que, depois de o ler em BD (os meus pais, coitados, muito teriam a dizer sobre isto), direi que é difícil de ultrapassar em fantástico e sobrenatural.
Uma excelente, densa, mas bastante legível BD, sobre a qual não consigo elogiar as qualidades de adaptação, mas que retrata bem o invisível (como aliás é destacado na abordagem comercial da editora), que retrata bem o medo.
A narrativa é baseada num diário, logo, numa narração de acontecimentos por parte de alguém que se vai afastando cada vez mais da realidade e da estabilidade psicológica. As sensações, o “invisível” as “inquietudes” são o centro da narração nesta BD: o que é realidade e o que é resultado da deriva psicológica do narrador?
Como já é hábito no trabalho de Paul e Gaetan, a BD é a preto e mais preto e ainda mais preto, cinzento e branco, com muitos jogos de luz e trabalhos de sombras. A atmosfera criada pelo desenho é permanentemente inquietante, desafiadora. A sugestão, num contexto opressivo, é o elemento essencial.
Sabemos bem o envolvimento em projetos cinematográficos dos autores particularmente de um dos irmãos e na consequência que isso tem na estrutura do trabalho a duas cabeças e a quatro mãos (enfim, assumindo tanto quanto me recordo – que ambos são destros, a duas mãos…!). E está bem assim, pois a influência cinematográfica ajuda na fluidez da leitura.
Le Horla dos irmãos Brizzi é, assim, um caso sério de rigor e de escolhas, que se destaca pela tentativa bem conseguida, argumentarei - de traduzir visualmente um estado psicológico.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
A opinião de Miguel Cruz sobre "La guerra de Audrey, de Rúbio e Aroca e "Tourner la Page", de Zep
La guerra de Audrey
Uma curiosidade que encontrei numa livraria em Espanha: La guerra de Audrey, da Planeta Cómic, editada em 2025, de Salva Rúbio (argumento) e desenho de Loreto Aroca.
Uma novela gráfica de pequeno formato, mas com 150 páginas que romanceia a infância e adolescência de Audrey Hepburn durante a Segunda Guerra Mundial, quando viveu nos Países Baixos ocupados pelos nazis, após uma decisão familiar de escapar de Londres para fugir dos bombardeamentos, conjugada com uma má avaliação de que os Nazis não invadiriam a Holanda… afinal a raça é a mesma.
Na Holanda, Audrey vive anos de fome extrema, medo constante e repressão, e “agarra-se” à vontade de dançar e de aprender a dançar como forma de refúgio, sobrevivência e de objetivo de vida.
A narrativa tem uma forte base documental e histórica, e uma abordagem intimista e emocional, centrada na experiência de uma criança, sem heroísmos artificiais, sem aventura e eventos forçados, mas focada na empatia. E acho que, o exercício é bem conseguido. O desenho é sensível, elegante e expressivo, a cor é bem usada para explorar emoções e o lado humano dos acontecimentos. Bem documentado, com rigor histórico, apesar de evitar espetacularidade, ou qualquer aprofundamento de eventos da guerra. A mãe de Audrey vai fazendo avaliações erradas atrás de avaliações erradas: a mudança para a Holanda, a confraternização com o ocupante…
A história não me era conhecida e é a base para uma narrativa envolvente, embora muito contida, clássica e com uma limitada abordagem aos acontecimentos envolventes e muito centrada na personagem central, com pouca profundidade no tratamento das personagens secundárias.
Uma leitura simpática, agradável, simples, com bom impacto humano e uma curiosidade biográfica sobre uma das mais amadas atrizes de cinema.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
A opinião de Miguel Cruz sobre "La Dernière Maison Juste Avant la Forêt", de Loisel e Djian e "La Danseuse aux Dents Noires", de Stalner e O. Truc
La Dernière Maison Juste Avant la Forêt
Muito me entusiasmei quando soube, já há alguns meses, de que iríamos ter uma nova BD com Loisel “ao desenho”. Já há uns anitos que não tínhamos o gosto de ver uma BD desenhada por Loisel e há mais ainda com Loisel sozinho no desenho – importa recordar que Magasin Général (Armazém Central em Português) foi realizado em conjunto com Jean-Louis Tripp e o último tomo em francês foi editado em 2014.
O/a leitor/a eu não sei… Eu sou fã do desenho que pudemos ver em Peter Pan ou em La Quête de L’Oiseau du Temps. Logo, repito-me, fiquei satisfeito com a notícia, e assim que a BD chegou às livrarias, lá estava eu. Isto apesar de ser uma edição “pesada” seja na carteira seja literalmente, como resultado do formato, da capa e das mais de 160 páginas. Edição Rue de Sèvres.
