Ketsudan
Gostei bastante desta BD de Mud (argumento) e Motteler (desenho), publicado pela Dargaud em 2026 e com cerca de 180 páginas, que me surpreendeu, não porque a temática seja inovadora, ou as bases da situação sejam desconhecidas, mas sim porque o tratamento feito pelos autores é interessante, sensível, qualitativamente de valor acrescentado, e moderno.
Ketsudan palavra japonesa que significa “decisão” (ou “determinação”) não é apenas um título, mas o elemento central em torno do qual tudo se organiza. Em Ketsudan, cada escolha surge como um instante suspenso entre o possível e o irreversível. Decidir é avançar, mas é também cortar deixar para trás, traçar uma linha, aceitar o peso do que já não pode ser desfeito. É nessa tensão que a BD respira e se constrói.
O argumento de Mud desenha um mundo regido por códigos, por vezes silenciosos de honra, de lealdade, de sobrevivência onde nenhuma decisão é neutra e todas carregam consequências. Há uma disciplina na progressão narrativa, um controlo que sustenta a tensão e dá consistência ao percurso das personagens. Em paralelo, o bonito e muito direto (por vezes cru) desenho de Motteler dá corpo ao que está em jogo.
Visualmente, Ketsudan impõe-se pela sua atmosfera. O silêncio pesa tanto quanto a ação. A história é de honra, mas é também de amor: um amor impossível, ou talvez não, é difícil equilibras regras, códigos, sentimentos, regras e o que é mais importante para o “shogunato”. Há movimento, há combate, mas também há momentos em que o tempo parece abrandar, com a narrativa a aguardar a decisão seguinte, como forma de colocar o/a autor(a) a “torcer” pela decisão óbvia, e frequentemente a fazer a “maldade” de tomar a inevitável decisão contrária: a ideia de que tudo vai acabar bem é destruída tantas vezes que o/a leitor/a se prepara para inevitabilidade do desastre.
Nesse tecido de imagens e escolhas, acompanha-se um protagonista confrontado com a exigência de decidir sempre decidir num mundo que não oferece refúgio nem neutralidade.
Termino onde comecei: uma leitura memorável, agradável apesar da intensidade emocional, com um bom trabalho (creio) sobre o Japão tradicional – período propositadamente deixado indefinido, verdadeira peça de teatro centrada na relação entre Harumi et Natsumé, que nos surgem na capa, rodeados de vermelho sangue.




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