domingo, 27 de setembro de 2026

A opnião de Miguel Cruz sobre "Dispatched", de B. Clay Moore e Gete e "Exquisite Corpses, Vol. 3", de vários

 

Dispatched

Dispatched, série em publicação pela Ignition Press (já publicados os #1 e #2), é ação, ação, ação. Às vezes, se a sequência é boa e os desenhos de qualidade, nada a dizer. É o caso. Morgan Powers, antigo agente de operações clandestinas agora escondido sob uma identidade oficial e empregado como estafeta, entra num complexo empresarial no preciso momento em que este é tomado por terroristas (acho que já vimos isto, não?). Sem arsenal, dispõe apenas da experiência acumulada e das encomendas fechadas na carrinha cada caixa podendo conter uma solução improvisada ou um objeto inútil. A premissa, que diria um encontro entre MacGyver e Die Hard, segue a mesma abordagem desses filmes de ação.

O argumentista B. Clay Moore vai gradualmente dando pistas sobre o protagonista. Antes de libertar a violência, o autor mostra a rotina banal, o isolamento familiar e o esforço de regressar à vida civil; quando Powers volta a agir, a competência física surge inseparável das marcas do passado. 

Na arte, Daniel Gete é decisivo. O seu desenho combina legibilidade com uma textura áspera e ligeiramente distorcida, dando peso aos espaços industriais, aos golpes e às súbitas irrupções de violência. A composição sabe acelerar nas sequências de confronto, mas também introduz imagens associativas um gesto quotidiano que convoca a memória de uma arma ou de uma morte capazes de exteriorizar o estado mental de Powers sem explicações excessivas. 

A equipa criativa funciona bem como verdadeiro conjunto: Moore controla a revelação narrativa e a ambiguidade moral do herói; Gete fornece a fisicalidade e o ambiente; Loughridge organiza a temperatura emocional da página; e o lettering dá contraste entre a agitação coletiva e a calma treinada de Powers. A própria Ignition Press merece destaque por apostar num thriller de criadores, de conceito imediatamente comunicável, e por enquadrá-lo com capas de Gete e variantes de autores como David Lapham, Andy MacDonald e Fernando Blanco (confesso que “fui a diferentes capas”).

Ainda há muito da série por ser revelado, mas Dispatched é um thriller enérgico, visualmente convincente e mais atento à fragilidade do seu protagonista do que a apresentação explosiva faria supor. E o #2 deixa-nos com vontade de conhecer o #3. Isso é muito bom!




Exquisite Corpses, Vol. 3

Exquisite Corpses parte de uma ideia absurdamente interessante: de cinco em cinco anos, na noite de Halloween, as famílias mais ricas dos Estados Unidos contratam assassinos especializados e transformam uma pequena localidade numa arena clandestina; o sobrevivente garante à família que representa o controlo do país durante o ciclo seguinte. Nos dois primeiros volumes, Oak Valley, no Maine, passa de cidade adormecida a tabuleiro de massacre, enquanto a série apresenta os concorrentes, os seus métodos e a obscena indiferença das elites que observam tudo à distância.

O terceiro volume, que reúne os números 9 a 13 e encerra a primeira “temporada”, começa quando a noite chega ao fim e o jogo parece encaminhar-se para o seu desfecho previsto. Restam menos assassinos, os confrontos tornam-se inevitáveis e o espaço narrativo contrai-se. A alteração decisiva, porém, vem dos habitantes: levados ao limite, deixam de aceitar o papel de vítimas e procuram subverter as regras impostas pelos poderosos. É essa passagem da sobrevivência à resistência que dá ao livro a sua verdadeira força dramática.

James Tynion IV e Michael Walsh, criadores e arquitetos da série, conduzem um projeto deliberadamente coral. Tynion assegura a premissa política e a mecânica de suspense; Walsh preserva a identidade visual e o ritmo global. À sua volta, Tyler Boss, Jordie Bellaire e Che Grayson participam na escrita, enquanto Valentine De Landro, Marianna Ignazzi e Gavin Fullerton se juntam a Walsh no desenho. O resultado poderia parecer fragmentário, mas a estrutura de “sala de argumentistas” converte a multiplicidade de vozes numa vantagem: cada confronto tem personalidade própria sem quebrar a progressão da narrativa.

Os assassinos são concebidos como ícones instantaneamente reconhecíveis máscaras, armas, alcunhas e silhuetas portentosas. A sátira social é frontal: os milionários são monstruosos, os habitantes pagam a conta e o jogo condensa uma ordem política fundada no privilégio. A falta de subtileza é evidente, mas quase sempre funcional; esta é uma fábula de horror em alta velocidade, mais interessada em expor a crueldade do sistema do que em conceder-lhe atenuantes.

Graficamente, o volume confirma uma das grandes qualidades da série. A violência é física, legível e coreografada com precisão, mas o desenho não perde de vista os rostos e a vulnerabilidade dos civis, particularmente na grande maioria de cenas noturnas onde cada página parece aproximar o amanhecer e o desastre.

Muito interessante, ritmada, com muitas sequências de ação bastante bem coreografadas e com um foco atraente no modo como o horror ganha impacto quando se detém nas vidas comuns devastadas pelo jogo. A conclusão é credível e interessante nesta história de terror editada pela Image.

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