A Última Casa mesmo antes da Floresta tem argumento de Régis Loisel e de Jean-Blaise Djian, desenho de (repito-me outra vez) Loisel e cores de Bruno Tatti.
Entretanto já li o “calhamaço” e fiquei sem saber o que diga! Surpreendente é. Difícil de classificar, certamente. Com grande tristeza minha, não percebi a intenção. Vamos admitir que é um divertimento de vaudeville, uma sequência de trapalhadas contadas com humor. Achei pontualmente divertido, por vezes ternurento, mas no essencial nem me moveu nem me convenceu. Que raio, Loisel é daqueles em relação aos quais sou fã incondicional. Algumas pranchas são tão escuras que prejudica a legibilidade. Enfim, é a vida. Acontece. Veni, Vidi, mas desta vez não Vinci. Ah, já agora, também não gostei muito da capa.
As primeiras páginas são muito interessantes, e o desenho corresponde às expectativas. Pierrot é carteiro, simpático, bem apreciado pelas pessoas, acha-se irresistível – afinal, quando se vê ao espelho, é um belo rapaz – e não compreende a reação das mulheres quando o vêm. Nós que o vamos vendo percebemos a realidade, e ficamos intrigados por aquela imagem no espelho.
A determinada altura, Pierrot desloca-se para casa dos pais para passar uns dias, na altura do 14 de julho. E a casa é, efetivamente, a última casa mesmo antes da floresta. À sua frente vai uma rapariga que Pierrot acha ter as mesmas feições da sua amada – mas não é, é uma jovem que a sua mãe contratou para fazer pirraça ao seu pai. Ah, já agora, a mãe de Pierrot é uma espécie de “bruxa” que não apenas lançou o feitiço que faz com que o reflexo no espelho seja belo, como transformou os seus empregados numas criaturas estranhas (visíveis na capa) que habitam o fundo do poço. Ah, sim, e transformou o seu marido e pai de Pierrot numa estátua sem braços nem pernas, mas falante.
E para culminar o todo, no meio do frondoso jardim há uma estufa com plantas carnívoras, que servem para resolver o problema de alguns curiosos. Os acontecimentos são absurdos e tudo se desenrola a um ritmo absolutamente desconcertante com situações encadeadas e contadas com mão de mestre. O desenho é, na maioria das páginas absolutamente fantástico de expressividade e detalhe. Algumas das personagens são atrativas, gosto de Coin-Coin, o pato boia na banheira de Pierrot, uma espécie de grilo falante de borracha. O universo é criado de uma forma coerente. Mas toda a história é negra, agressiva, com momentos desagradáveis. Reconheço a qualidade narrativa, e a qualidade do desenho, mesmo estando à vontade para dizer não ser dos melhores trabalhos que já vi.
Mas direi que será apenas para um público limitado. Não foi para mim!
terça-feira, 4 de novembro de 2025
A opinião de Miguel Cruz sobre "Banana Story - t.1/2: L'ascension, de Manini e Park e "Le Grizzli T. 2: Une Haleine de Cadavre", de Matz e Simon
Banana Story t.1/2 - L'ascension
O título é muito direto. Um jovem, de nome Samuel sobrevive a um Pogrom na Roménia, mas fica sozinho com a morte dos seus pais, tomando a decisão de embarcar em direção a Nova York, onde um seu tio habita há já alguns anos. A viagem faz-se sem problemas de maior, mas o seu tio já não faz parte do mundo dos vivos. Não conseguindo arranjar emprego, acaba por embarcar clandestinamente em direção à Guatemala, perseguindo o seu sonho de trabalhar no negócio da banana. Tommy é outro clandestino a bordo, e as peripécias que vão viver selam uma amizade e uma união de futuro.
Na Guatemala vão trabalhar para a empresa americana que explora o país, e acabam a fazer amizade com a jovem Jimena, filha de um cultivador (ainda) independente. Este trio vai acabar por fazer o seu caminho no negócio das bananas, deixando, no entanto, marcas diversas no seu percurso. Os detalhes sobre as oportunidades de negócios, a crueza na abordagem à exploração dos recursos naturais dos países da América Central e do Sul, a exploração de mão de obra barata, tudo isso tem interesse nesta BD. As diferenças de perspetivas entre os três jovens é, aliás, bem explorada. Samuel o visionário, com poucos escrúpulos, mas uma enorme capacidade de farejar novas oportunidades de negócios. Tommy, um sonhador sempre dominado pelas preocupações sociais, a justiça e a coesão de grupo. Os dois jovens partilham uma história, um passado e uma solidariedade que os mantém juntos, mas é duvidoso que partilhem uma ideia de futuro. Têm, ainda, em comum, a paixão por Jimena. Esta, por sua vez, é a pacificadora, a profissional financeira e a imagem do bom senso.
