La Cuisine des Ogres - t. 2: Une vie de vaurien
Já aqui tinha falado do tomo 1 da “Cozinha dos Ogres”, quando pensava ser um one shot, impressionado pela solidez e fantasia do argumento (Fabien Vehlmann) e pela excecionalidade do desenho (Jean Baptiste Andréae), acompanhado de tons de coloração feéricos. Com Cuisine des Ogres - tome 2: Une vie de vaurien os autores aproveitam (claro!) o sucesso comercial do tomo 1, mas também consolidam um universo narrativo de rara riqueza, prosseguindo o trabalho de reinvenção do conto numa versão terrível, sombria e de realidade humana.
A personagem central do primeiro tomo já tinha tido o seu “ciclo de vida”, razão pela qual agora é explorada uma outra personagem (diríamos secundária): Brèche Dent (em português diríamos dente lascado), um gnomo com aquele ar muito típico do folclore bretão (lembrei-me agora de Fournier…), como podem ver na capa.
Toda a BD é centrada na escolha moral da personagem e no seu carácter: trair para ascender socialmente ou preservar a ética e a lealdade e aceitar um exílio temido. Inseguro, “apagadinho”, mas empático, B-Dent vai-se mostrar um verdadeiro e surpreendente resistente. Também neste tomo, os autores deleitam-se com uma crueldade por vezes divertida, quase sempre absurda.
No primeiro tomo, o espaço central era a cozinha e parte da aventura no espaço “aberto”. Desta vez, é o mundo exterior à cozinha que dá título à série a dominar. Em qualquer dos ambientes, o que nos chama imediatamente a atenção é a extraordinária qualidade gráfica, a delicadeza do tratamento moral e o grotesco fantástico do ambiente contextual. O ritmo da narrativa é muito dinâmico, tudo “é vivo”, os jogos de luz são notáveis, a experiência de leitura é imersiva.
Os diálogos são muito bem trabalhados, musicais, inteligentes, o que implica uma atenção de leitura que faz com que, apesar de ser um “page turner”, não seja uma leitura rápida.
Uma leitura agradável e recomendada, uma boa edição da Rue de Sévres, menos surpreendente que o primeiro tomo (como seria natural) mas não menos original, talvez um pouco menos emocional e linear que o primeiro, com uma estratégica abordagem de aprofundamento moral e talvez simbólica.
A capa, para mim é o ponto fraco, não porque não seja belíssima, mas porque, para quem não conheça a série, pode parecer exclusivamente infantil. Não o é certamente!
Frankenstein, de David Sala
Mais uma adaptação de Frankenstein, desta vez por David Sala, editado pela Casterman (mais de 200 páginas, já agora). Não é uma adaptação qualquer, não porque, creio eu, a obra de Mary Shelley possa ser revisitada sobre alguma perspetiva diferente e particularmente inovadora, mas porque a linguagem gráfica é diferente do habitual e muito pessoal – o que seria de esperar de um autor como David Sala (na JuveBêDê já falei sobre “Le Poids des Héros”, e temos editado em português o “Jogador de Xadrez adaptado de S. Zweig).
Mais do que contar novamente a história de Dr. Frankenstein e da sua criatura, Sala desenha essencialmente a violência sobre o diferente e sobre a condição de rejeitado, um pouco como vimos no cinema recentemente, mas com cânones gráficos muito diferentes. As referências sociais contemporâneas são também óbvias, desde logo com a introdução de alguma empatia por personagens secundárias.
A Victor Frankenstein é arrogante, ambicioso e moralmente elitista (ou moderno, como refere. Não abandonando os contornos góticos habituais, David Sala procura atribuir a esta BD uma camada de leitura contemporânea; exercício arriscado, mas conseguido dada a exuberância do desenho e da composição de página.
Cada página aproxima se mais de um quadro do que de uma prancha tradicional; o autor privilegia a pintura em vez do desenho, e as cores são essenciais para a textura palpável da BD. As referências gráficas de Klimt e da Art Nouveau parecem-me óbvias e resultam bastante agradáveis, embora admito que dependa do gosto de cada um. A obra tem, assim, uma identidade estética muito forte, o que pode fazer com que não seja do agrado de “todo o público”, até porque o desenho, notoriamente, não pretende a estabilidade emocional (ou sentimento, se quiserem) procurado e conseguido (e não apenas como resultado da grotesca figura da criatura).
Não se trata de uma BD de leitura rápida, há muito detalhe, há muito trabalho de adaptação constante aos desafios do autor que consegue aquilo que pretende: estabelecer uma obra única no panorama editorial Franco-Belga, e com uma história de base das mais conhecidas e revisitadas!
Pela minha parte, gostei da leitura – claro que não consigo deixar de estar em cada momento a fazer as comparações sobre outras adaptações ou sobre a obra original, o que me cansa um pouco e reconheço o patamar gráfico muito elevado, o que justifica a recomendação.
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