segunda-feira, 13 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Tango T. 9 - Faux Frères", de Matz e Xavier e "Gunnar le Vampire", de Dumontheuil

 

Tango T. 9 - Faux Frères

Este é o nono tomo da bem conhecida série Tango. Neste tomo relativo aos irmãos falsos, mais do que uma grande inovação temática, encontramos identidade e maturidade gráfica num thriller contemporâneo.

Inserido num registo urbano e contemporâneo o nono volume da série Tango confirma a solidez de uma das séries de aventura e thriller mais consistentes da banda desenhada franco belga recente. A dupla Matz (argumento) e Philippe Xavier (desenho) prossegue aqui um percurso narrativo que combina eficácia de género com um progressivo aprofundamento psicológico do protagonista. 

O ponto de partida é simples, mas carregado de implicações: Tango, num momento de desgaste pessoal marcado por isolamento e consumo excessivo de álcool é abordado por Shannon para uma missão de infiltração em Porto Rico. O elemento decisivo é a existência de um homem que lhe é quase idêntico, abrindo a possibilidade de uma substituição funcional, mas desencadeando também uma confrontação inesperada com o seu próprio passado. 

O argumento de Matz estrutura-se como um thriller clássico infiltração, tensão crescente, confrontações violentas, mas introduz uma camada mais ambígua através do tema do “duplo”. Este não funciona apenas como recurso narrativo, mas como catalisador identitário: Tango é levado a questionar as suas origens, as suas ligações familiares e a própria construção da sua identidade, o que o torna uma figura vulnerável, marcada por falhas e fragilidades.

Na minha opinião, é ao nível gráfico que Faux Frères atinge um grau particularmente elevado de maturidade. O desenho realista de Xavier é bem conhecido, e já muita gente me referiu a semelhança do seu desenho com o de William Vance. O seu desenho é elegante, a perfeição anatómica é notável, a fluidez de movimentos facilita uma leitura agradável que a estrutura cinematográfica permite. O ritmo visual é cuidadosamente controlado, alternando momentos de aceleração (ação, confrontos) com pausas mais contemplativas. Para além disso, o autor demonstra grande domínio na representação de espaços tropicais, urbanos e marítimos, integrando-os plenamente na narrativa, mas isso já o sabíamos. 

As cores de Jérôme Maffre desempenham um papel essencial na construção da identidade visual do álbum. O uso de tons quentes e saturados reforça a sensação de calor, tensão e exotismo, criando um contraste constante entre luminosidade e ameaça.

Editado pela Lombard, esta BD cumpre com a expectativa criada, não surpreende, mas constitui uma leitura agradável.



Gunnar le Vampire

Com Gunnar le Vampire, Nicolas Dumontheuil propõe uma abordagem singular do imaginário vampírico, afastando-se deliberadamente tanto da tradição gótica clássica como das versões contemporâneas que privilegiam o espetáculo ou a psicologia romântica. Caracterizada como uma espécie de fábula literária, esta obra constitui um exercício gráfico particular de um autor muito particular e que encara esta narrativa fantástica com um nível de ironia e um certo cinismo que a tornam uma BD muito interessante, mesmo se um pouco longa.

Acompanhamos a história do vampiro Gunnar, uma figurinha um pouco grotesca, que não é um sedutor, não tem nada de heroico, pouco de trágico, e que não inspira verdadeiramente um grande medo o que, para um vampiro, deve ser um pouco chato, senão mesmo frustrante! É este o vampiro de Dumontheuil: um estranho inadaptado mais do que um ícone do terror.

E por isso, a BD é essencialmente “atmosférica”, isto é, descreve um ambiente em que se movimenta Gunnar, e relata um conjunto de episódios humorísticos e absurdos que com ele acontecem. 

Como é bom de entender, a melancolia é dominante nem poderia ser de outra forma, por uma questão de consistência mas a crueldade mostra a sua terrível carantonha com alguma frequência, como forma, aliás, de conseguir alguma empatia do leitor que, no entanto, é sempre mantido num certo desconforto.

O desenho de Dumontheuil mantém-se ao nível que já nos habituou: exuberante e grotesco, aparentemente deformado e irregular com um propósito, muito expressivo e rico em detalhes. As cores são intensas, reforçando a melancolia e a intensidade.

As próprias vinhetas e sequências são irregulares e surpreendentes, o que fica muito bem a esta interpretação pessoal e burlesca do universo dos vampiros. O alinhamento do texto (ricamente construído) e do desenho, é excelente.

A leitura não é fácil, nem é rápida, seja pela densidade, seja pelos detalhes, mas é uma leitura muito satisfatória, uma “experiência”. BD editada pela Dupuis na coleção Aire Libre.



Sem comentários:

Enviar um comentário