Este primeiro tomo termina, precisamente, no auge das divergências entre os dois amigos. Com alguma base em eventos reais, esta aventura está prevista em dois tomos, e é editada pela Rue de Sévres.
O argumento é bem estruturado, os diálogos e as situações são interessantes, apesar de haver alguns pontos em que há saltos narrativos de natureza expedita. Isso não prejudica a leitura, e reconheço que muito acontece e muito nos captura a atenção ao longo de 120 páginas deste primeiro tomo. O texto e storyboard foram desenvolvidos por Jack Manini, um bem conhecido autor francófono, mas que creio que em português tem apenas duas participações, uma em Go West Young Man e na “recolha” Uderzo visto pelos seus amigos, e em ambos os casos com desenho.
O desenho é do Coreano Kyung Eun Park, que nos entrega uma estruturação de páginas e um desenho muito interessante, clássicos, cinematográficos, e muito legível e luminoso. Um bom exercício, contrastando imagens de espaços abertos e da natureza, com imagens de proximidade, centradas nas personagens, num desenho realista, com personagens fáceis de identificar.
Uma boa leitura e um primeiro tomo que nos abre o apetite para a sequência, embora possa estragar o apetite para bananas.
quarta-feira, 21 de maio de 2025
A opinião de Miguel Cruz sobre "Gone with the Wind", de Alary e "Last on His Feet", de Matejka e Daoudi
quinta-feira, 24 de abril de 2025
A opinião de Miguel Cruz sobre "Habemus Bastard – Tomo 22", de de Schwartzmann e Vallée e "Un Putain de Salopard, Tome 4: Le Rituel", de Loisel e Pont
Habemus Bastard – Tomo 2
Há um pouco menos de um ano, pude dar aqui a minha opinião sobre Habemus Bastard Tomo 1 de Schwartzmann e Vallée, e nessa altura escrevi: “Veremos se o desenlace permitirá manter o excelente nível desta primeira parte…”. Não manteve, ultrapassou, na minha opinião o segundo tomo é ainda mais interessante e bem estruturado que o primeiro, talvez porque permite dar resposta a várias questões que ficavam em suspenso na primeira “entrega”.
Continuamos a acompanhar Lucien, homem de mão de um chefe de grupo criminoso, que se esconde por trás de uma batina/sotaina, depois de ter cometido um pequeno erro numa tarefa que lhe tinha sido encomendada pelo chefe.
Padre em Saint-Claude, Lucien começou, no tomo um a sua adaptação às suas tarefas e à sua nova vida, incluindo o desenvolvimento das suas relações com a comunidade local, com destaque para a mãe de um dos seus alunos de catequese, com a mulher que faz as limpezas na sua casa de função e lhe dá apoio diário, bem como com o seu filho – canal de acesso ao mercado de droga local, com o empreiteiro da região, responsável por algumas construções na vila e na igreja, com o seu invejoso colega de localidade próxima, e a uma pequena jovem que o apoio na missa, inteligente, órfã de mãe e com um pai mais dado ao consumo de bebidas no bar local. A isto vem-se juntar a visita de uma jovem do passado!
Apanhado no meio de uma disputa entre dois gangs, sendo um deles aquele para o qual trabalhou e que o procura, e o outro um gang rival que procura vingar uma morte, tentando eliminar um padre que, por azar, é aquele cuja batina Julien está a usar!
E vamos ter bastante ação, mas sempre com um humor que nos diverte e torna a leitura agradável e difícil de interromper.
Esta história vai num crescendo interessante, bem desenvolvido, com diálogos cortantes e uma narrativa magistralmente elaborada. O desenho de Vallée é excecional, ágil, apelativo, cinematográfico, marcante e reconhecível.
