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sábado, 14 de fevereiro de 2026

A opinião de Miguel Cruz sobre "Le Roi Sans Couronne", de Toni Carbos

 


Le Roi Sans Couronne

Editada pela Sarbacane, da autoria do Barcelonês Toni Carbos e adaptado do romance de Javier Cosnava, “O Rei sem Coroa” é uma excelente e surpreendente BD que tem como pano de fundo a final do campeonato do mundo de xadrez de 1978 entre Kasparov e Korchnoï.

Eventualmente alguém já, por esta altura, pensou, campeonato do mundo de xadrez, que chatice…. Curiosamente, eu lembro-me de ver notícias sobre este campeonato do mundo na televisão, a preto e branco. Havia uns quadros enormes onde alguém fazia deslocar as peças ilustrando as jogadas, enquanto alguém fazia comentários. Um espetáculo surpreendente para um miúdo, a que acresciam cenas de pressões, discussões, espiões. Recordo-me de esta ter sido uma das primeiras vezes que ouvi falar de um dissidente Soviético que pediu asilo político. 

Enfim, voltemos à BD: Korchnoi (o rei sem coroa, fica aqui o spoiler – ou talvez não, para quem conheça a história do Xadrez) e Kasparov iniciam o seu embate em 1978 nas Filipinas. Korchnoi, o mestre que fugiu da URSS, onde ficaram a sua mulher e o seu filho, e Kasparov o jovem génio apoiado pela máquina Soviética. Korchnoi que usa óculos espelhados para evitar golpes baixos do seu adversário, que se queixa de sabotagem hipnótica de um dos membros da equipa adversárias e que traz um grupo de hindus para contrariar essa má influência, Kasparov que exige uma análise à cadeira de Korchnoi, que se queixa da guerra de nervos… enfim, tudo isso é real, tal como vai ser o resultado do jogo.

Em paralelo com esta narrativa, Benjamin, um francês preso desde 1945 por um crime que não se lembra de ter cometido, reconhece, numa foto de jornal, um americano que gosta de ser tratado por MC (não eu) que esteve preso a seu lado durante algum tempo e a quem ele ajudou. Recorrendo a um pedido de clemência, Benjamin – que já não tem referências nem razão de vida no exterior – procura MC para pedir que o ajude a esclarecer o mistério do crime hediondo – de um seu amigo local, sua mulher e uma das filhas – de que foi acusado. MC, um mercenário que sabemos contratado pela CIA, aceita ajudar o seu amigo. 

Assim, à medida que o jogo se vai desenrolando, vamos percebendo o papel de MC, e nos intervalos, a investigação de MC e Benjamin avança. A conclusão dos dois “assuntos vai acabar por ficar ligada, de forma surpreendente, dramática e – porque não dizê-lo já – sangrenta.

Uma BD historicamente bem documentada, uma narrativa construída com imaginação e credibilidade baseada em factos reais. Uma história fácil de seguir, mas imprevisível e surpreendente, muito humana, para o bem e para o mal. Um desenho com pormenores de linha clara, muito cuidado e legível, agradável de seguir. Desenho e texto jogam muito bem, um todo muito interessante. Cheque ao rei. 



quinta-feira, 11 de julho de 2024

A opinião de Miguel Cruz sobre Carcajou", de Eldiablo e Deroche e "Ulysse et Cyrano", de Servain, Dorison e Cristau



Carcajou

Carcajou é um Western.

Carcajou é uma aventura intensa, plena de tensão.

Carcajou é cor, explosão, numa aventura bem narrada com muitas páginas de limitado diálogo.

Carcajou é passada no Canadá, na vila de Sinnergulch, em que o dono daquilo tudo é o riquíssimo Jay Foxton, que explora petróleo, emprega muita gente, tem o presidente da Câmara e o Xerife na sua folha de pagamentos.

Carcajou apresenta-nos um Xerife “deixa andar” e um Presidente de Câmara “não sei de nada, não quero saber de nada”.

Em Carcajou, temos uma pequena parcela de terreno numa colina que se mantém ainda e sempre fora do controlo de Foxton e que é pertença de Gus Carcajou. 

