quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A nossa leitura de "Os novos russos", segundo volume de Slava, de Pierre-Henry Gomont - edição ASA


Lemos recentemente o segundo volume da trilogia trágico-cómica "Slava", de Pierre-Henry Gomont, que tem como o título "Os novos russos" e edição da ASA.

Não sabemos se influenciados pela entrevista que fizemos no ano passado ao autor, que nos disse que os volumes seguintes eram melhores do que o primeiro, a verdade é que gostámos mais deste segundo volume do que o inaugural. Partimos com a vantagem de já conhecermos o universo da série e os seus protagonistas, e já sabemos de antemão que estes não vão ter uma vida fácil. 

Estamos nos anos 1990, em território russo. De um lado temos Lavrine, abandonado por Troubetskoï num lugar isolado, sem dinheiro, e depois de perder dois dedos de uma mão. Do outro lado temos Slava, que continua a tentar salvar a mina e mantém a clandestinidade da sua relação com Nina. Temos assim, os dois amigos, de costas voltadas e longe um do outro.

O que é interessante neste livro, a par do contexto histórico e político, é assistir à evolução das duas personagens principais. 

No início vemos Lavrine nas ruas da amargura, um farrapo que julgava ter perdido a sua capacidade de manipular os outros. Porém, ele consegue sobreviver graças à sua astúcia. Ele não perde uma oportunidade para conseguir algo em seu proveito. Ele mente, engana, improvisa e manipula, para atingir os seus objectivos.

Quanto a Slava, continua activo e empreendedor, empenhado em salvar a mina, mas na verdade o seu objectivo de vida não é esse, não domina o ambiente onde está inserido e acaba por tentar fazer vingar o seu talento em artes plásticas. A sua relação com Nina é que o agarra às questões relacionadas com a mina, para as quais não tem vocação, pois o que está em jogo foge às suas capacidades. 

Estamos perante uma transformação económica e as personagens não compreendem completamente a sua dimensão. Para salvar a mina, é preciso entrar no sistema que está a destruir o mundo ao qual ela pertence. E é no meio destes meandros de negociações que os dois amigos se voltam a encontrar.

A miséria, a corrupção, a violência e a perda de referências não são apresentadas através de discursos solenes. São incorporadas nas situações absurdas em que Slava e Lavrine se encontram.

Pierre-Henry Gomont consegue, através de uma forma original e mais leve, mostrar-nos um pouco do drama sobre o colapso da União Soviética. Utiliza o humor negro, o absurdo, situações quase burlescas. E isso com um grande ritmo, pois os diálogos são rápidos, não há muita margem para grandes contemplações. Tudo isto em ambientes que nos remetem para espaços russos: estradas e paisagens geladas, aldeias, instalações industriais, vestígios da arquitectura soviética.



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