quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Shin Zero – Tome 2 (2/3)", de Bablet e Sigelin

 


Shin Zero – Tome 2 (2/3)

Vamos lá falar de uma BD mais próxima de Mangá do que de BD Franco-Belga que, reconheço, está um pouco fora do universo dos meus habituais gostos, mas que fez tanto sucesso que decidi “ver”. Já tinha, a propósito de uns prémios, falado brevemente do tomo 1 desta obra de Mathieu Bablet (argumento) e Guillaume Singelin (desenho e cores), e editado pela Rue de Sèvres - Label 619.

Em termos de enquadramento relativamente ao tomo 1, creio que basta referir que quatro anos passaram desde os acontecimentos retratados nesse tomo, quando o jovem Warren salvou a cidade da ameaça Kaiju de criaturas destruidoras. As cidades (pós-apocalipticas) baseiam-se em agrupamentos (colocation). A antiga colocation de Warren está agora fragmentada: os amigos afastaram se, as prioridades mudaram, e a entrada na idade adulta trouxe tensões, frustrações e caminhos divergentes.

Enquanto isso, no exterior, o nível de partículas Kaiju na água aumenta perigosamente, sinalizando que um monstro está pronto a aparecer. A “câmara municipal” (enfim, o equivalente) tenta minimizar o problema, mas a população inquieta se. É neste contexto que outro membro da “casa”, o jovem Satoshi, movido por ambição, inveja das ações de Warren, nostalgia e necessidade de afirmação, decide retomar o papel de herói que sempre desejou — mesmo que isso implique ignorar riscos, responsabilidades e a fragilidade das relações humanas. O foco desloca-se da ação para a crise identitária.

No tomo 1, quando o Kaiju finalmente ataca, é Warren quem assume o papel de salvador. Não porque queira, mas porque não há mais ninguém. Ele arriscou a vida, enfrentou o monstro e salvou a cidade de um ato que o marcou profundamente e que alterou a dinâmica do grupo. Satoshi ficou obcecado com a ideia de ocupar o lugar do amigo como “o salvador da pátria”. Assim, no Tomo 1 temos a contextualização e o trauma. Neste tomo 2 temos a crise. No tomo 3 teremos o desenlace. 

Singelin é dono de um traço vivo, cheio de movimento, com personagens de expressões fortes e gestualidade marcada. A influência do manga é clara, mas filtrada por uma sensibilidade e forma de ação muito franco belga. A cidade é representada como organismo vivo: ruas densas, interiores caóticos, espaços que refletem o estado emocional das personagens.

O argumento é inteligentemente construído, as personagens são complexas, a narrativa é coerente. O ritmo, neste tomo dois é, naturalmente mais lento, mas a profundidade sentimental é bem explorada. Tenho alguma dificuldade em desenvolver empatia com os protagonistas, mas reconheço uma saga bem construída, coerente e com mensagens pertinentes.




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