Le Horla
A editora Futuropolis usa mais esta obra dos irmãos Brizzi (Paul e Gaëtan) para lançar uma nova coleção: La Bibliothèque Fantastique, um projeto editorial que visa adaptar, num ritmo anual, grandes textos do fantástico europeu. Os irmãos Brizzi lançaram-se então a um texto de Maupassant, que eu, ó ignorante miserável, nem conhecia, mas que, depois de o ler em BD (os meus pais, coitados, muito teriam a dizer sobre isto), direi que é difícil de ultrapassar em fantástico e sobrenatural.
Uma excelente, densa, mas bastante legível BD, sobre a qual não consigo elogiar as qualidades de adaptação, mas que retrata bem o invisível (como aliás é destacado na abordagem comercial da editora), que retrata bem o medo.
A narrativa é baseada num diário, logo, numa narração de acontecimentos por parte de alguém que se vai afastando cada vez mais da realidade e da estabilidade psicológica. As sensações, o “invisível” as “inquietudes” são o centro da narração nesta BD: o que é realidade e o que é resultado da deriva psicológica do narrador?
Como já é hábito no trabalho de Paul e Gaetan, a BD é a preto e mais preto e ainda mais preto, cinzento e branco, com muitos jogos de luz e trabalhos de sombras. A atmosfera criada pelo desenho é permanentemente inquietante, desafiadora. A sugestão, num contexto opressivo, é o elemento essencial.
Sabemos bem o envolvimento em projetos cinematográficos dos autores particularmente de um dos irmãos e na consequência que isso tem na estrutura do trabalho a duas cabeças e a quatro mãos (enfim, assumindo tanto quanto me recordo – que ambos são destros, a duas mãos…!). E está bem assim, pois a influência cinematográfica ajuda na fluidez da leitura.
Le Horla dos irmãos Brizzi é, assim, um caso sério de rigor e de escolhas, que se destaca pela tentativa bem conseguida, argumentarei - de traduzir visualmente um estado psicológico.


Juste après la vague
Com Juste après la vague (Logo após a vaga), Dominique Monféry propõe uma adaptação particularmente intensa do romance de Sandrine Collette, transformando um relato de catástrofe global num drama profundamente íntimo. Entre distopia ecológica e tragédia familiar, a obra articula duas dimensões complementares: a luta pela sobrevivência num mundo submerso e a violência moral das escolhas impostas por essa mesma sobrevivência (desde logo a escolha de uma mãe em relação aos seus filhos).
O ponto de partida é brutal na sua simplicidade: uma vaga gigantesca devastou o planeta, reduzindo-o a uma dispersão de ilhéus isolados. Uma família numerosa sobrevive num promontório rochoso, mas a subida contínua das águas torna inevitável a fuga. O problema é insolúvel: há apenas uma barca, incapaz de transportar todos. A decisão dos pais abandonar três dos filhos para salvar os restantes constitui o núcleo trágico da narrativa.
A força da obra reside na forma como transforma um cenário pós apocalíptico num estudo psicológico e ético. A catástrofe está presente, mas pouco se vê, funciona sobretudo como contexto: o verdadeiro foco são as relações familiares e a violência íntima das decisões.
Dominique Monféry, com uma longa experiência no cinema de animação transporta para a banda desenhada uma narrativa visual quase a 3D, com um desenho e uma gestão de cores, que reforçam a “espessura” das páginas.
Os enquadramentos são quase sempre amplos, procurando destacar a desolação, e a solidão das personagens, o que é reforçado pela expressividade dos rostos. A composição de página muito variável dá uma boa imagem do caos que se pretende retratar.
A águia é o elemento dominante e o uso de aguarelas ajuda a dar uma credibilidade à situação, o que se torna distintivo neste trabalho, onde poucas palavras são usadas.
Uma leitura intensa, mas interessante, sofisticada e marcante.
Editado pela Rue de Sévres.
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