domingo, 21 de junho de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Ketsudan", de Mud e Motteler e "Diable Pâle", de Brugeas e Siner

 


Ketsudan

Gostei bastante desta BD de Mud (argumento) e Motteler (desenho), publicado pela Dargaud em 2026 e com cerca de 180 páginas, que me surpreendeu, não porque a temática seja inovadora, ou as bases da situação sejam desconhecidas, mas sim porque o tratamento feito pelos autores é interessante, sensível, qualitativamente de valor acrescentado, e moderno.

Ketsudan palavra japonesa que significa “decisão” (ou “determinação”) não é apenas um título, mas o elemento central em torno do qual tudo se organiza. Em Ketsudan, cada escolha surge como um instante suspenso entre o possível e o irreversível. Decidir é avançar, mas é também cortar deixar para trás, traçar uma linha, aceitar o peso do que já não pode ser desfeito. É nessa tensão que a BD respira e se constrói.

O argumento de Mud desenha um mundo regido por códigos, por vezes silenciosos de honra, de lealdade, de sobrevivência onde nenhuma decisão é neutra e todas carregam consequências. Há uma disciplina na progressão narrativa, um controlo que sustenta a tensão e dá consistência ao percurso das personagens. Em paralelo, o bonito e muito direto (por vezes cru) desenho de Motteler dá corpo ao que está em jogo. 

Visualmente, Ketsudan impõe-se pela sua atmosfera. O silêncio pesa tanto quanto a ação. A história é de honra, mas é também de amor: um amor impossível, ou talvez não, é difícil equilibras regras, códigos, sentimentos, regras e o que é mais importante para o “shogunato”. Há movimento, há combate, mas também há momentos em que o tempo parece abrandar, com a narrativa a aguardar a decisão seguinte, como forma de colocar o/a autor(a) a “torcer” pela decisão óbvia, e frequentemente a fazer a “maldade” de tomar a inevitável decisão contrária: a ideia de que tudo vai acabar bem é destruída tantas vezes que o/a leitor/a se prepara para inevitabilidade do desastre.

Nesse tecido de imagens e escolhas, acompanha-se um protagonista confrontado com a exigência de decidir sempre decidir num mundo que não oferece refúgio nem neutralidade. 

Termino onde comecei: uma leitura memorável, agradável apesar da intensidade emocional, com um bom trabalho (creio) sobre o Japão tradicional – período propositadamente deixado indefinido, verdadeira peça de teatro centrada na relação entre Harumi et Natsumé, que nos surgem na capa, rodeados de vermelho sangue. 




Diable Pâle

Este diabo pálido, de Jérôme Brugeas (argumento) e Siner (desenho), publicado pela Lombard, é uma banda desenhada de tom sombrio e intenso que acompanha uma narrativa marcada por violência, deslocação e sobrevivência num contexto brutal. A capa é atrativa, também ela sombria, sendo que, curiosamente o que me chamou a atenção para a BD foi o facto de um conjunto de amigos franceses me ter referido que o desenhador ia estar numa livraria em frança e que já não havia lugares disponíveis para os autógrafos. Não me fez grande diferença (eh eh eh), mas chamou a atenção para a existência da BD.

A história segue um protagonista, cowboy, integrado num assalto, que desde o princípio que se percebe ter uma relação próxima com índios (americanos nativos), envolvido num ambiente hostil e implacável, onde a lei é instável e a moral é frequentemente ambígua. A capa é reveladora do tema. Ao longo do álbum, desenvolve se uma narrativa tensa e física, quase visceral, em que o percurso das personagens é definido por confrontos sucessivos, escolhas difíceis e uma constante sensação de perigo. 

A nível gráfico, o trabalho de Siner é determinante para a identidade da obra, e constitui o seu principal chamariz. O traço é expressivo, dinâmico e carregado de energia, com uma forte presença física das personagens e uma encenação visual muito cinematográfica. O uso da cor frequentemente contrastada e dramática reforça a violência latente e a tensão constante da narrativa. As composições privilegiam o movimento, o impacto e a intensidade emocional, conferindo à leitura um ritmo acelerado e imersivo. É, efetivamente, um page turner, em que a última página é virada com um suspiro e um aliviar de tensão nos ombros (ena, que exagero?!). 

O tandem de autores funciona bem, existe complementaridade. O argumento de Brugeas é sólido, introduz um bom domínio do ritmo e cria as condições para que o desenho crie um ambiente opressivo e coerente. A narrativa é envolvente e intensa, com uma progressão bem controlada e momentos de grande impacto dramático. Há um tratamento curioso e bem estruturado de um tema onde a inovação já é bastante difícil. A BD é eficaz, mas será mais apreciada por aqueles que gostam de westerns. 

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