A ler e reler, e voltando a uma referência que fiz no anterior comentário, espero que esta bela edição da Dargaud (Tome 2: Un Coeur sous une Soutane) veja um dia a luz em versão portuguesa.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2024
A opinião de Miguel Cruz sobre "Les Évasions Perdues", de Legrand e Warzala e "M-A-D t.1", de Jarry e Legrain
Les Évasions Perdues
No entanto, ao contrário do que foi realizado por Tardi, a personagem central não é o pai de Legrand, mas uma personagem fictícia de nome Jacques Leboy. Não faço ideia de quais as reais razões para tal escolha, mas para mim a indicação é clara: tal permite uma liberdade grande, nomeadamente para dar uma maior amplitude à narrativa.
O desenho é muito inspirado na linha clara, e a leitura é muito fácil.
O campo em causa, no leste da Europa, tinha características especiais: era um campo de (re)educação negociado entre os nazis alemães e as autoridades de Vichy para acolhimento dos aspirantes a oficiais do exército francês, com o objetivo de formar uma elite futura, com os necessários valores morais.
A narrativa é baseada no relato da situação e da vida do campo, num conjunto de evasões, ou melhor, de tentativas de evasão, mas essencialmente na abordagem, através da personagem principal e da sua relação com outros personagens no campo, aos valores morais em discussão, e numa crítica política ao colaboracionismo de Vichy.
Ou seja, efetivamente, não se pode dizer que estejamos perante uma aventura alucinantemente emocionante. Não. Estamos perante um documentário e uma crítica política interessante, um relato de um episódio histórico menos conhecido. Informativo.
M-A-D t.1
Aí temos uma nova série de ficção científica. M-A-D foi anunciada como sendo uma série para três tomos, para já, veremos depois qual a reação do público.
O tomo 1 tem o título de “Un Empire de Rouille”, ou seja, um império de ferrugem, o que é significativo para a caracterização do universo que começa nele a ser desenvolvido: corpos de metal que acolhem consciência humana, ou, numa visão mais crua, humanos aprisionados em corpos de robots. De facto, a base da história é a de que os humanos da época criam um exército de servidores que são efetivamente humanos, mas com corpos de robots. E acompanharam essa criação de um código que estabelece as regras básicas de obediência de seres “inferiores” aos seus “criadores”. E para garantir o adequado nível de subserviência, cada um destes “psybots” está ligado à consciência de um soldado humano, por sua vez adequadamente doutrinado.
É através desta relação de parceria permanente humano-psybot que se procura evitar uma consciência individual, um espírito crítico, e algum tipo de desobediência ou germe de revolta. Só que, por vezes, duas cabeças pensam melhor que uma… E esta aventura passa-se num período em que os humanos estão em elevado perigo de desaparecimento na sequência da sua guerra com os Organismos Artificiais Autónomos.
Trata-se de uma variação sobre temas bem conhecidos, com uma camada de modernidade, de atualidade, de preocupações recentes. Mas o exercício, pelo menos para já, veremos os outros tomos, mostra-se atraente, quer ao nível do desenho agradável e elegante, com boa composição de página e foco na ação, quer ao nível da narrativa, rigorosamente construída, credível, com uma boa profundidade de caracterização das personagens, e, repete-se, por enquanto, sem exageros nem moralismos fáceis.
Os autores Nicolas Jarry (argumento, sendo de dar nota de que este autor tem andado há uns anos por terras de anões, dragões, feiticeiros e ogres, e não apenas de ficção científica) e Thomas Legrain (desenho – haverá quem se recorde de “Sisco” uma sua interessante série que durou cerca de 10 anos), apresentam aqui um trabalho cuidado, bem pensado e que se encaixa bem nas preocupações que vamos tendo sobre alguma tecnologia e os limites da IA. Não é uma BD de ficção científica que transforme os cânones do género, mas constitui uma leitura agradável, inteligente e consistente.
Ah, já agora: M-A-D vem de Mechanical Assault Division. 71 páginas densas, editadas pela Lombard.
domingo, 8 de dezembro de 2024
A opinião de Miguel Cruz sobre "Omula et Rema: La Naissance d'un Empire - tome 2", de Sente e Jorge Miguel
Omula et Rema tome 2
Já o tinha referido e repito: Yves Sente é um daqueles autores que nos entregou já obras de grande qualidade. No entanto, a quantidade de trabalhos realizados leva-me a estar sempre de pé atrás quando publica uma nova BD. E também já o tinha referido antes: a razão pela qual resolvi entrar nesta “série” em dois tomos foi o facto de o desenho estar a cargo do nosso compatriota Jorge Miguel (eu sou Miguel Jorge, torna a coisa sempre divertida!).
Dito isto, a questão que qualquer um coloca é “e valeu a pena?”. Sim, valeu!
