quinta-feira, 23 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Stern - T. 6: Hors du monde", de Frédéric e Julien Maffre e "Escape - tome 1", de Remender e Acuña

 

Stern - T. 6: Hors du monde

Já várias vezes falei sobre diferentes tomos da série Stern, de que agora saiu o tomo 6. Apresentado como um Western, a proposta de valor desta série é muito diferente do restante “tema”. Stern é um coveiro (não por vocação, mas pelo sossego) culto, com um gosto pronunciado por livros, com limitadas competências sociais, mas uma teimosia e arreigados valores éticos. Junta a isto uma falta de confiança nos e nas suas congéneres e uns pozinhos de fatalismos…

Com Hors du monde (Dargaud), os irmãos Frédéric e Julien Maffre assinam um sexto volume que não se limita a prolongar uma série de sucesso: ele marca um verdadeiro ponto de inflexão na identidade narrativa de Stern. Stern perdeu tudo (emprego, dinheiro, estatuto), por razões alimentares aceita um trabalho marginal como tradutor num negócio de armas e acaba levado para uma ilha isolada, a caminho de Cuba. Nessa ilha, os acontecimentos inesperados sucedem-se e todas as personagens representam, de modos inesperados, risco. Stern resigna-se, ferido e limitado na sua atuação.

De facto, cada narrativa de cada tomo da série é relativamente autónoma, embora no final deste tomo ficamos com curiosidade de perceber o que se irá passar. Enfim, não coloquemos o carro à frente dos bois. O que é certo é que esta capacidade de renovação contínua é uma das grandes forças da série.

O personagem de Elijah Stern atinge aqui uma maturidade particularmente evidente que, para além da incapacidade de comprometer princípios se apresenta como particularmente capaz de perceber o que o rodeia e o comportamento dos outros. 

O desenho tem uma base realista, com personagens fisicamente muito credíveis, muitos detalhes, um universo consistente, uma narrativa realista, e um contexto sombrio, sendo que os traços de Stern se têm vindo a tornar mais duros. As cores são um auxiliar importante às variações emocionais da BD. 

Uma série já longa, que promete continuar e que, de tomo para tomo mantém a qualidade, a credibilidade e o interesse, com uma capacidade de renovação muito interessante.


Escape - tome 1

Lido numa versão Urban Comics de 2026, Escape de Rick Remender e Daniel Acuña constitui um thriller muito interessante sobre sobrevivência e mais do que isso, das condições aceitáveis de sobrevivência. 

A história decorre num mundo antropomórfico povoado por animais humanizados mas a escolha formal é, na prática, ultrapassada em poucas páginas pela densidade do tema e pela intensidade do dispositivo narrativo.

Estamos no contexto da II Guerra Mundial, e acompanhamos Milton Shaw, piloto de bombardeiro que, durante uma missão é abatido, e apesar de sobreviver encontra-se ferido e desarmado em território hostil, numa verdadeira corrida contra o tempo, pois tem de sair daquela área, pois sabe que a mesma vai ser sujeita a um bombardeamento massivo.

Guerra, sobrevivência, culpa e dilemas éticos, é aquilo com que somos confrontados nesta obra plena de ação e de confronto de vítimas civis. A ambiguidade moral é, efetivamente, um tema central dos comics e novelas gráficas contemporâneas.

O álbum apresenta uma combinação muito eficaz de sequências de ação intensas (combates, perseguições) e de momentos de suspensão (diálogo, introspeção). O desenho é atraente e ágil e funciona como principal motor da obra, com uma boa profundidade contextual, e o facto de as personagens serem animais é algo que interiorizamos bem após poucas páginas – o que me parece um excelente elogio! Os são profundamente humanos na sua expressividade e linguagem corporal. 

O ambiente gráfico é determinante com cidades arrasadas, fumo constante e ruínas omnipresentes contribuindo para para criar uma sensação risco e recriar uma imagem de caos. 

Segundo é referido, Remender inspira se na experiência do seu avô, piloto na Segunda Guerra Mundial, o que pode explicar alguns detalhes e a abordagem humanista. 

Não será uma abordagem francamente inovadora, é uma leitura forte e interessante. Um momento bem passado!


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