Carcajou é uma BD que foca a ânsia de poder e a necessidade, ânsia, mais que ambição absoluta de controlar todo o terreno.

Também em Carcajou, a dona do cabaret local é mulher forte e de carácter, que não é grande apreciadora de Foxton.

Carcajou é aparentemente uma soma de lugares-comuns, cujo resultado é uma BD movimentada, um choque de diferentes personagens, em que todos desempenham o seu papel atribuído de forma minuciosa e credível, que se lê de um fôlego (ou dois, um para cada conjunto de 100 páginas), com um desenho característico, simplista, muito colorido e expressivo, e plena de surpresas. 

Carcajou é a BD primeira de Djilian Deroche no desenho, e mais uma criação da recheada imaginação do francês El Diablo, de seu nome verdadeiro Boris Dolivet.

Carcajou é editado pela Sarbacane e, para quem se consegue adaptar ao estilo de desenho (que tem algumas semelhanças com o estilo de Christophe Blain), é uma leitura aconselhável, não apenas por ser plena de surpresas, mas porque a qualidade narrativa de texto e imagem conjugados está presente.





Ulysse et Cyrano

Quase a concluir o primeiro semestre, a Casterman editou um livro de peso: grande formato, mais de uma centena e meia de páginas, uma BD de grande qualidade – um dos TOP editoriais do primeiro semestre de 2024, que será certamente uma das BD do ano (entre outras, aproveito para recordar o excelente La Cuisine des Ogres, de que descobri há dias em Bruxelas, ter recebido o prémio FNAC Bélgica de 2024).

O argumento é do nosso bem conhecido Xavier Dorison (em português já temos Long John Silver, Undertaker, W.E.S.T., 1629…ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta, XIII Mystery, O Castelo dos Animais e devo estar a esquecer algum), acompanhado por Antoine Cristau, especialista em gastronomia – porque esse é o tema da BD (ou será apenas a desculpa?).
O excelente e elegante desenho realista ficou a cargo de Stephane Servain, que se encarregou também das cores, com particular sucesso e qualidade. Um desenho luminoso e que nos transmite um sentido positivo forte.

Quase 10 anos são passados desde a conclusão da II Grande Guerra e Ulysse é um jovem que, sem grande entusiasmo, dedicação ou vocação, vai sendo preparado para suceder ao seu pai à frente de uma das grandes empresas de França (cimentos essencialmente) e de uma grande fortuna.
Só que, subitamente, o seu pai é acusado de ter colaborado com os agressores nazis e, enquanto o assunto vai sendo discutido, Ulysse vai com a sua mãe e o seu apelido de solteira algures para a região de Borgonha. E aí vai encontrar um Cyrano de nariz pequeno, barriga e coração grandes, verdadeiro eremita, tímido mas explosivo, um grande cozinheiro.

Se a relação entre os dois se inicia pela vontade que Ulysse tem de conseguir que a sua mãe, fragilizada, se alimente, uma amizade profunda e uma vocação culinária vão acabar por nascer. 
Esta BD, para além de abrir o apetite, tem uma linha condutora aparentemente simples, e aborda com grande sensibilidade questões particularmente complexas, que vão desde o papel das mulheres na sociedade, a choques geracionais e choques entre diferentes estratos da sociedade ou mesmo entre citadinos e “rurais”, passando pela evolução das técnicas culinárias e o esforço e sofrimento associados à obtenção e manutenção de estrelas culinárias. Mas essencialmente, esta BD fala-nos de liberdade, fraternidade e amizade, e a importância, muitas vezes esquecida, de se ter prazer naquilo que se faz.  IN VOLUPTATE VERITAS, a verdade está no prazer.

Sim, alguma utopia, muito bem tratada ao longo das mais de 150 páginas; sim, algumas personagens de caráter pouco inovador, mas contextualizadas tão inteligentemente que o prazer de leitura é enorme, verdadeiramente até ao fim da última página (que nos enche o coração). Para consumir sem moderação.