Quando assistimos à apresentação deste livro no festival Coimbra BD, percebemos logo que estávamos perante uma história especial e de qualidade. Não nos enganámos. Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska, é uma obra sensível, bonita e dramática, sobre o peso de uma pessoa doente na família e o papel dos cuidadores.
Três Irmãs (Trzy siostry) é a primeira banda desenhada da autora e a narrativa acompanha três irmãs órfãs que vivem numa pequena cidade da Polónia. As duas mais velhas, Olza e Lena, dedicam a sua vida a cuidar da irmã mais nova, Dominika (Domi), que sofre de uma doença grave e degenerativa, necessitando de assistência permanente.
O que importa aqui não é o nome da doença, porque a autora inventou uma doença fictícia. Não interessa qual é, porque a história é inspirada em experiências reais de famílias cuidadoras e esse é o cerne da questão. Não a doença em si, mas o impacto que ela exerce sobre toda a estrutura familiar, que aqui é muito débil, tendo em conta que as três raparigas perderam os seus pais e apenas a mais velha trabalha para as sustentar, enquanto a do meio se centra em cuidar da mais nova, descurando a sua vida escolar. Ou seja, as mais velhas têm um enorme peso a seu cargo, pois as circunstâncias obrigam-nas a abandonar os seus projectos pessoais, os estudos, relações amorosas, saídas com amigos e sonhos. A responsabilidade que as duas mais velhas têm, torna-se o eixo em torno do qual toda a sua existência gira.
Há uma parte da história em que surge uma nesga de esperança de conseguirem mudar a irmã para um centro de reabilitação, mas isso também significa mudarem elas de cidade e esse tema não vai ser fácil, porque as duas mais velhas têm opiniões e sentimentos diferentes em relação a essa mudança. Aliás as duas começam a evidenciar divergências no que toca a lidar com a situação, porque enquanto uma encara o cuidar da irmã como uma missão, a mais velha sente um conflito entre o desejo de construir a sua própria vida com a obrigação de cuidar da irmã. Não há comportamentos certos ou errados aqui, não há julgamentos. Há apenas sentimentos e exaustão.
É um romance gráfico triste mas muito terno e profundamente realista, que não deixa de alertar para a forma como a sociedade encara os cuidadores. Os problemas económicos, o isolamento social e a falta de apoio das instituições, são questões aqui muito presentes.
Uma palavra final para a mais nova, a Domi, que embora quase não comunique, acaba por funcionar como o centro emocional da narrativa. A sua presença e o seu estado, influencia todas as decisões e estado de espírito das suas irmãs mais velhas e mostra-nos como uma personagem pode ter enorme peso na história, mesmo sem participação verbal.
Resta-nos falar do desenho que nos encantou. Um traço leve e delicado, quase como se fosse um esboço, mas muito bonito, que realça a sensibilidade do tratamento do tema da história. A escolha das cores, numa paleta muito reduzida, em tons pastel compõe na perfeição este magnífico "Três Irmãs".
Excelente obra inaugural da colecção Bursztyn/Âmbar, da Seita, que procura trazer para o nosso país o que de melhor se faz em BD na Polónia, numa parceria com a editora polaca Timof Comics e com o Festival Internacional de Comics de Łódź (ao abrigo do apoio à edição no âmbito do PRR.





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