sábado, 11 de julho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "L’Escadron bleu, 1945", de Le Pon e Ollagnier e "Chagrin", de Rodolphe e Griffo

 

L’Escadron bleu, 1945 

L’Escadron bleu, 1945 é um one shot publicado em 2026 pela Dupuis, integrado na prestigiada coleção Aire Libre, conhecida por acolher obras com rigor histórico, mesmo que romanceadas, e com um grafismo clássico, mas de qualidade visível. 

A narrativa acompanha Madeleine Pauliac, médica pediatra e uma visível resistente francesa, que pouco após a libertação de Paris é enviada para Moscovo e Varsóvia como médico tenente das FFI (Forças Francesas de Resistência). A sua missão: organizar o repatriamento sanitário dos franceses libertados pelo exército russo e dos que permaneciam detidos na Polónia sob controlo soviético.

Madeleine acaba por liderar um grupo de enfermeiras cujo nome dá título a esta BD: o Esquadrão Azul. Para além de se tratar de uma página pouco conhecida da história pelo menos por mim e que tem a ver com a atuação de um grupo humanitário em pleno caos pós-guerra e de ocupação da Polónia, bem com a criação do hospital francês de Varsóvia dirigido por Madeleine, esta BD é naturalmente dominada e retrata bem o clima de tensão político que começa a desenvolver-se no final do esforço conjunto (razoavelmente conjunto) de combate ao inimigo comum. Para além das mais de 130 páginas desta BD, o dossier de 14 páginas incluído nesta edição é muito interessante e ajuda a conhecer a situação.

O prefácio desta BD é de Philippe Maynial, sobrinho de Madeleine Pauliac, e que escreveu sobre a história da sua familiar, passa uma mensagem de autenticidade histórica. Virginie Ollagnier, escritora e romancista, autora de uma outra obra de que aqui falei Sucre Noire tem-se especializado na pesquisa histórica e na capacidade de transformar uma base de documentário em narrativa emocionalmente envolvente e com fluidez, a juntar a uma mensagem de base de cariz humanista. O desenho ficou a cargo de Yan Le Pon, detentor de um traço clássico, detalhado, expressivo e documental. A sensação de necessidade e urgência de intervenção humanitária é, na minha opinião, muito difícil de transmitir no desenho, e o autor fá-lo com uma interessante sobriedade. O seu estilo combina realismo com uma paleta cromática contida, adequada ao ambiente do pós guerra. Anne Claire Thibaut Jouvray (um dos membros da família Jouvray) é a responsável por uma colorização subtil, que reforça o importante tom melancólico e austero da obra, num contexto onde as personagens se têm de mostrar contidas, subtis e muito diplomáticas.

É uma interessante narrativa, uma boa BD e, portanto, uma leitura informativa e com uma força emocional envolvente. 




Chagrin

Chagrin (Mágoa) é um álbum intimista e melancólico, que diria essencialmernte possível pela experiência dos seus dois autores: Rodolphe no argumento e o grande Griffo no desenho. Perda, memória e luto, são os temas essenciais, tratados num “outro tempo”.

A narrativa segue um protagonista confrontado com acontecimentos que o obrigam a revisitar episódios dolorosos da sua vida. Rodolphe constrói um enredo subtil, mais emocional do que factual, onde o não dito é tão importante quanto o que é visível. A subtileza, a fluidez dada pelo relato do essencial, a perceção do humano sem juízos de valor, são o foco de Rodolphe.

Griffo, com o seu traço elegante e expressivo, reforça a atmosfera de introspeção, usando enquadramentos e expressões faciais que sublinham a fragilidade emocional das personagens. O seu estilo de desenho é, efetivamente, uma representação de falhas, fragilidades, decadência, remorso, marcas das escolhas infelizes. As cores reforçam a impressão de introspeção.

Para uma BD deste tipo ou, se quiserem, com um tema intimista, é essencial um bom diálogo, culto, literário, e um bom controlo de sequências, ritmos narrativos e perspetivas. Tudo isso é conduzido com mestria.

A BD não agradará a todos, é muito melancólica, tem pouca ação. No entanto, é um verdadeiro romance gráfico de qualidade e negrume, séria, com uma excelente coerência entre narrativa e desenho. 
Elegante, sensível e cuidada, esta BD foi editada pela Dupuis na sua coleção Aire Libre. Um verdadeiro romance em 130 páginas, esta BD captou a minha atenção e a leitura é longa, pois os detalhes no desenho são muitos, e o texto e os silêncios são para se apreciar len-ta-men-te.

A capa, para mim, é muito bem conseguida visualmente e a atenção do “cliente” é atraída imediatamente pela citação de Balzac: “Se me possuíres, possuirás tudo. Mas a tua vida passará a ser minha. Assim o quis Deus”. 

Está percebido ao que vamos?


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