Eldorado
Marcelo Quintanilha, autor bem conhecido do público português, tem vindo a consolidar a sua presença junto do público nacional, tendo estado recentemente em Portugal, no Coimbra BD, onde apresentou outra obra que não Eldorado, publicado originalmente em francês pela Lombard. Este contexto reforça o interesse em torno da sua produção e a expectativa de futura publicação de Eldorado em português. Porque vale a pena!
Em Eldolrado, o autor constrói um retrato intenso e multifacetado de um Brasil urbano marcado por desigualdades estruturais, violência latente e permanente tensão social, ao longo de várias décadas, desde a de 50 do século passado. A narrativa, supostamente tem por base a história de um ascendente familiar do autor, ex-jogador de futebol, Hélcio, mas efetivamente trata-se de uma narrativa com diversos protagonistas, centrada essencialmente nas relações de uma família em que predomina o carácter marcante do pai de família, cruzando trajetórias individuais que revelam, em conjunto, um espaço social fragmentado onde sobrevivência, ambição e identidade se confrontam continuamente.
Não há, portanto, um único protagonista dominante, apesar da “centralidade” concedida, numa primeira parte da BD, aos feitos futebolísticos de Hélcio: antes, uma constelação de personagens, muitas delas ambíguas, cujas experiências convergem para expor a fragilidade do chamado “eldorado”. O título assume, assim, um valor claramente irónico, funcionando como comentário crítico ao tema da ascensão social.
Do ponto de vista gráfico, Quintanilha reafirma uma linguagem visual muito própria, já bem nossa conhecida, assente num traço expressivo, dinâmico e emocionalmente carregado. A utilização da cor é particularmente eficaz na construção de atmosferas frequentemente quentes, densas, quase opressivas que acompanham o ritmo narrativo e amplificam o impacto das situações retratadas. O autor revela também um bom controlo da composição de página, alternando momentos de grande intensidade visual com sequências mais contidas e observacionais.
A estrutura da BD faz com que a leitura seja exigente, e a temática introduz uma dureza que permanece no final da leitura, uma espécie de gosto amargo que sentimos de olhos bem abertos (agora lembrei-me do presidente da câmara de Champignac, não sei bem porquê!?).
L’Île des riches
L’Île des riches (A ilha dos ricos, um título que a priori não me pareceria indicado do ponto de vista literário e de atratividade, constitui um título particularmente feliz pela sua fácil contextualização, e adequado pelo impacto que pretende atingir) o último argumento assinado por Pierre Christin, autor que, falecido há quase 2 anos, nos deixou obras notáveis como Valérian, Agence Hardy e a Caçada, para citar apenas alguns exemplos de colaboração com fantásticos autores como Mézières, Goetzinger ou Bilal, chega ao mercado envolto numa aura de provocação calculada. A premissa uma ilha paradisíaca do Pacífico transformada em reduto exclusivo dos ultra ricos não é apenas cenário: é alvo. Um alvo fácil, dirão alguns; um alvo necessário, dirão outros. O certo é que Christin, fiel ao seu estilo, não resiste a desmontar o verniz do privilégio com a precisão de um cirurgião e a ironia de um moralista cansado.
Entre leitores habituados à BD de intervenção social, e conhecedores deste autor em particular, a expectativa é clara: Christin não veio para confortar ninguém. E L’Île des riches parece confirmar isso desde a primeira linha. Villas sumptuosas, autonomia energética, arquitetura de catálogo tudo cuidadosamente construído para sublinhar a artificialidade de um mundo que acredita poder comprar a eternidade. Até que a natureza decide misturar as coisas.
O tsunami que avança a 800 km/h não é apenas um fenómeno natural; é uma metáfora com a mesma subtileza de uma marreta. Christin nunca teve medo de ser explícito, e aqui volta a lembrar que a fortuna não é colete salva vidas. Quando a água sobe, o dinheiro afunda. E com ele, a ilusão de que o privilégio é uma forma de imunidade.
Sabemos ao que vamos, há total transparência nos objetivos do autor. Mas a narração desta situação contextual não se perde no objetivo global, nem sequer deixa de ser subtil apesar do tom de crítica não o ser. E o “argumento” é substancial, surpreendente por vezes, inesperado muitas vezes, e de uma elegância que a situação não permite.
Titwane, encarregado da parte visual, tem pela frente o desafio de ilustrar um universo onde o grotesco e o luxuoso se tocam. O traço é elegante, as cores são atrativas e tanto alimentam a visão do luxo, como da fúria dos elementos. A fragilidade, diria, é o traço dominante.
Se este é o último argumento de Christin, não é um adeus suave. É uma bofetada elegante. A ler sem moderação, editado pela Dargaud.
Sem comentários:
Enviar um comentário