The Time Before
Embora com título inglês, esta é uma BD em francês como língua original, de Cyril Bonin já dele falei a propósito de outras obras e editado pela coleção Grand Angle, parte integrante da Editora Bamboo. Já tem uns anos, mas tinha-me “passado” e encontrei-a por acaso numa livraria.
Bonin é um autor curioso, completo o que ajuda a uma grande coerência entre a narrativa e a parte gráfica e inventivo no tratamento de histórias marcadas pela busca do humano, invariavelmente introspetivas.
A narrativa decorre em Nova Iorque no final dos anos 1950 e acompanha Walter Benedict, um jovem fotógrafo ambicioso, que socorre e salva um velho vendedor vítima de agressão, oferecendo-lhe este um talismã que permite voltar ao passado e alterar os acontecimentos.
Inicialmente muito cético, Walter vai testando o talismã e acaba a usar repetidamente esse “poder” para ascender socialmente e melhorar a carreira, para conquistar a mulher que ama e para evitar alguns erros pessoais.
Mas a perfeição não existe, e as circunstâncias alteram as reações dos outros. Para além do que as alterações em acontecimentos, mesmo que muito irrelevantes, têm consequências de longo prazo. Os dilemas morais demoram anos a surgir, mas são inevitáveis.
Pois é: como discutir planeamento de futuro e destino pessoal sem discutir livre-arbítrio? Como se pode escolher sem se aprender a renunciar. Muito inteligente, fantasista, mas não fantasioso, esta é uma BD que obriga à reflexão ao mesmo tempo que é muito agradável de ler, apesar de ser uma leitura pontuada de algumas angústias.
O desenho é realista, de linhas finas, elegante, luminoso, e mostra um excelente trabalho de época. Possui bons enquadramentos que ajudam ao questionamento permanente.
A ideia é apelativa, bem tratada e com vários momentos surpreendentes, desde logo o final. Uma leitura recomendável.
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Le Clan des Otori (BD, Gallimard - Fétiche, 2021–2026)
Há pouco tempo tivemos a presença em Beja de Benjamin Bachelier, desenhador responsável pela adaptação à BD de “A Saga dos Otori” da autora Lian Hearn (editada em português pela Presença, já os 6 volumes da BD ainda não tiveram essa sorte).
Os textos dos dois ciclos desta série de BD ficaram à responsabilidade de Stéphane Melchior. A série insere-se num Japão feudal fictício, inspirado no período Sengoku, marcado por guerras de clãs, códigos de honra samurai, com uma marcada dimensão política e estratégica e também com a presença discreta de elementos quase sobrenaturais.
As personagens centrais são o jovem Takeo, adotado pelo clã Otori, mas que pertence a um grupo secreto de guerreiros com interessantes poderes, e ao mesmo tempo a uma seita de crentes num só deus, e Kaede, figura feminina forte, resistente, com forte sentido político e diplomático, e a quem o acaso acaba por dar um significativo poder e relevância política.
Este par, que em boa medida só sonha em estar junto, afasta-se por razões de sobrevivência e honra.
Muito interessante, com muitas cenas de ação, uma descrição detalhada da vida no Japão feudal, dos diferentes estratos sociais, e com uma predominância de intrigas políticas e de tragédias pessoais. A luta pelo poder por um lado, o sacrifício pessoal e a renúncia por outro.
Bachelier tem um traço facilmente reconhecível, um desenho expressivo, quase realista, que foi beber à estética japonesa (tanto quanto eu conheço), intercalando grandes quadros contemplativos ou de campo de batalha com páginas mais minimalista, sendo o estilo de desenho muito adaptado ao conteúdo emocional da narrativa, com uma atmosfera poética interessante, tanto mais que as condições de vida eram, muitas vezes miseráveis.
Pela minha parte gostei bastante de toda a série, embora reconheça que o estilo de desenho poderá não ser do agrado de todos. As personagens são muitas e diversas, às vezes com nomes próximos. A fragilidade da condição de cada uma das personagens é, por vezes angustiante. Apesar de tudo isso e se calhar POR tudo isso a leitura desta ambiciosa saga editada pela Gallimard é merecedora de atenção e, tanto quanto sei, tem feito sucesso em França.
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