Baseada no romance de Michael Moorcock, Elric é uma série que a Arte de Autor começou a publicar em 2026. Neste momento estão já publicados em Portugal os quatro volumes que constituem o primeiro ciclo e haverá ainda mais um ciclo de quatro volumes.
Estamos a falar da adaptação para banda desenhada da famosa saga de Elric de Melniboné. Criado pelo autor britânico Michael Moorcock em 1955, este anti-herói decadente, imbuído de um romantismo trágico raro na fantasia, é hoje uma referência essencial no género Dark Fantasy, considerada mesmo a obra mãe do género. Esta adaptação está tão bem conseguida que o autor da versão original, aprovou-a com entusiasmo, dizendo que corresponde com o que imaginou.
O argumento é da responsabilidade de Julien Blondel e o desenhos e cores têm reunido o trabalho de vários artistas, entre os quais Didier Poli. Os dois autores marcaram presença no Festival Maia BD, e por motivo de termos sido convidados para conduzir o painel com eles, lemos os quatro volumes na mesma semana e mergulhámos a fundo nesta obra incrível e há tanto por dizer que não é fácil sintetizar uma opinião sobre esta primeira fase da série. Vamos tentar.
Este primeiro ciclo fornece aos leitores os elementos fundamentais do universo de Elric: Melniboné como império decadente, a presença constante da magia, a oposição entre o caos e a ordem, os Reinos Jovens e o protagonista anti-herói. Elric apresenta características que o distanciam de um herói convencional: uma enorme fragilidade física, elevada inteligência e tendência para a reflexão. Elric não pediu nunca para ser poderoso nem para ser imperador. A sua condição foi-lhe imposta pela herança paterna.
O que acontece na narrativa é que tudo nos é mostrado sem grandes explicações, vamos descobrindo aos poucos a essência maléfica de Melniboné através da ações que vão acontecendo. Há cenas muito violentas e não somos poupados a nada. Os visuais são de grande espectacularidade e impacto, mas acima disso tudo, o que é mais interessante nesta história é a progressiva transformação do protagonista. De imperador passa a exilado, depois passa a guerreiro e por fim passa a uma espécie de agente da destruição. Mas é a sua transformação interior que se reveste de maior importância. Elric está em constante conflito interno entre a sua herança melniboniana e a humanidade. Entre a obrigação e a liberdade. A par desse conflito moral, temos o conflito político e familiar, de luta pelo trono de Melniboné, que afinal Elric também não deseja.
São várias as personagens que vão desfilando ao longo dos quatro volumes, umas com mais protagonismo que outras, mas há uma personagem sui generis, que é a espada de Elric, baptizada de Stormbringer. Ela não é apenas um objecto, ela vai ganhando importância e é quase como uma personagem, pois ela condiciona decisões, cria alguns problemas e limitações ao seu próprio dono, mostrando que é ela que domina. Aliás, quando chegámos ao final da leitura dos quatro volumes, continuamos com algumas questões em aberto, principalmente até que ponto a Stormbringer determina os acontecimentos e se Elric tem algum tipo de liberdade.
A série é poderosa, genial, mas diríamos que no meio de tudo, o que considerámos mais extraordinário é a evolução psicológica de Elric. E mais não dizemos, descubram vocês próprios esta série que é a mãe do género Dark Fantasy.





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