Comecemos pelo desenho: Realista, elegante, clássico, muito detalhe, excelente sequência narrativa, boas perspetivas, não se encontra um pormenor fora do sítio, cores luminosas e uma boa adequação entre a coloração e a evolução da história. Se algum reparo tenho a fazer tem a ver com o facto de me parecer que dada a densidade da história, talvez 3 em vez de dois tomos fosse melhor. No entanto, o desenhador faz um excelente trabalho com a matéria-prima que tem.
A história é interessante. Creio ter dito aqui que no final do tomo 1, de que tinha gostado, estava preocupado sobre a forma como a sequência se iria “desenvencilhar” das situações criadas. Neste tomo dois, os dois “mundos retratados no tomo 1 – um não terrestre, de onde provêm Omula e Rema (as irmãs gémeas que não o são, pois na civilização de que são originárias, eram realizadas cópias genéticas de cada um, just in case, e o outro terrestre, na antiguidade – vão se finalmente juntar. “Aterradas” na terra (!?) por acidente, as duas gémeas são tomadas por descendentes do rei Numitor. Ambiciosas, inteligentes e desembaraçadas, as “irmãs” acabam por alcançar os seus objetivos e recebem um vasto território para gerir. Infelizmente, as duas irmãs não são propriamente muito ligadas uma à outra, e a intriga, os rancores e a luta entre ambas leva a um fim razoavelmente previsível. Por aqui se vai percebendo o paralelo com os dois míticos fundadores de Roma: Romulo e Remo.
Uma ideia de base interessante, apresentada com brio por Jorge Miguel, sendo que os elementos de ficção científica estão exclusivamente concentrados no tomo 1, sendo o tomo 2 um pouco mais clássico.
Uma obra de leitura recomendada e que foge ao tipo de trabalho que normalmente nos é apresentado por Yves Sente. O desenhador, esse, vai tendo créditos firmados no panorama da BD franco-belga. Editado pela Rue de Sévres.
sexta-feira, 25 de agosto de 2023
A opinião de Miguel Cruz sobre: "Le Dernier Quai", de Delestret e "Frontier", de Singelin
Le Dernier Quai
De vez em quando somos confrontados com uma BD difícil de classificar, e a que, se for de boa qualidade, temos o hábito de chamar uma pérola. E é precisamente sobre uma pequena pérola que vos quero falar: Le Dernier Quai.
Nicolas Delestret é o responsável por esta BD e, para quem tenha lido alguns meus comentários anteriores, já me tinha agradavelmente surpreendido com uma outra BD chamada “La Maison aux Souvenirs”. Não é um autor de “grande público”, mas é um autor de qualidade, que constrói histórias muito bem estruturadas, poéticas e modernas para nichos de mercado.
Sobre o desenho, num estilo semi-realista, muito delicado, em que as cabeças das personagens são tendencialmente arredondadas (há aqui traços de ligação a algum cinema de animação), nada a dizer de menos positivo. As cores são bem colocadas ao serviço dos diferentes momentos da narrativa, e a oposição luz-sombra demonstra um domínio gráfico de grande maturidade. Esta obra é de fácil leitura, pormenorizada no desenho e com uma composição de página muito atraente. A história é muito bem pensada, por forma a que o leitor vá, gradualmente, obtendo mais informação sobre as personagens e tentando adivinhar a relação entre elas.
O personagem principal é Émile, um simpático gerente de um hotel de charme muito especial, porque os clientes que ali chegam acabaram de deixar este mundo!! É um hotel purgatório, portanto, e este é o tema tratado com toda a doçura na BD.
Todos os dias a rotina do nosso gerente de hotel é a mesma, o que nos dá a falsa ideia de que pouco haverá a contar. A chegada de três novos clientes ao hotel cria a base da narrativa, dividida em vários atos, cada um começando uma página inteira retratando o acesso ferroviário ao hotel, que nos permite ir conhecendo a história de cada um destes recém falecidos e, particularmente a sua relação com Émile. E é aí que, ao acontecer uma quebra da rotina, tudo se complica…
Só no final do livro é que conseguimos ter a resposta para as diversas questões que vão surgindo, conseguindo Delestret esconder bem o seu “jogo”. O/A leitor(a) que se quiser aventurar na “visita” a este hotel, deve começar por refletir bem sobre a capa que lhe é apresentada. Editado pela Bamboo.










































