Solomon Kane 1/4: The Lion Errant
Criado por Robert E. Howard em 1928, Solomon Kane é um dos grandes aventureiros da literatura pulp: um puritano inglês do final do século XVI, vestido de negro e movido por uma fé severa, que percorre o mundo perseguindo tiranos, criminosos e forças sobrenaturais. Menos exuberante do que Conan, mas talvez mais inquietante, Kane combina a rigidez moral de um justiceiro bíblico com a condição solitária de um cavaleiro errante. The Lion Errant retoma essa figura depois de The Serpent Ring e envia-a, sob a orientação de um misterioso leão de juba negra e de um antigo bastão atlante, da costa suaíli para a Índia.
A história situa Kane no contexto do confronto entre a rainha guerreira Rani Durgavati e o Império Mogol, cruzando personagens e tensões históricas com deuses, demónios, vampirismo e outras ameaças do imaginário fantástico. O primeiro número dedica bastante espaço à instalação desse cenário — das rivalidades políticas às ambições militares —, enquanto o segundo continua a ampliar o elenco e recupera episódios essenciais da mitologia do herói. O resultado é uma aventura de escala épica e atmosfera convincente. Aguardo o terceiro número, a sair por estes dias de setembro, para ver o protagonista a aproximar-se do centro da ação.
Patrick Zircher assume aqui um papel autoral quase total: escreve, desenha, arte-finaliza e colora a série. Essa concentração de funções dá ao livro uma identidade muito coesa e revela um criador que conhece bem tanto a voz austera de Kane como o gosto de Howard pela aventura histórica contaminada pelo horror.
É no desenho que The Lion Errant mais prontamente se impõe. Zircher constrói cenários densos, figuras sólidas e uma Índia visualmente rica, recorrendo a uma linha muito trabalhada sem sacrificar a legibilidade das cenas. A composição transmite solenidade e peso histórico, e a cor reforça tanto o calor e a materialidade dos espaços como a dimensão assustadora do sobrenatural.
A experiência anterior de Zircher ajuda a explicar uma enorme segurança visual. Antes de se tornar também argumentista de Solomon Kane, destacou-se sobretudo como desenhador em séries como Iron Man, Thunderbolts, New Warriors e Cable & Deadpool, tendo ainda trabalhado para a DC em títulos como Nightwing, Green Arrow, Suicide Squad, Action Comics e The Flash. Neste projeto, essa longa aprendizagem no domínio da ação e da narrativa sequencial é colocada ao serviço de uma aventura menos super-heroica, mais atmosférica e historicamente informada.
A Titan Comics, responsável pela publicação da minissérie em quatro números, prossegue assim a recuperação dos heróis de Robert E. Howard com uma edição cuidada e orientada para leitores de fantasia histórica e horror sobrenatural. Para os admiradores de Howard e de banda desenhada histórica de pendor fantástico, é uma leitura fortemente recomendável.




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