segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Beneath the Trees Where Nobody Sees - Vol. 2: Rite of Spring", de Horvath


Beneath the Trees Where Nobody Sees - Volume 2: Rite of Spring

Em Beneath the Trees Where Nobody Sees, Samantha Strong, uma ursa cordial e respeitada, gere uma loja de ferragens na pequena e idílica Woodbrook, mas leva secretamente uma vida de assassina em série. A regra que protege a sua existência cuidadosamente compartimentada é clara: nunca matar os habitantes locais. No volume 1, a exploracao da inversao moral e o tema central. Acompanhamos a historia pelos olhos de Samantha, que se torna a salvadora da cidade (quando, afinal, estava apenas a defender o seu “anonimato”). Dele aqui falei porque gostei. Muito.

No volume 2, a narrativa nasce de outra forma, sem ser atraves de Monika: em 1986, Daniel Brewer desapareceu sem deixar rasto; agora, a sua irmã Monica chega à pequena vila de Woodbrock, determinada a descobrir o que lhe aconteceu. A presença desta investigadora, com motivacoes pessoais tao fortes, obstinada como poucos, ameaça a existência cuidadosamente construída de Samantha Strong, transformando o passado num perigo muito concreto.

Este volume 2 tem essa enorme qualidade na forma como evita repetir mecanicamente a fórmula original. Patrick Horvath preserva o cruzamento entre policial, horror e sátira de costumes, mas introduz uma nova tensão: já não se trata apenas de impedir que outro assassino perturbe a ordem local, mas de perceber se a memória, apoiada pela mais recente tecnologia, e a persistência dos sobreviventes podem finalmente romper a impunidade de Samantha. O salto para os anos 1990 acrescenta, assim, uma dimensão temporal e moral particularmente eficaz.

Samantha continua a ser uma protagonista fascinante precisamente porque a narrativa se recusa a torná-la confortável. A sua aparente cordialidade, o rigor dos seus hábitos e a serenidade com que protege a vida que construiu entram em conflito com a violência que sustenta essa mesma normalidade. Monica funciona como contraponto: a sua busca por justiça é compreensível, mas a dor acumulada tornou-a capaz de avançar até às últimas consequências. Esse duelo indireto dá ao livro uma densidade emocional superior à de uma simples caça entre predador e perseguidor.

Visualmente, Rite of Spring confirma a singularidade da série. O desenho arredondado, os animais antropomórficos e a paleta acolhedora continuam a evocar um livro infantil ilustrado, enquanto enquadramentos precisos, silêncios prolongados e súbitas irrupções de violência corroem essa sensação de segurança. Horvath domina especialmente bem os pequenos detalhes uma expressão contida, um objeto aparentemente banal, a quietude de uma rua e transforma-os em sinais de ameaça.

A edição revela uma elevada qualidade de produção e de construção narrativa. O ritmo é seguro, as transições temporais ampliam a história sem a tornar confusa e o trabalho de lettering de Hassan Otsmane-Elhaou integra-se com naturalidade na expressividade gráfica. 

Ambicioso: uma leitura elegante, perturbadora e visualmente memorável, que recompensa os leitores do primeiro volume e abre novas possibilidades para este universo. Na minha opiniao, uma leitura absolutamente incontornavel, publicado pela IDW.




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