quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Solomon Kane 1/4: The Lion Errant, de Zircher" e "Animal Pound - t.1 e 2", de Gross

 

Solomon Kane 1/4: The Lion Errant

Criado por Robert E. Howard em 1928, Solomon Kane é um dos grandes aventureiros da literatura pulp: um puritano inglês do final do século XVI, vestido de negro e movido por uma fé severa, que percorre o mundo perseguindo tiranos, criminosos e forças sobrenaturais. Menos exuberante do que Conan, mas talvez mais inquietante, Kane combina a rigidez moral de um justiceiro bíblico com a condição solitária de um cavaleiro errante. The Lion Errant retoma essa figura depois de The Serpent Ring e envia-a, sob a orientação de um misterioso leão de juba negra e de um antigo bastão atlante, da costa suaíli para a Índia.

A história situa Kane no contexto do confronto entre a rainha guerreira Rani Durgavati e o Império Mogol, cruzando personagens e tensões históricas com deuses, demónios, vampirismo e outras ameaças do imaginário fantástico. O primeiro número dedica bastante espaço à instalação desse cenário — das rivalidades políticas às ambições militares —, enquanto o segundo continua a ampliar o elenco e recupera episódios essenciais da mitologia do herói. O resultado é uma aventura de escala épica e atmosfera convincente. Aguardo o terceiro número, a sair por estes dias de setembro, para ver o protagonista a aproximar-se do centro da ação.

Patrick Zircher assume aqui um papel autoral quase total: escreve, desenha, arte-finaliza e colora a série. Essa concentração de funções dá ao livro uma identidade muito coesa e revela um criador que conhece bem tanto a voz austera de Kane como o gosto de Howard pela aventura histórica contaminada pelo horror. 

É no desenho que The Lion Errant mais prontamente se impõe. Zircher constrói cenários densos, figuras sólidas e uma Índia visualmente rica, recorrendo a uma linha muito trabalhada sem sacrificar a legibilidade das cenas. A composição transmite solenidade e peso histórico, e a cor reforça tanto o calor e a materialidade dos espaços como a dimensão assustadora do sobrenatural. 

A experiência anterior de Zircher ajuda a explicar uma enorme segurança visual. Antes de se tornar também argumentista de Solomon Kane, destacou-se sobretudo como desenhador em séries como Iron Man, Thunderbolts, New Warriors e Cable & Deadpool, tendo ainda trabalhado para a DC em títulos como Nightwing, Green Arrow, Suicide Squad, Action Comics e The Flash. Neste projeto, essa longa aprendizagem no domínio da ação e da narrativa sequencial é colocada ao serviço de uma aventura menos super-heroica, mais atmosférica e historicamente informada.

A Titan Comics, responsável pela publicação da minissérie em quatro números, prossegue assim a recuperação dos heróis de Robert E. Howard com uma edição cuidada e orientada para leitores de fantasia histórica e horror sobrenatural. Para os admiradores de Howard e de banda desenhada histórica de pendor fantástico, é uma leitura fortemente recomendável.




Animal Pound - t.1 e 2

Animal Pound, minissérie publicada pela BOOM! Studios, assume, sem disfarces, a condição de releitura contemporânea de Animal Farm, de George Orwell. Tom King (o mesmo de Batman, The Sheriff of Babylon, Supergirl: Woman of Tomorrow, etc.) desloca a alegoria da quinta para um canil municipal: animais enjaulados, sujeitos ao abandono e à eutanásia, revoltam-se e conquistam o espaço onde eram mantidos. A vitória, porém, é apenas o princípio. O verdadeiro assunto do livro é o que sucede depois da libertação, quando é preciso transformar um impulso comum de revolta em regras, instituições e mecanismos de representação e quando o medo começa a tornar aceitável aquilo que, pouco antes, parecia intolerável.

Nos dois primeiros capítulos, a narrativa estabelece, com eficácia, o fundamento emocional e político da série. A conversa entre Lucky, um cão condenado a morrer, e Fifi, a gata que o escuta através da parede, confere à insurreição uma origem íntima, feita de memória e promessa. Anos mais tarde, Fifi articula a aliança entre cães, gatos e coelhos, e a tomada do canil abre a fase mais interessante: distribuir alimentos, organizar a convivência e redigir uma constituição. O segundo capítulo torna já visíveis as fraturas entre espécies, interesses e conceções de justiça; sobretudo, mostra como a democracia pode ser deformada não apenas pela violência aberta, mas também por regras eleitorais aparentemente razoáveis e por uma retórica que converte desigualdade em vontade popular.

King trabalha num registo muito reconhecível: personagens traumatizadas, instituições frágeis e repetições verbais que funcionam simultaneamente como refrão e como mecanismo de pressão. O argumento tem a inteligência de não copiar Orwell passo a passo; prefere atualizar a parábola para a polarização, o sistema bipartidário, a manipulação da informação e a ascensão de uma liderança autoritária por via eleitoral. 

Peter Gross (de Lucifer, The Books of Magic e American Jesus, entre outros) é decisivo para que a obra não se limite a um ensaio político ilustrado. O seu desenho, de linha firme e expressiva, distingue os animais sem os humanizar em excesso, preservando-lhes o peso físico, a vulnerabilidade e, quando necessário, a ameaça. A composição das páginas é clara, mesmo nas cenas coletivas, e os silêncios grades, corredores, olhares e espaços vazios possuem quase tanta importância como o diálogo.

Não é uma leitura agradável nem reconfortante, mas é uma obra consistente, que retoma uma referência evidente com uma clareza de propósito digna de atenção.


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