Desde que estivemos com o autor Philippe Girard na Feira do Livro e assistimos à apresentação do livro no Festival de Banda Desenhada de Beja, que estávamos com curiosidade em ler este livro, editado pela ASA.
O facto de sabermos que o livro é sobre uma parte da vida de Saint-Exupéry, o autor de O Principezinho, funciona logo como um íman que nos atrai para a sua leitura e mais ainda depois de termos ouvido as explicações de Girard sobre esta sua obra.
Começamos por dizer que "O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo" não é, de todo, uma biografia de Saint-Exupéry. É mais uma tentativa de desmontar uma imagem mítica. Philippe Girard interessou-se por mostrar o homem que existia por trás da personagem pública: uma pessoa inquieta e deprimida.
Estamos em 1942 e vamos apanhar Saint Exupéry exilado na América do Norte, afastado da França e impedido de fazer aquilo que considera ser a sua verdadeira função: combater e voar. A viagem ao Québec, inicialmente ligada a compromissos editoriais e à situação da França ocupada, torna-se uma espécie de suspensão existencial, mas que ganha importância por ter sido a ignição para a criação do Principezinho.
Sem poder voar, sente-se a sufocar e no meio da sua frustração, Saint-Exupéry revela-se aos olhos do leitor, como uma pessoa egocêntrica, conflituosa e de excessos, que só se acalma com o amor e a firmeza de Consuelo, a sua mulher.
Não é que Philippe Girard pretenda denegrir o famoso autor, mas também não é de dourar a pílula e dá-nos uma outra perspectiva do criador do Principezinho. E neste Príncipe dos Pássaros, leva-nos primeiro a conhecer o homem e só depois a sua faceta como escritor. É pois uma experiência estranha para o leitor constatar que a forma como imaginava o autor do Principezinho, como um homem sábio, humanista e delicado, podia ser romantizada, pois o que vemos é um homem instável e quase insuportável. Portanto Girard mostra-nos que uma obra humanista pode nascer de uma pessoa cheia de contradições.
Visualmente podemos dizer que o livro é um pouco "fora da caixa", com desenhos de linha clara, mas com imagens grandes, muitas pranchas de página dupla, vinhetas grandes e por vezes redondas e noutros formatos, utilização de cores fortes.



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