Cartagena
Acho que nenhum de nós, apreciadores de Banda Desenhada, já se conseguiu habituar ao desaparecimento do grande mestre Hermann. Tal como referi aquando da morte do autor em março, uma última obra tinha sido concluída embora ainda não editada. Foi-o agora recentemente pela Lombard. Cartagena é, pois, o último trabalho de Hermann (com o seu filho Yves H).
Trata-se de um one shot violento e fatalista, consistente com as abordagens recentes do autor, incluindo na sua série Jeremiah.
A história é passada num território mexicano onde o narcotráfico é um negócio em destaque, e nela surgem duas personagens Alvi e Félix, o primeiro um jovem sem grande futuro ou oportunidades que decide prestar uns serviços a um cartel e o segundo um polícia que tudo faz para combater o negócio da droga.
A história não é substancialmente diferente de muitas que já vimos em filmes e mesmo em livros, mas as personagens são fortes e bem vincadas. A sua evolução ao longo das páginas é a inevitável, num ambiente de desconfiança permanente, violento e corrupto. Os autores mantêm a sua abordagem de crítica social, de armadilha criada por um sistema terrível, de ausência de alternativas. As personagens são habitualmente ambíguas, e não há nenhum herói exclusivamente positivo.
O desenho em cores diretas não é perfeitinho (o contrário seria surpreendente para um autor de 87 anos e doente), mas é como habitualmente dinâmico, expressivo, anatomicamente impecável e com rostos fortes, reconhecíveis, e facilmente interpretáveis. As personagens carregam o peso das suas escolhas e das suas incapacidades, os ambientes são escuros, mas bem caracterizados. A sujidade, o calor, a humidade, tudo isso é bem palpável: o mestre mostra toda a sua qualidade de construção de texturas e de organização de uma sequência narrativa.
A escolha do título, para além de local da ação, tem associada uma correspondência entre a mensagem e o labirinto moral que as ruas da cidade parecem apresentar.
Uma BD que não é espetacular, que não representa qualquer rutura, que tem uma carga emocional naturalmente muito elevada por se tratar de uma obra póstuma, um álbum que faz bem a ponte entre o autor e a sua obra. Hermann despede-se com lucidez, coerência, rigor e qualidade.
Adeus, grande, grande mestre.




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