Nunca tínhamos lido nada de Charles Burns, mas com tantas opiniões positivas à nossa volta, ficámos com medo de criar demasiadas expectativas. Afinal fomos surpreendidos com este "Final Cut", editado pela ASA.
Não queremos fazer spoiler nem fazer uma análise muito extensa, mas a verdade é que este livro tem pano para mangas, pois tem várias camadas de leitura e vários ganchos por onde podemos pegar.
A história apresenta-nos um grupo de jovens adultos, de onde se destacam os amigos Brian e Jimmy, que já em crianças faziam filmes de ficção científica/terror. O gosto pelo cinema não esmoreceu em Brian, que aspira tornar-se num cineasta. Os dois, juntamente com o resto do grupo vão partir para uma cabana remota na floresta para fazer um verdadeiro filme do mesmo género, idealizado e realizado por Brian. Pelo meio há Laurie, amiga de Jimmy e por quem Brian vai nutrir um sentimento especial, tornando a rapariga na sua musa inspiradora.
Sendo Brian um rapaz muito tímido e reservado, e não conseguindo ele expressar os seus sentimentos, mantem-se sempre um bocado à parte e a arte é o seu refúgio e a linguagem que domina.
Repleto de referências a filmes clássicos de ficção científica e terror (dos anos 50 e 60), repleto de painéis de representações impressionantes da natureza, do cinema e do surreal, o autor faz aqui quase uma fusão entre os sonhos e a realidade, a imaginação e a percepção de Brian. E isso é-nos apresentado pelos sonhos do protagonista, pelos seus desenhos e pelo próprio filme que estão a realizar.
Dizíamos nós que este livro tem várias camadas de leitura e pontos de interesse e é bem verdade. É um livro sobre memória, relações familiares complicadas, cinema, criação artística, desejo, sexualidade e identidade.
No que toca ao desenho, Charles Burns utiliza linhas muito bem definidas, uma reduzida gama de cores, mas todas elas muito expressivas. Parece tudo muito controlado, tudo perfeito demais, sem nada deixado ao acaso. E a arte do cinema está muito visível aqui, pois o próprio ritmo da leitura é marcado por planos alternados. Há zooms, há planos largos e planos curtos, há paisagens e silêncios.
Diríamos que a nossa primeira experiência com Charles Burns não poderia ter corrido melhor.



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