quinta-feira, 26 de maio de 2022

As opiniões de Miguel Cruz de dois livros de autores que estarão presentes este fim de semana no Festival BD de Beja!

Com a inauguração amanhã pelas 21 horas do Festival Internacional de BD de Beja, aqui ficam mais duas oportunas opiniões de Miguel Cruz de dois livros de autores que lá estarão presentes, os portugueses Paulo Vaz de Carvalho e João Mascarenhas (O Perigoso Pacifista - Edição A Seita) e a francesa Chloé Wary (A Época das Rosas - Editora Planeta Tangerina e Conduite Interdite - Edição Steinkis).
 
Boas leituras e visitem o Festival de BD de Beja este fim de semana!


O Perigoso Pacifista (Edição a A Seita)
E pronto! Com grande satisfação está lido O Perigoso Pacifista, uma BD de conteúdo biográfico sobre Adriano Correia de Oliveira, da autoria de Paulo Vaz de Carvalho e João Mascarenhas. Tudo é de saudar: o tema, a agradável abordagem a um período da nossa história, os detalhes factuais e alguns anedóticos, o retorno do João Mascarenhas à edição de BD. Não era preciso dizer mais.

De facto, a BD em Portugal vai estando benzinho e recomenda-se, mais, mais.
Sou de uma geração que praticamente não se recorda de Adriano Correia de Oliveira como personagem pública, pois a sua morte chegou muito cedo. Mas a sua voz sempre foi perfeitamente presente, tal como muitos dos episódios e detalhes aqui narrados com muito interesse e com desenho muito cuidado do João Mascarenhas (que confirma a afirmação de José Barata-Moura no prefácio: “…uma articulação inteligente – superiormente conseguida – de textos com imagens e de imagens que são texto”).

O período relatado, e o seu contexto político, no entanto, é-me presente por ter sido um período intenso para a geração dos meus pais e dos meus avós. Adicionalmente, alguma realidade de Coimbra faz parte do meu imaginário, afinal uma grande parte da minha família viveu e vive por lá. E a voz, aquela voz que me é familiar desde criança, é notável.

Sim, é verdade, a evocação da vida de Adriano Correia de Oliveira e do seu cruzar de vidas com outros como José Nisa ou Manuel Alegre (A Trova do Vento que Passa, pois então!) ou Fausto para citar apenas alguns, implica necessariamente, a partir de uma determinada geração ou idade, uma viagem nostálgica e reaviva a imensa saudade de alguns cujas frases, imagens, pensamentos nos marcaram, e, obviamente, de entes queridos que já nos deixaram. É sempre bom recordar.

Para os leitores mais novos, esta BD editada pl’ A Seita é uma viagem plena de informação, descrição bonita de uma determinada vivência, retrato de uma época, e curiosidade, tendo ainda o bónus de vir acompanhada de um CD com uma voz que, e cito o texto que sai da boca de Manuel Alegre na página 20: “…está carregada desse não sei quê antigo que trazemos no sangue, como o apelo do mar e o amor da terra e do nosso próprio ser”.





Conduite Interdite (Edição Steinkis)
Existia uma alternativa. O destino de uma mulher não pode estar traçado desde a sua nascença. Ser uma mulher não tem de ser um fardo… Este extrato é retirado de Conduite Interdite, uma BD de Chloé Wary, já com mais de um ano, mas que resolvi abordar aqui, atenta a presença próxima da autora em Beja.

Nesta BD, a personagem central volta à Arábia Saudita após viver 5 anos em Londres, ida e volta determinadas pelos afazeres profissionais do seu pai que, aliás, não reagiu bem a alguma independência que a filha foi adquirindo durante a sua estadia em Inglaterra.

Nour, a nossa personagem, pelo contrário, desenvolveu uma consciência particularmente profunda sobre o papel da mulher, as oportunidades (entre outras profissionais), da sua independência, e está particularmente preocupada com este retorno a casa no ano de 1989 – simbolicamente tem de se cobrir com o véu assim que a aterragem é anunciada. Em Londres dedicou-se à – e estudou – fotografia, o que, aliás, lhe permitiu ficar com registos desse período de liberdade.
Com muita dificuldade de adaptação, Nour volta a ter um papel secundário numa sociedade patriarcal e, apesar de o seu marido – de casamento arranjado – (também ele tendo estudado no ocidente), ter alguma sensibilidade para a situação e anseios da sua esposa, procura formas de mostrar revolta face ao seu enquadramento social.

Essa revolta simbólica surge quando um grupo de mulheres decide “pegar” num conjunto de 15 viaturas e conduzir, num país onde até 2018 as mulheres estavam proibidas de o fazer. As consequências são as esperadas numa sociedade Saudita no ano de 1990.

É um livro curto, a preto e branco, que descreve, com base numa história simples, uma sociedade sobre a qual conhecemos pouco – e que hoje, apesar de tudo é diferente da de 1990. De leitura rápida, a história é narrada de modo sensível, com desenhos agradáveis, estruturas assimétricas que procuram contrastar as barreiras sociais com um desejo de liberdade.
A estrutura de cada página (as vinhetas todas diferentes umas das outras) é diferente da do livro da autora que foi publicado em português, pela Planeta Tangerina – A Época das Rosas, e que apenas vim a ler mais tarde. Duas obras distintas, duas obras interessantes. Uma a preto e branco e outra a cores. Publicado pela Steinkis.





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