terça-feira, 19 de maio de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Sucre Noir", de Ollagnier e Efa e "Le Pépère", de Moynot

 

Sucre Noir

Interessante e surpreendente, esta adaptação de um romance de Miguel Bonnefoy, pelo duo Virginie Ollagnier (argumento adaptado) e Efa (Ricard Fernandez – desenho), editada pela Lombard.

Ao longo de cerca de 160 bonitas páginas, acompanhamos a história de Serena Otero, desde o século XIX, e passando o século, na sua amada fazenda na Venezuela, numa região onde a lenda do tesouro do pirata Henri Morgan atrai aventureiros e sonhadores.

A jovem Serena vive com os seus dedicados pais Ezekiel e Candelária, numa vida modesta e rural, lê tudo o que apanha pela frente, sonha com um grande amor romanesco e gere a quinta de família com mão de ferro. 

Acaba por se casar com um jovem que aparece na quinta à procura do tesouro, uma figura que não se adapta às expectativas de Serena, com este desenvolve a produção de Rum e acaba por adotar um bebé, atribuindo-lhe o nome de Eva Fuego, afinal o bebé quase pereceu num fogo na quinta. O fogo vai, aliás, ter um papel simbólico muito grande nesta BD.

Com a morte de Sereno, Eva Fuego vai tomar conta da quinta, desenvolvê-la, adquirir outras quintas e tornar-se a figura dominante da região, nem sempre recorrendo a expedientes estritamente legais. A vila cresce com base nos trabalhadores contratados por Eva, mas toda a atividade económica é dominada por esta.

Com estes acontecimentos, acompanhamos a história de uma época, os altos e baixos da produção de rum, o surgimento da exploração de petróleo, as relações de negócios e, particularmente, a relação com grandes empresas americanas.

Um desenho detalhado, elegante, clássico realista, umas cores intensas, bem-adaptadas ao clima e carácter explosivo das personagens.

Uma obra que constitui uma boa adaptação, com muito de surpreendente, uma riqueza grande de mensagens e conteúdo. Uma surpresa editorial muito interessante, como referi, uma leitura que se recomenda.





Le Pépère

O velhote habita em Bordéus, trabalhou toda a sua vida nos correios, vive, desde sempre, na casa que era dos seus pais, tem os mesmos hábitos de sempre, vive sozinho com o seu gato (raio do gato!), é conhecido de muita gente como um simpático e pacífico senhor, que vive uma vida sem história. Será? 
Não é! A sua vida é bastante mais complexa do que parece à primeira vista, e ao longo das páginas, e através de recordações cronologicamente bem estruturadas, vamos conhecendo situações passadas que nos deixam de boca aberta (no mínimo). 

Nada nos é poupado, de facto, nesta BD. A dimensão dos acontecimentos na vida desta figura aparentemente desinteressante só nos é revelada após uma situação particularmente desagradável, em que a personagem e a sua casa são usadas por uma prostituta e pelo seu amante, ambos envolvidos em esquemas pouco edificantes, a necessitar de um lugar para viver, e de dinheiro que pretendem “sacar” ao idoso. No entanto, as suas surpresas vão ser muitas.

Uma BD que relata com um humor particularmente negro acontecimentos tenebrosos, personagens desagradáveis, situações de uma negatividade imensa. E não há um raio de sol, uma ponta de esperança nesta narrativa.

O desenho de Moynot é, como habitualmente, escuro, delabré, tal como nos habituou nas suas incursões no universo de Nestor Burma – publicadas em Portugal. Um desenho ao serviço do negrume da narrativa.

Embora seja propositadamente (e excessivamente) “negro”, esta história tem de ser lida com uma curiosidade focada no que há de pior na alma humana, nos hábitos e efeitos da solidão, da dificuldade de relacionamento social.

Editado pela Glénat, é uma leitura diferente do habitual, e isso é sempre refrescante. 



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