Lemos muitos livros de banda desenhada, como sabem. Mesmo muitos. E este foi dos mais originais que lemos até hoje. E a sua originalidade tanto está relacionada com o argumento, como do ponto de vista visual. Não é à toa que "Duas Raparigas Nuas", da autoria de Luz, foi o vencedor do prémio FAUVE D’OR 2025 (Prémio de Melhor Álbum do Ano) atribuído no Festival Internacional de BD Angoulême 2025 e também do prémio da ACBD (Associação de Jornalistas e Críticos de BD) em França.
Já tínhamos aqui publicado a crítica que o Miguel Cruz fez à versão original. Ver aqui
Cabe-nos agora falar da versão portuguesa, editada pela ASA, que lemos há poucas semanas.
Começamos por falar do argumento. A história começa quando está a decorrer o nascimento de um quadro, pelas mãos do seu pintor, Otto Mueller. Estamos em 1919, na Alemanha, logo após a Primeira Guerra Mundial. Duas Raparigas Nuas é o nome da pintura e é através do olhar dessa pintura que vamos percorrer um século de História. Estamos numa fase conturbada e de enorme instabilidade e o quadro vai nascer nesta época, marcada pela experimentação estética e liberdade cultural. Contudo, conforme a narrativa avança, vamos assistindo a uma transformação da sociedade alemã e testemunhando a ascensão do nazismo.
A história do quadro confunde-se com a história da Alemanha ao longo de várias décadas e podemos dizer que o quadro Duas Raparigas Nuas é um sobrevivente, pois ele passa por confiscações, vendas forçadas, exposições de propaganda e tentativas de apagamento cultural, mas sobrevive a isso tudo. Apesar de não poder falar, ele funciona como memória histórica, pois vamos vendo os locais por onde passa, a vida quotidiana, a subida do Hitler ao poder, a desapropriação dos judeus e por aí fora.
Do ponto de vista do desenho, estamos perante uma obra de arte a desenhar outra obra de arte. Luz tem um traço muito próprio e as perspectivas, sendo do quadro Duas Filhas Nuas, são muito originais. O olhar do quadro está sempre presente e o que nos é dado a ver é o que ele vê. E este testemunho tanto pode ser fixo, quando está pendurado numa parede, ou numa exposição ou num armazém, como mais movimentado, quando é transportado. Por ele vão passando várias personagens, o pintor, a sua mulher, coleccionadores de arte, comerciantes, soldados e funcionários do Estado, vítimas do regime nazi, etc. Cada página difere da anterior, seja pelo número de vinhetas, pela inclinação do desenho ou pela perspectiva.
Duas Raparigas Nuas é, de facto, um livro que não nos deixa indiferentes.


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