quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "La Dernière Maison Juste Avant la Forêt", de Loisel e Djian e "La Danseuse aux Dents Noires", de Stalner e O. Truc


La Dernière Maison Juste Avant la Forêt

Muito me entusiasmei quando soube, já há alguns meses, de que iríamos ter uma nova BD com Loisel “ao desenho”. Já há uns anitos que não tínhamos o gosto de ver uma BD desenhada por Loisel e há mais ainda com Loisel sozinho no desenho – importa recordar que Magasin Général (Armazém Central em Português) foi realizado em conjunto com Jean-Louis Tripp e o último tomo em francês foi editado em 2014.

O/a leitor/a eu não sei… Eu sou fã do desenho que pudemos ver em Peter Pan ou em La Quête de L’Oiseau du Temps. Logo, repito-me, fiquei satisfeito com a notícia, e assim que a BD chegou às livrarias, lá estava eu. Isto apesar de ser uma edição “pesada” seja na carteira seja literalmente, como resultado do formato, da capa e das mais de 160 páginas. Edição Rue de Sèvres.

A Última Casa mesmo antes da Floresta tem argumento de Régis Loisel e de Jean-Blaise Djian, desenho de (repito-me outra vez) Loisel e cores de Bruno Tatti.

Entretanto já li o “calhamaço” e fiquei sem saber o que diga! Surpreendente é. Difícil de classificar, certamente. Com grande tristeza minha, não percebi a intenção. Vamos admitir que é um divertimento de vaudeville, uma sequência de trapalhadas contadas com humor. Achei pontualmente divertido, por vezes ternurento, mas no essencial nem me moveu nem me convenceu. Que raio, Loisel é daqueles em relação aos quais sou fã incondicional. Algumas pranchas são tão escuras que prejudica a legibilidade. Enfim, é a vida. Acontece. Veni, Vidi, mas desta vez não Vinci. Ah, já agora, também não gostei muito da capa.

As primeiras páginas são muito interessantes, e o desenho corresponde às expectativas. Pierrot é carteiro, simpático, bem apreciado pelas pessoas, acha-se irresistível – afinal, quando se vê ao espelho, é um belo rapaz – e não compreende a reação das mulheres quando o vêm. Nós que o vamos vendo percebemos a realidade, e ficamos intrigados por aquela imagem no espelho. 

A determinada altura, Pierrot desloca-se para casa dos pais para passar uns dias, na altura do 14 de julho. E a casa é, efetivamente, a última casa mesmo antes da floresta. À sua frente vai uma rapariga que Pierrot acha ter as mesmas feições da sua amada – mas não é, é uma jovem que a sua mãe contratou para fazer pirraça ao seu pai. Ah, já agora, a mãe de Pierrot é uma espécie de “bruxa” que não apenas lançou o feitiço que faz com que o reflexo no espelho seja belo, como transformou os seus empregados numas criaturas estranhas (visíveis na capa) que habitam o fundo do poço. Ah, sim, e transformou o seu marido e pai de Pierrot numa estátua sem braços nem pernas, mas falante. 

E para culminar o todo, no meio do frondoso jardim há uma estufa com plantas carnívoras, que servem para resolver o problema de alguns curiosos. Os acontecimentos são absurdos e tudo se desenrola a um ritmo absolutamente desconcertante com situações encadeadas e contadas com mão de mestre. O desenho é, na maioria das páginas absolutamente fantástico de expressividade e detalhe. Algumas das personagens são atrativas, gosto de Coin-Coin, o pato boia na banheira de Pierrot, uma espécie de grilo falante de borracha. O universo é criado de uma forma coerente. Mas toda a história é negra, agressiva, com momentos desagradáveis. Reconheço a qualidade narrativa, e a qualidade do desenho, mesmo estando à vontade para dizer não ser dos melhores trabalhos que já vi. 

Mas direi que será apenas para um público limitado. Não foi para mim!




La Danseuse aux Dents Noires

Com a bailarina de dentes negros, temos um grande regresso às obras mais comerciais do desenhador Eric Stalner, numa edição muito cuidada da Dupuis, na sua coleção Aire Noire.

Esta BD vem romancear as aventuras reais do professor Hermentaire Truc, sendo o argumento escrito pelos seus descendentes Olivier Truc e Jean-Laurent Truc (Truc e Truc, portanto), que aproveitam também para nos apresentar no final da BD um dossier histórico e familiar muito interessante.

O Professor Truc, uma sumidade francesa no domínio da oftalmologia da época, é contactado para se deslocar ao Camboja para operar o Rei que sofre de cataratas. Se é fácil de perceber que uma operação às cataratas naquela época não constituía tarefa simples, agora imaginem a pressão diplomática associada a esta tarefa arriscada, numa época em que a posição pró-francesa do rei é muito contestada, inclusivamente no seio da sua família, e vários países se posicionam para ocupar o papel relevante de apoio à gestão do país. A isso acrescentemos ainda um Rei medroso, uns monges que têm de dar luz verde a qualquer intervenção no seu Rei, tentativas de sabotagem, ameaças e uma dançarina preferida do Rei, cujo papel e influência não são fáceis de perceber ou interpretar.

O assassinato do assistente do professor, e as suas hesitações de consciência, após começar a ter uma noção das desigualdades sociais no país e do papel do comércio do ópio, concedem maior densidade a esta história.

Uma história muito interessante, exótica, surpreendente, que nos capta a atenção, simples de seguir, mas difícil de julgar. Tal como o professor, também nós leitores ficamos profundamente divididos sobre qual o desenlace que preferimos para uma história aparentemente simples.

O desenho é delicioso, o desenhador aproveita a oportunidade para desenvolver imagens sumptuosas do Camboja da época, dos animais locais, de uma vida que não o sendo, nos aparece mais real que a realidade.

Um excelente momento de leitura, didático, certamente, mas profundo e agradável. A ler sem falta. Já agora, os dentes negros têm, naturalmente um significado. Eram sinais de beleza e de posição social, e resultavam da aplicação de uma mistura que tingia os dentes, mas que, aparentemente, pretendia também servir para os proteger.

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