Desde logo fomos surpreendidos pela capa e por algumas imagens do interior, que pareciam ser bordadas. No Festival Amadora BD tivemos a oportunidade de ver que eram MESMO bordadas, pois uma das exposições era precisamente dedicada a esta obra e as pranchas originais estavam ali para os nossos incrédulos olhos verem a magnífica arte da autora Bea Lema.
Corpo de Cristo, livro editado pela Iguana, é uma novela gráfica autobiográfica, da autora galega e que retrata a sua experiência de crescer com uma mãe afectada por uma grave doença mental. A protagonista, Vera, alter-ego da autora, transmite-nos um relato intimista, que tanto passa pelas suas memórias da infância como pela tomada de consciência já na idade adulta. Esse relato situa a história num contexto muito desfavorável para o acompanhamento da doença da sua progenitora. Um meio social rural, de pobreza, catolicismo e crenças populares, ignorância, superstições e preconceitos e uma total ausência de respostas institucionais eficazes.
Um dos eixos centrais da narrativa é a representação da doença mental como algo incompreendido e estigmatizado. A mãe de Vera é vista, sobretudo na infância da narradora, como alguém “possuído”, “amaldiçoado” ou dominado por forças externas. Portanto, exorcismos e rezas, eram realizados com vista a uma cura de uma doença que não se ousava nomear por ser tabu ou por nem se saber classificar.
Ano após ano os familiares vão tentando um pouco de tudo e iniciam-se finalmente as consultas com psiquiatras até chegar a um diagnóstico.
Os traumas da mãe são profundos e o sofrimento que isso traz à família, também. Porém, não se pense que no relato da autora há ressentimento. Apesar da violência psicológica que é viver com uma pessoa com doença mental, e da relação entre a Vera e a mãe ser marcada por medo e imprevisibilidade, culpa e responsabilidade precoce, em todo o livro se nota a infinita paciência, ternura e o amor incondicional da filha pela mãe.
A par da narrativa, sem dúvida que um dos aspetos mais inovadores é a integração do bordado manual e técnicas de costura nas páginas. Este recurso original evoca o trabalho doméstico e tradicionalmente feminino e funciona na perfeição como uma metáfora da história: costurar, remendar, insistir. Visualmente, impactante e delicado ao mesmo tempo, a autora vai alternando entre imagens mais infantis e outras mais densas que retratam o estado psicológico da narradora.
Esta originalidade de usar o bordado como recurso artístico não é por acaso e se lerem o livro, vão perceber o porquê desta opção. Vão constatar que faz todo o sentido.





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