quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

A opinião de Miguel Cruz de "Les Vieux Fourneaux - Tome 8: Graines de Voyous", de Cauuet e Lupano

 



Les Vieux Fourneaux - Tome 8: Graines de Voyous

Les Vieux Fourneaux é uma série de sucesso em França (para além das vendas, há já duas adaptações cinematográficas), por razões compreensíveis. Um desenho agradável, o tom alegre apesar da seriedade de alguns assuntos tratados, a simpatia com que olhamos para as três personagens centrais, todos bem passados dos 70 anos, Pierre (Mayou), dito Pierrot, anarquista, contestatário, impulsivo, quiçá explosivo, um pouco trapalhão, vive em Paris, continuando a “trabalhar” com um grupo de velhos anarquistas; Antoine (Perron), aparentemente mais calmo, aparentemente mais conservador, ex-sindicalista, pouco desenrascado para as coisas do dia a dia, mas contestatário e truculento sempre que a mostarda lhe chega ao nariz; Emile (Carabignac), dito Mimile, muito prático, viajado, ex-sedutor, descontraído, mas sempre com claros problemas com a autoridade, ex-desportista, ex-jogador de rugby (na capa por ordem). Os três têm uma amizade à prova de bala, sempre desentendidos e em discussões, mas sempre solidários e compreensivos dos problemas dos outros. Todos com problemas com uma ou outra personagem da vila de Montcoeur.

Pelo meio, temos uma personagem que, desde o primeiro tomo, desempenha um papel central na pacificação de situações, a neta de Antoine, Sophie, que herdou da sua avó um teatro itinerante de marionetes e o seu espectáculo de sucesso “Le Loup en Slip” (o lobo em cuecas que, já agora, é o título de uma outra série de sucesso do mesmo argumentista, mas para o segmento juvenil). E a combinação resulta muito bem, nesta série centrada sobre a amizade, a solidariedade, a velhice, as mudanças resultantes das mudanças climáticas, entre outros problemas societários recorrentes.

Neste tomo oitavo, publicado no final de 2024, Pierrot tem vários problemas num café em que para pedir uma simples bica tem de “scanar” o QR Code, e encomendar on line, acabando no tribunal, onde lhe comunicam a chegada da sua irmã que não via há quase 70 anos à vila de Montcoeur. Na vila, a chegada da irmã de Pierrot que todos confundem com o problemático ancião, causa forte comoção. Entretanto Sophie prepara uma sessão comemorativa do seu espetáculo de marionetes e do trabalho da sua avó, um pretexto para uma viagem a “memory lane” (o título “sementes de malandros” numa tradução discutível, não é inocente). O mais importante agricultor da região é entrevistado sobre o impacto da seca e do calor, e tem uma epifania quando observa o fundo sem água da ribeira local. E daqui vai nascer o problema central desta história, que termina num pequeno conflito com Antoine.

Divertida, inteligente, bem-disposta, esta BD merece o destaque. Obviamente que há linhas narrativas e estruturas de humor que são baseadas em especificidades francesas, desde as rivalidades e as piadinhas sobre os parisienses, a importância do Rugby no desporto em França, ou as diferenças de sotaque, putaing! Admito, por isso, que uma tradução não seja nada tarefa fácil. Mas que há 10 anos que esta série reúne preferências em França é algo incontornável. Paul Cauuet é dono de um desenho simples e expressivo, e dono de uma composição de página atrativa e que nos impede de abandonar a leitura a meio. Wilfrid Lupano (esteve em Portugal para promover um seu outro livro: Branco ao redor) é um argumentista com capacidade para os diálogos cortantes e imaginativos, para as situações surpreendentes e “descabeladas”, para o tratamento aparentemente com leveza de assuntos muito sérios, para a critica social com elegância. Manter a qualidade de uma série ao longo de 8 tomos não é tarefa fácil, mas é desafio conseguido.




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