quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

A opinião de Miguel Cruz de "Gaston: Le Retour de Lagaffe", de Delaf e "Le Dernier Jour de Howard Phillips Lovecraft", de Giulivo e Rebelka

 

Gaston: Le Retour de Lagaffe

É isso mesmo, Gaston está de volta. Tive oportunidade de ir dando nota da evolução da providência cautelar que a filha de Franquin colocou para evitar a publicação deste novo tomo de Gaston Lagaffe, de autoria de Delaf, e editada pela Dupuis, detentora dos direitos. Processo concluído, o livro “está cá fora” desde finais de 2023.

No tocante ao desenho, ele é muito bom, muito bem pensado para estes gags de uma página, muito na linha Franquin. Por aqui aquelas discussões de chamados “puristas” não têm muito por onde pegar. Essas discussões também, diria, não são muito interessantes – já sabemos que estas edições são primeiramente motivadas pelo potencial comercial. E é por aí que faz sentido também discutir o tema – será que a exaustão de algumas séries pode vir a matar alguma galinha dos ovos de ouro? Quanto ao mais, discutamos a qualidade da obra!

Já agora, importa dizer que, tanto quanto consegui saber, o acolhimento do público foi bom. A crítica parece ter sido favorável, esta BD tem estado a vender bem. Aposta ganha, portanto.

Os gags são engraçados, lêem-se bastante bem, os cânones da série foram respeitados, a época é mantida, não existe uma opção de modernizar a série, mas o conteúdo dos gags é adaptado a uma leitura contemporânea do humor. 

Há algumas opções de risco, em que a distração de Lagaffe, o seu afastamento das convenções do dia a dia, são levados a um ponto onde se raia a antipatia, nomeadamente na sua relação com a mademoiselle Jeanne. Mas, no essencial, este álbum é muito bem conseguido, sobrevive a uma comparação com o trabalho de Franquin, mesmo que não entre para a lista dos melhores tomos da série,  recomendando-se, assim, a todos, puristas ou não!

Transparece do trabalho do Canadiano Delaf uma admiração pelo trabalho de Franquin, e o carinho e credibilidade do tratamento da personagem são resultado direto de uma clara homenagem ao mestre. O mundo é diferente hoje, e isso tem consequências no contexto e na relação entre personagens. O humor está bem presente, e Gaston continua inigualável. Citando a sempre presente gaivota HiHiHiÂÂRRR!








Le Dernier Jour de Howard Phillips Lovecraft

Eh lá! Face a esta capa aparentemente de fugir, estranhamente não fugi. Eu sei que “a curiosidade matou o gato”*, mas o nome do escritor americano de terror, referência do género, chamou-me a atenção.

 “Que raio será isto?” perguntei eu. É uma história (bem) imaginada de um encontro no leito de morte de Phillips Lovecraft (faleceu em 1937, aos 46 anos, de doença, no hospital, nos Estados Unidos) com Randalph Carter. “Então mas Randalph Carter era uma personagem inventada pelo próprio escritor”… Pois era, e no entanto… se calhar trata-se de um sonho…

O que Romuald Giulivo (Argumento) e Jakub Rebelka (desenho), se devem ter divertido a criar esta BD que acompanha o hipotético último dia da vida de Howard Phillips Lovecraft, suportado com morfina, sub-nutrido, e relatando a história da sua vida. Ou melhor, episódios da sua vida, relatados através de verdadeiros sonhos e trocas de argumentos com várias das suas personagens e pessoas que cruzaram a sua vida (sim, sim, até Edgar A. Poe, faz a sua aparição). 

O relato é coerente e inovador, o/a leitor/a é fortemente desafiado, angustia-se com o escritor cuja pergunta essencial é como atingir a imortalidade através da sua obra. Para quem não conheça, saiba que, na vida real, o autor morreu sem ter atingido qualquer sucesso, considerava-se um autor falhado.
Um pesadelo em BD, enfim. Uma pérola de imaginação, uma maravilha gráfica. Coragem, caro leitor/a, a alucinação será passageira, e quando virar a última página o alívio será proporcional ao prazer gerado pela coerência da leitura! 

Cada quadradinho é uma verdadeira pintura, com cores vivas, agressivas, psicadélicas, numa composição de página viva e agressiva, que captura a nossa atenção e nos mergulha nas introspeções do moribundo escritor.

Editada pela pouco conhecida (por mim, está bem de ver) 404 éditions, esta BD é notável, e uma excelente leitura mesmo para quem possa não ser grande apreciador de fantástico ou de terror. 

* que fique esclarecido que nenhum ser vivo foi maltratado durante a elaboração desta “crónica”. Nem o/a leitor/a, espero.



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