Que grande murro no estômago. Já não é a primeira vez que lemos livros sobre a condição feminina em países onde a mulher é vista como um ser inferior, por isso já devíamos estar preparados para esta leitura. Mas não, a leitura desta obra autobiográfica da autora iraniana Mansoureh Kamari, sobre os seus primeiros anos de vida passados no Irão, não deixaram de nos perturbar, e muito!
Esta novela gráfica "As linhas que traçam o meu corpo", editada recentemente pela Arte de Autor, articula memória, trauma e emancipação e é-nos contada de forma alternada, entre o presente e o passado.
Mansoureh Kamari utiliza o próprio corpo como ponto de partida para reflectir sobre a condição feminina no Irão e vai mostrando ao leitor a forma como a opressão política, religiosa e patriarcal deixa marcas profundas, que persistem mesmo após a emigração e ao longo da vida.
Preparem-se, por isso, para um livro muito triste, mas de uma enorme beleza visual. A narrativa inicia-se durante uma sessão de modelo vivo, na qual a protagonista posa nua para estudantes de desenho. Este enquadramento tem um forte valor simbólico: o corpo que, durante a infância e juventude, foi alvo de vigilância e censura transforma-se agora num corpo observado livremente, por escolha própria. A nudez deixa de significar vergonha para passar a representar autonomia e reconquista da identidade.
O impacto visual é muito forte neste livro, tendo em conta que o desenho é o elemento mais expressivo da obra, porque há páginas em que o texto é quase nenhum e as imagens falam por si e dão-nos a conhecer um passado em Teerão em que existe o medo constante da autoridade masculina, a perda precoce da liberdade e as restrições impostas às meninas, a banalização da violência física e psicológica, legitimada por normas sociais e religiosas. Ao mesmo tempo, no presente, vemos uma mulher que é dona do seu corpo, recuperando o controlo que lhe foi retirado ainda na infância.
O livro é autobiográfico, mas é uma forma de denúncia política e de evidenciar os dramas e a descriminação que afecta milhões de mulheres.
Voltamos ao desenho para falar na importância das cores nesta obra, pois Kamari utiliza predominantemente tons cinzentos e negros para retratar as recordações ligadas ao Irão e introduz de forma gradual a cor (um rosa muito ténue), quando a protagonista (ela própria) recupera a liberdade.
Belíssima aposta da Arte de Autor, num formato que gostamos bastante e que é excelente para atrair leitores que habitualmente não lêem banda desenhada.
De notar que está prevista a presença de Mansoureh Kamari na edição deste ano do Festival Amadora BD.





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